terça-feira, 23 de julho de 2013

Casa Vazia





CASA VAZIA


Quando nos mudamos para esta rua, há seis anos, logo percebi que teria bons vizinhos. Todos estão sempre prontos a ajudar, respeitam a privacidade uns dos outros e convivem de maneira gentil. É claro, descobrimos mais afinidades com alguns do que com outros, mas de maneira geral, somos todos bons vizinhos.

A casa ao lado da minha, era ocupada por uma família: mãe, pai, dois filhos, alguns empregados... e -acho- uma dezena de cães! Adoro cães, e eles não me incomodam ao latir, a menos que eu perceba que são latidos de angústia, o que nunca foi o caso. Meu marido às vezes reclamava do barulho dos cães, pois um deles latia compulsivamente quando os donos estavam ausentes. Este latido também me incomodava, pois era de tristeza...mesmo sabendo que o caseiro vinha todos os dias cuidar de tudo, meu coração murchava quando ele começava a latir.

Há pouco tempo, percebi que os jarros de plantas que marcavam o portão da casa, desapareceram. Caminhões de mudança carregavam, aos poucos, objetos e mobília. É lógico, percebi que meus vizinhos estavam indo embora. Bem, eles não eram, exatamente, grandes amigos, já que nem sequer se despediram dos outros vizinhos. Ou de nós. Não posso dizer que sinto saudades deles.

Mas a casa vazia me incomoda. Não ouço mais os carros chegando em casa à noite, nem os cães latindo. Foram-se os vasinhos de flores e casinhas de passarinho pendurados no madeiramento do telhado da garagem. O alarme não dispara mais no meio da noite porque alguém se esqueceu de desligá-lo antes de sair para uma volta no jardim. Acabou o movimento de crianças indo e chegando da escola, ruídos delas em volta da piscina. À noite, olho para o outro lado e está tudo escuro. Bem mais silencioso, mas escuro...




Quando eu ainda era uma adolescente, e todas as minhas irmãs já tinham se casado, meus pais pegaram pneumonia ao mesmo tempo, e uma de minhas irmãs, que morava perto de um hospital, achou melhor ficarmos com ela até que nossos pais se curassem. Ficamos morando no centro da cidade durante mais ou menos um mês. Um dia, minha mãe me pediu que eu fosse em casa pegar algumas coisas. Quando cheguei lá, levei um choque: O mato havia crescido tanto, que tive que atravessá-lo para chegar até a porta da casa. Quando entrei, o soalho de madeira estava todo mofado, coberto por uma camada de pelos verdes, e as roupas da casa cheiravam a mofo.

Logo percebi o que significa uma casa estar morrendo! Imediatamente, eu e minhas irmãs abrimos as janelas e começamos a faxinar, lavar, esfregar, encerar. Quando meus pais voltaram, estava tudo limpinho de novo.

Uma casa vazia, ou um coração vazio: sinônimo de angústia. Tomemos sempre cuidado para que nunca sejamos tomados pelo mofo da indiferença e da falta de amor.



5 comentários:

  1. Olá Ana adorei conhecer seu blog.
    Obrigada pela visita beijinhos.

    ResponderExcluir
  2. Realmente amiga uma casa vazia é muito ruim, principalmente quando nos acostumamos com as pessoas, parece tudo muito vazio, sem alegria, você descreve muito bem com detalhes essa angústia, parabéns...um lindo dia pra você...

    ResponderExcluir
  3. Ana, seu blog está lindo, como os demais. Vazios nos passam sensação de dor, ainda que estejam visíveis em uma casa, onde se espera encontrar vida e alegria. Bjs.

    ResponderExcluir
  4. Um texto lindo e extremamente significativo. Amei Anne! Gr. Bj.!

    ResponderExcluir
  5. Nossas vidas passam sempre por um processo, que implica em faxinar, tornar habitável o bom e o belo.
    Belíssima construção Ana.
    Um abração amiga.

    ResponderExcluir

Sinta-se em casa para deixar um comentário, por favor. Espero que tenha gostado. Obrigada pela visita!