segunda-feira, 22 de maio de 2017

Para os Dias Chuvosos





A maioria das pessoas que conheço acham os dias chuvosos um aborrecimento. Eu não. Sem contar com a afirmação de que a chuva é absolutamente necessária para nossa sobrevivência, existem outros motivos para eu gostar dela. Porque quando chove, eu faço algumas coisas que me deixam melhor.

Gosto de escutar música e ficar à janela olhando a chuva cair. É incrível como as lembranças boas chegam nesses dias... eu me recordo dos tempos em que eu e minha mãe, sozinhas em casa enquanto o resto da família estava trabalhando, ficávamos à janela juntas em dias chuvosos. Nós olhávamos o pessegueiro, as gotas de chuva nas flores da Esponjinha, os pequenos córregos que se formavam no nosso quintal. Muitas conversas surgiam naqueles momentos. Ela me falava de sua infância. Mal sabia que estava me fornecendo material para escrever um dos meus contos, "O Anjo no Porão." 

Também era nos dias de chuva que eu gostava de escrever em meu diário, quando era apenas uma adolescente. Era ali que eu escutava meus vinis do Queen e ficava me lembrando do meu 'crush' na escola, e tecendo fantasias sobre o dia em que ele viria falar comigo e confessar que gostava de mim (dia que nunca aconteceu). 

Nos dias de chuva, fazíamos doce de abóbora e também bolinhos de chuva. Sentávamos na nossa sala, ligávamos a TV e assistíamos a velhos filmes dos anos 40 na Sessão da Tarde, ou então aos festivais Jerry Lewis. 

Minha mãe tinha uma velha máquina de costura Singer, e ela fazia batas para mim nos dias de chuva. Eu adorava uma que tinha a pala estampada com joaninhas vermelhas sobre um fundo branco. Ela também aproveitava o tempo para costurar botões no lugar, cerzir joelhos rasgados ou consertar bainhas esfiapadas. 

Eu tinha que brincar dentro de casa, e costumava enfileirar minhas bonecas e ministrar aulas imaginárias. Ou então fingia que estávamos em um clube, e que éramos amigas. Também gostava de usar minha aquarela e meus lápis coloridos, e ficava horas desenhando.

No verão, quando chovia forte, assim que a chuva passava, minha mãe nos pedia que fôssemos até o bar ali perto para comprar pão ou outra coisa qualquer, e a gente voltava caminhando por dentro da enxurrada que corria junto ao meio-fio, arrastando nossas sandálias Havaianas, que às vezes tinham as tiras arrancadas pela força da água, e nós parávamos para colocá-las no lugar. 

E quando o tempo chuvoso finalmente passava, após alguns dias de muita água, as crianças começavam a sair de suas casas; chamávamos umas às outras, convidando para brincar lá fora, ou para jogar bola na rua. De repente, nós emergíamos das casas cujas janelas começavam a ser abertas, e as mães também apareciam, estendendo cobertas e colchões para arejar ao sol e enchendo os varais de roupas lavadas. 

Como eu poderia não gostar de um dia de chuva?

Hoje eu os aproveito para fazer tarefas caseiras que são desagradáveis em dias de calor, como passar roupas, por exemplo. Também estendo uma velha toalha no chão e escovo meus cachorros até que eles durmam. Às vezes eu vou para a cozinha com o livro de receitas e faço alguma coisa diferente. Se der tempo, assisto a um bom filme ou leio um pedacinho do livro que estiver lendo no momento. 

Há possibilidades; dias de chuva podem ser vividos muito intensamente. Sem contar que são os melhores dias para se ficar na cama com o cara-metade, batendo papo e...