segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Das Gavetas


Faturas de cartões de crédito antigas, pedaços de papel de presente, cabos USB de celulares e computadores que não temos mais, caixas de fósforos, botões sobressalentes cujas camisas já se foram há muito tempo, novelos de linhas apodrecidas, agulhas tortas e enferrujadas, manuais de instrução de produtos que já sabemos como usar, garantias de produtos cujas garantias já expiraram, notas fiscais de produtos antigos, bijuterias quebradas, enfim, trecos que não servem para nada. Enchi dois sacos de duzentos litros destas e de outras coisas.

Depois, três sacos de cem litros de roupas e sapatos para doação. É incrível constatar o quanto eu, que detesto guardar bagulhos, guardo bagulhos!

Mas mantive algumas coisas: cartas e cartões de meu marido. Alguns, dos tempos que namorávamos, outros mais recentes; cartões de minha mãe.

Aliás, a história dos cartões de minha mãe são engraçadas; ela não costumava escrever nos cartões que enviava, pois dizia que assim, poderíamos reaproveitá-los... quando escrevia, era apenas "Para Ana / de sua mãe Ruth" como se eu tivesse outra mãe... uma vez, ela encontrou com meu marido nas Lojas Americanas, onde comprava para ele um cartão de aniversário. Ao vê-lo, ela entregou-lhe o cartão, dizendo: 'É pra você mesmo! E assim, sem estar escrito, você pode aproveitá-lo para outra pessoa!" Dizendo isso, ela se despediu.


Só esqueceu-se de que não tinha pago pelo cartão, o que meu marido teve que fazer ao sair da loja... sogra é sogra!

Uma vez, em um momento muito difícil de minha vida, ela me escreveu uma carta bem longa... nela, dizia o que ela achava que eu deveria fazer para ser mais feliz; conselhos, observações (algumas me ajudaram bastante) e a certeza de que ela me amava. Acho que foi a única vez que ela disse isso. Tenho a carta até hoje. Recentemente, falei com ela sobre a carta, mas ela não conseguiu lembrar-se de tê-la escrito: "Você tem certeza de que fui eu mesma que escrevi esta carta?" Bem, ela tinha 85 anos...

Acabei desviando-me do tema desta crônica, que é sobre gavetas esvaziadas. Esvaziei muitas gavetas e armários. Coloquei roupas de cama, mesa e banho para doação. Ainda falta examinar livros, CDs e vinis. E tem a cozinha. Acho que tenho coisas demais por lá.

Depois, a principal gaveta: a do pensamento.




terça-feira, 20 de agosto de 2013

Depois do Almoço






Depois do Almoço


Sábado passado, fomos almoçar em casa de minha sogra; depois do almoço, nós nos sentamos na varanda dos fundos da casa, as pernas ao sol, olhando o céu que estava absurdamente azul, enquanto descansávamos do almoço.

Foi quando ouvi a corneta e o pregão do homem que vende picolés, e o garotinho da vizinha desceu as escadas de casa, acompanhado de uma senhora, para comprar picolés. Fiquei com inveja dele... me deu uma saudade enorme dos tempos de criança!

Tarde de verão escaldante; nós, brincando no quintal após chegarmos do colégio. De repente, a cornetinha do sorveteiro, anunciando: "Tem de milho-verde, creme-holandês, morango, coco e chocolate!" Eu e minha irmã corríamos para catar moedinhas de dentro das gavetas, enquanto Seu Orlando, o sorveteiro, nos aguardava na rua. Às vezes ele nos pedia um copo d'água, suado e cansado de subir a ladeira carregando a caixa de isopor cheia de picolés, debaixo daquele solão!

Não eram os maravilhosos picolés da Kibom, e sim, uns picolés meio-aguados, feitos em casa. Meu favorito era o de creme holandês, uma mistura de groselha com leite, que tinha um cremezinho que se acumulava na base. Era o mais doce de todos. Depois que Seu Orlando ia embora, soprando sua cornetinha, eu e minha irmã nos sentávamos nas escadas de casa, olhando a rua e tomando nossos picolés.

Acho que estou ficando velha mesmo!



Escrito em 11/10/2010

domingo, 18 de agosto de 2013

Falar a Língua de Um Cão






Quando a Latifa veio aqui para casa, era apenas um bebezinho, que mal chegando aos nossos pés, deitava-se em cima deles e adormecia profundamente. Aliás, para que ela adormecesse, bastava que a pegássemos no colo e a virássemos de barriga para cima, como se faz com os bebês, e ela imediatamente, dormia.

Diferentemente do que aconteceu com o Aleph, meu primeiro cão, custei muito a aprender a comunicar-me com a Latifa. Estávamos sintonizadas em canais totalmente diferentes. Enquanto Aleph era inteligente e obediente, e eu era capaz de entender o que ele queria através de um simples olhar, e vice-versa, não havia comunicação entre Latifa e eu. Às vezes, eu gritava com ela, e até dava-lhe umas palmadas, mas ela não entendia seus limites ou as coisas que eram proibidas a ela fazer, como por exemplo, arrancar as plantas do jardim e fazer buracos. Na mesma hora em que eu a repreendia, ela voltava a fazer o que estava fazendo, sem a menor cerimônia!

Aquilo deixava-me exasperada! Cheguei a pedir que meu marido a devolvesse ao ex-dono várias vezes, e queria presenteá-la a qualquer pessoa que vinha aqui em casa e achava bonitinha.

Ela era terrível! Além de desobediente, ela tornava a vida do Alpeh um inferno: mordia-lhe as patas traseiras quando ele andava, tomava-lhe a cama, agarrava-se com os dentes às bochechas dele, que ia arrastando-a e chorando enquanto andava, destruía seus brinquedos. Não sei como ele aguentou... e se eu ameaçava bater nela, ele literalmente se punha entre nós duas, com aquela cara de cachorro que quebrou a louça.



Hoje, Latifa está mais velha. Fez sete anos. Já passamos tantas coisas juntas, que aprendemos, há tempos, a falarmos a língua uma da outra. Ela só precisava de mais paciência e amor.

Tenho uma grande "cãopanheira" na Latifa. Ela deita-se no tapete e adormece, enquanto escrevo. Segue-me pela casa, e procura estar sempre o mais próxima possível de mim, chegando a ficar debaixo da janela da sala de aula se eu estiver trabalhando. Mas não foi fácil, no começo.

Se você quiser ter um cão pela primeira vez, precisa entender que a 'cãomunicação' raramente é imediata; pode levar algum tempo. É preciso que você dê ao seu cão uma chance. Bem, talvez duas ou três, quem sabe... mas no futuro, você perceberá que ele vale as plantas picadas, os buracos no jardim e os pés de mesa roídos.





Crônica escrita em 18/10/2011
Aleph, infelizmente, nos deixou naquele mesmo ano...

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

Conversa em Família à Mesa da Cozinha





Três gerações de mulheres sentam-se em volta da mesa da cozinha para conversar. Num círculo, como bruxas em um coven. A avó (minha mãe), suas filhas (eu e minhas irmãs) e netas (minhas sobrinhas). O motivo: a comemoração do aniversário de duas de nós. Nascidas no mesmo dia, ambas em casa, através de parteira, mas com uma diferença de onze anos uma da outra. Librianas por coincidência.
Os homens da casa, como sempre, estão no sofá assistindo TV, discutindo política, futebol e o futuro da humanidade. Piedosas, nós às vezes colocamos uns copos de refrigerantes, sanduíches e salgadinhos e levamos para eles.
A avó idosa às vezes perde o prumo da conversa, e de repente faz perguntas que já foram respondidas, criando situações muito engraçadas. Nós rimos, respondemos novamente, e ela às vezes comenta nossas respostas usando os comentários mesmos que alguém acabou de usar.
A conversa prossegue. Discute-se quem era a preferida do pai, quem estudou nas melhores escolas, quem era a mais rebelde, a mais calma, a mais namoradeira... quem engordou mais...contamos e recontamos nossas estórias, de vez em quando, deixando entrever um traço de ressentimento, logo encoberto por uma sonora gargalhada. As netas ouvem mais do que falam, e tenho certeza de que em alguns anos, elas hão de se lembrar destas tardes à volta da mesa da cozinha.



Fico sabendo que meu parto foi o mais complicado. Descubro que meu padrinho de batismo foi escolhido como meu padrinho porque foi ele quem correu para chamar Dona Maria Carioca, a parteira, quando minha mãe começou a sentir as dores. E que depois do demorado parto, tiveram que chamar um médico, pois as dores não paravam.
Lembramos do bebê que um dia fomos. As mais velhas conhecem algumas das estórias, e reforçam as estórias da avó com seus comentários.
A avó diz: "Só falta o irmão..." mas comentamos que ele nunca esteve presente em reuniões de família.
Conversas se cruzam, um "X" entre o presente e o passado. Assuntos variados surgem ao mesmo tempo, e as netas falam de seus mestrados, doutorados e carreiras, enquanto as irmãs e a mãe discutem dietas, menopausas, receitas, estórias da infância e pessoas que se foram.
Mas logo um assunto em comum volta a ser o foco. "O que você pôs nessa torta salgada?" 
De vez em quando, um dos homens vem até a cozinha para ver o que está acontecendo. Alguém diz: "Não está na hora de partir o bolo?" E uma de nós concorda: "É melhor... tenho que acordar cedo amanhã..." e todas suspiramos, lembrando da segunda feira que se aproxima.
Velas, parabéns, mais refrigerantes, eu corto as fatias de bolo, minha irmã as distribui. Repetimos. Sobre a mesa, na toalha branquinha da minha irmã, farelos de bolo de chocolate e nozes.
Em seguida, as despedidas e promessas de "Até uma próxima vez!"




publicado no Recanto das Letras em 29/09/2009

terça-feira, 13 de agosto de 2013

Há Muito tempo, Uma saudade...






Macarronada cheia de queijo-ralado e pastéis: tudo o que o médico proibiria (se eu tivesse lhe dado uma chance). Para disfarçar, uma enorme salada: alface, tomate, ovos cozidos, pimentão cru picado bem miudinho. Tudo bem regado ao azeite, é claro. E um suquinho de frutas com adoçante para disfarçar.

Ontem não fiz caminhada, pois recebi a visita dos sobrinhos. Passamos a tarde no jardim, ao sol, jogando conversa fora, sentados na grama. Latifa, feliz da vida, trazia seus brinquedos para que os jogássemos para ela, e Aleph, austero, assistia a tudo, de vez em quando achegando-se para um rápido carinho (ele não é de muito agarramento) indo deitar-se à sombra do telhado da varanda. Depois, quando o sol ficou mais forte, nós nos juntamos a ele, espalhados pelas cadeiras e rede.

Falamos das coisas da vida, coisas que estão acontecendo - umas boas, outras, nem tanto. Mas tudo são coisas da vida. Começou a esfriar, e entramos. Fomos para o meu quarto, ouvir o ensaio da banda do meu sobrinho em seu MP3. Também escutamos um pouco de música do meu tempo, e eles gostaram tanto, que levaram o CD para gravar. Deixaram-me um do Foo Fighters. Troca de experiências geracionais.



No finalzinho do que restou daquela tarde maravilhosa, descemos para tomar café com calóricos bolinhos de banana. Queijo branco, para disfarçar. 

Início da noite, despedidas no portão. Promessas de repetirmos a dose. Logo depois que eles saíram, senti a casa imensa. Sobre a mesinha da TV, os CDs que eles deixaram. 

Chega meu marido, cheio de pacotes de comida: pão, bolo de chocolate, queijo, "Carolinas". Frutas para disfarçar. Decepciona-se ao ver que eles foram embora - tinham planejado passar a noite, mas a chegada da namorada tem prioridade, é claro! Meu marido reclamou: "Pô, eu trouxe tanta coisa, pensando que eles estariam aqui..." Percebi que sua decepção não era pelas coisas que tinha trazido...

Sangue jovem. Música. Alegria. Conversa fiada. Papo sério. Até outro dia!



domingo, 11 de agosto de 2013

Dona de Casa - Um poema


Vassoura em punho,
Percorreu cantos recolhendo o pó em montes.
Pôs as cobertas ao sol,
E abriu bem as janelas.
Ia pintando, com suas tintas,
A tela simples de sua vida,
Deixando tudo melhor
E mais limpo, onde passava.

Batia um bolo, cerzia um pano,
Enquanto a roupa batia na máquina.
Lia um poema na cozinha
Enquanto o jantar cozinhava.



A idade já pesava,
Mais ainda, ao chegar à janela
E ver a moça que passava,
Bem-vestida e maquiada...

A dona-de-casa pensava:
"Deixei aqui minha vida,
Entre a roupa limpa e as panelas,
Papinhas e histórias da Carochinha
Contadas nas noites insones das crianças..."

Às vezes, ela sentia angústia
Ao pensar no que havia
Do outro lado da vida,
Onde a moça que passava vivia...

O que ela não sabia,
Era que a vida passava
Para a tal moça, também,
Que ao vê-la à janela,
Sonhava com a própria casa
Que um dia, ela teria,
Não fosse a vida agitada!...



quinta-feira, 8 de agosto de 2013

Corte & Costura



Quando eu era pequena, minha mãe tinha uma daquelas máquinas de costura Singer, de pedal. Ali, ela fazia vestidinhos e batas para nós, e também fronhas e lençóis para a casa. Lembro-me de uma calça de lã marrom que ela fez para mim, e na primeira vez em que usei, levei um tombo e rasguei-a no joelho... de castigo pela minha desobediência (minha mãe tinha mandado eu parar de correr algumas vezes, antes do tombo), ela a cerziu e tive que usá-la assim mesmo; morria de vergonha de ter que usar a calça cerzida no joelho!

Minha mãe também fazia nossos vestidos de festa caipira para o colégio, e uma vez, confeccionou meu vestido de noiva! Noiva caipira, é lógico.



Mas naquela máquina de costura, ela ensinou minhas irmãs a costurar. Uma de minhas irmãs, a Ester, aprendeu rapidamente: logo, ela estava costurando calças modelo pantalonas saint-tropez para a mulherada toda da vizinhança, e as calças que ela costurava, faziam o maior sucesso. Minhas outras duas irmãs também aprenderam logo, mas eu era uma negação... nunca consegui passar linha na máquina, muito menos, costurar.

Minha mãe tentou de tudo: bordado, tricô, crochê. O máximo que ela conseguiu, foi ensinar-me a pregar botões. Eu era - sou - uma negação em trabalhos manuais. Quem fazia as roupinhas para minha boneca Suzi (uma antepassada da atual Barbie), era uma amiga, cuja mãe trabalhava em uma malharia, e sempre tinha muitos retalhinhos coloridos em casa.



Aprendi a fazer pulseirinhas de palha, entremeadas de contas. Nisso, eu era boa! Chegava no colégio e trocava com as outras meninas por roupinhas de boneca, ou então, vendia e comprava mais continhas para fabricar mais pulseirinhas e colares. Eu amava fazer aquilo!




Já casada, eu tentei fazer fuxicos. Não, não estou falando de fofoca maldosa, mas daqueles pedacinhos de pano cortados em formato redondo e depois franzidos; quando se tem uma porção deles, a gente emenda os pedaços e faz colchas, almofadas e o que mais a imaginação mandar. Investi fundo na compra de retalhos. No começo, foi divertido, cortar os paninhos e sentar na rede para franzir os fuxicos, jogando-os num saco plástico ao ficarem prontos; mas na hora de montar a colcha... céus! Que desgraça... ficou tudo um horror, e minha fase-fuxico passou como uma ventania.

Não adianta; quem nasceu para lagartixa, jamais chega a jacaré. Não sei costurar, e pronto. Mas sei fazer um doce de abóbora que ninguém faz melhor!



segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Dona Benta - Lembranças da Cozinha de Minha Mãe




Acaba de chegar em minha casa a nova edição do livro de culinária "Dona Benta: Comer Bem," que encomendei no Submarino. Comprei o livro não apenas pelas receitas (quem sabe, assim eu aprendo a cozinha melhor, hehehe), mas também porque ele me traz muitas lembranças boas da minha infância.

Minha mãe tinha um igualzinho, que pertenceu a uma parenta, não me lembro se era uma tia ou a avó... é claro, a nova edição está remodelada e foi modernizada, mas o livro é muito, muito antigo. Sei que o da minha mãe ainda existe em algum lugar, agora na casa de minha irmã Ester, eu acho.

Além de receitas, ele tem muitas dicas sobre cozinha. É grossão, mas é uma leitura leve e prazerosa. Bem, talvez ele tenha alguma influência negativa na dieta que pretendo começar exatamente no dia 23 de Abril, que é o dia da minha consulta marcada com a endocrinologista... mas eu simplesmente não resisti! Quem sabe, a nova edição tenha alguma receita diet? Vou olhar mais tarde.



Bem, mas vamos às lembranças: minha mãe abria o livro sobre a mesa da cozinha e começava a inventar receitas nas tardes chuvosas, principalmente no período "entre-safras de supermercado," quando os mantimentos estavam acabando e meu pai ainda não tinha feito as compras do mês. Ela juntava os ingredientes que ainda tínhamos em casa - trigo, ovos, açúcar, leite, manteiga - e abria o livro. Eu, sentada à mesa da cozinha, ficava observando-a trabalhar, e aproveitava para comer o que restava da massa de bolo crua... surgiam bolos, ou doces-de-leite, pastéis, molhos, bolinhos-de-chuva... de tudo um pouco.

Minha mãe aprendeu uma receita de doce-de-leite quebra-queixo que ficou tão boa, que ela fez um embrulhinho para eu mandar para a professora na escola. O problema, é que ela gostou tanto, que toda semana, ficava pedindo para eu levar mais.



Lembro-me da chuva lá fora e das vidraças embaçadas. E do cheiro que dominava a nossa casinha enquanto as coisas cozinhavam!...

Quem sabe, eu não venha a descobrir um novo talento? Estou mesmo precisando de novos estímulos e de novidades em minha vida. Acho que vou começar a testar o livro amanhã, que é domingo, e eu terei tempo de sobra. Se a receita der certo, eu mando um pedacinho para vocês.



domingo, 4 de agosto de 2013

Conversas Com a Minha Casa



Conversas com a minha casa

Sento-me na velha poltrona gasta de couro marrom. Já é quase noite. Sempre adorei o crepúsculo, desde que era bem pequena. 
O Silêncio é tão grande, que consigo ouvir o relógio da cozinha. É nessas horas que sinto mais paz. Eu e o Silêncio somos grandes amigos, e não consigo viver sem ele durante muito tempo. Mesmo durante as festas, às vezes eu vou ao banheiro sem precisar, apenas para contatar meu grande amigo, o Silêncio.
Por isso, convidei-o a morar comigo. Ele às vezes precisa se ausentar, quando recebo alguns convidados, ou quando coloco uma música um pouco mais alta para ficar 'no clima da faxina'. Mas ele sabe que eu preciso dele e que por isso ele é sempre bem-vindo, então quando todos se vão e a noite chega, ele se senta comigo na sala de estar. Tomamos uma xícara de chá, e juntos, convidamos a Casa para uma prosa.
Ela desperta, e nos acolhe. Caminhamos de mãos dadas pelos corredores, eu e o Silêncio, e sempre acabo encontrando pedaços de nós nos cantos dos cômodos: fotos, uma camiseta jogada displicentemente nas costas da poltrona do quarto, as escovas de dente, chinelos, vidros de perfume... e a casa me diz: "Logo anoitece, e ele vai voltar para nós." O silêncio aperta minha mão, concordando.
Volto a sentar-me, desta vez, na varanda.
Ouço o mesmo grilinho cantando, o mesmo desde que nos mudamos para cá, há cinco anos. Cecília o chamaria de "Estrelinha de Lata". A Casa me convida a andar no gramado, olhar as estrelas, procurar pirilampos. 
Lá do alto do jardim, olho para baixo e vejo a Casa, me olhando aconchegantemente, iluminada apenas pela luz fraca dos abajures. Suas janelas são olhos que me fitam, e a porta, uma boca que me sorri. O silêncio foge temporariamente, quando um cão uiva no quintal do vizinho. Aleph e Latifa respondem.
Aproveito para ficar novamente sozinha com a casa. Ela me diz que ainda existem alguns fantasmas habitando os cômodos, mas que eles não podem me fazer mal. Eu às vezes estou trabalhando na cozinha, e sinto como se houvesse alguém atrás de mim, observando o que faço. Outras vezes, quando ponho uma música um pouco mais alta, fico intrigada porque o volume diminui pouco a pouco, sem que eu perceba, e quando dou por mim, quase não posso ouvir a música. A casa me diz que os fantasmas não gostam de qualquer tipo de música, preferem as clássicas.
Às vezes, a TV liga sozinha. Já aconteceu várias vezes, e não sei explicar o motivo. A Casa sorri. Diz que é tudo uma brincadeira para me assustar.
Ouço os passos do Silêncio que se aproxima novamente, sentando-se no sofá. Deixo que ele fique à vontade, pois daqui a pouco ele chega, e entre os sons das conversas, os relatos do que aconteceu durante o dia e o barulho da TV, o Silêncio não será ouvido. 
Mas quase sempre, lá pelas onze da noite, após todas as conversas, comes e bebes e ruídos da TV, nós nos sentamos os quatro: Ele, eu, a Casa e o Silêncio.




Texto publicado em 22/09/2009 no Recanto das Letras