domingo, 29 de setembro de 2013

BRILHO


Estive revendo fotos antigas. Acabei encontrando algumas das quais eu já tinha até esquecido... fotos dos tempos em que nos mudamos para esta casa, há nove anos. Nelas, o gramado ainda aparece meio-machucado por causa das obras recém-terminadas, mas já tomando o jeitinho do que ele é hoje. Algumas plantas foram mudadas. Não tínhamos agáveas em volta do cedro, e sim, tapetes (uma espécie de folhagem) de várias cores.. por onde andam as Onze-Horas, aquelas florezinhas cor-de-rosa que só abrem ... às onze horas?

A Latifa aparece bem mais magrinha, jovem, sempre perturbando o Aleph... e ele, ainda jovem, parece estar sorrindo nas fotos. Vejo que ele estava muito feliz. Ele foi um cachorro feliz. Mudar-se para cá foi como renascer, para ele! Um jardim grande para passear, uma nova amiga, um canil maior...

Até mesmo a atmosfera era diferente. Naqueles dias, não havia tristezas em nossas vidas. Tudo estava novo, recém-terminado e recém-começado. Não havia mortes.

Eu às vezes ando pelo meu jardim, e apesar de sentir muito prazer ao fazer isso, ainda tenho a impressão de que faltam coisas. A atmosfera hoje é como em um final de festa, uma despedida. A casa foi arrumada, mas o clima de despedida ainda permanece.

Debaixo do cedro, o cantinho onde o Alpeh costumava sentar-se. Bem ao lado, um outro canto, ao sol, onde meu sobrinho sentava-se quando vinha aqui em casa. A cadeira na varanda, de onde eu olhava para eles.

Espero que eu consiga, finalmente, lustrar a vida até que o antigo brilho me seja devolvido, ou que um outro brilho nos surja. Tem horas que eu penso em mudar-me daqui, mas será que adiantaria?

Afinal, são apenas momentos. Hoje eu estou assim, mas amanhã, estarei diferente.


Crônica escrita em 2011, alguns dias após a morte de meu cão Aleph - ele morreu aos quatorze anos de idade, devido à complicações comuns à idade.




terça-feira, 24 de setembro de 2013

FONTES & OUTRAS FONTES DE BOAS ENERGIAS





Mantenho uma pequena fonte em minha salinha de aula. Disseram-me que ela traz prosperidade - e coincidência ou não, depois que a adotei, as coisas melhoraram bastante. Uma fonte, com seu contínuo fluxo d'água, limpa e renova.

Também é muito bom manter flores frescas e vasos com plantas vivas, não artificiais, pois elas trazem vida, beleza e harmonia ao ambiente.





Li em um livro que, a fim de descarregar energias negativas que podem permanecer em uma casa após uma discussão, é uma boa ideia queimar na lareira um bulbo de cebola. Quem não tem lareira, pode fazê-lo em um recipiente qualquer. Acho que a cebola pode mesmo ter esta propriedade de absorver coisas ruins, já que em minas de carvão, é proibido aos trabalhadores levar cebolas em suas lancheiras, já que elas absorvem os gases nocivos, tornando-se fatais a quem as ingere.




Outra ideia: quando estou para receber alguma visita 'difícil,' antes que a pessoa chegue, percorro toda a casa rezando, enquanto seguro um incenso. Peço para que a casa e todos nós estejamos protegidos. Após a visita, se necessário, passo um pano umedecido em água onde dissolvi sal grosso. Um bom banho de sal grosso do pescoço para baixo também é ótimo para 'limpar' a aura!



Gosto também de atrair os pássaros e esquilos para meu jardim, dispondo comedouros com frutas que os agradam. É sempre muito gostoso passear em um lugar cheio de passarinhos e bichinhos! E os animais sempre trazem consigo inocência, alegria e paz.




Quando as coisas dentro de uma casa começam a quebrar - a cafeteira novinha pára de funcionar, a TV liga ou desliga sozinha, copos escorregam das mãos mais vezes do que seria normal, ou então começamos a sofrer pequenos (ou grandes) acidentes -, é hora de fazer uma boa limpeza: em primeiro lugar, harmonizar pensamentos e concentrar-se no propósito da limpeza. Em seguida, após limpar a casa fisicamente, cortar um limão em cruz, juntar algumas folhas de louro, alguns cravos e canela em pau; ferver bem. Deixar amornar e com a ajuda de um pano limpo, passar a mistura pela casa toda, pensando em coisas boas.




Bagunça, sujeira  e desordem são o contrário de uma casa harmoniosa. Melhor manter tudo limpo e arrumado, pois o ambiente que nos cerca nos diz muito da nossa personalidade. Além disso, é sempre gratificante procurar as coisas e encontrá-las, acordar de manhã e abrir os olhos em um ambiente limpo e organizado e ir dormir sabendo que na manhã seguinte não terá que lavar a pilha de louças do jantar!



quinta-feira, 19 de setembro de 2013

Jardins & Jardineiros






Todo mundo que tem um jardim em casa, por menor que seja, sabe das dificuldades de se conseguir um bom jardineiro; ou melhor: das dificuldades de se conseguir qualquer jardineiro, seja bom ou ruim. Acredito que em breve, encontrar pessoas que façam serviços caseiros - jardinagem, pequenos consertos, pintura - ficará muito difícil e muito caro! Quem sabe, serão estas as profissões do futuro?

E olhem que nem sou do tipo 'Madame Chata", que reclama de tudo, que exige que o jardineiro saia exatamente às cinco da tarde (por mim, ele pode sair às duas, desde que o jardim esteja pronto). Pago no mesmo dia, não peço descontos, aqueço a refeição deles (com direito a suco ou refrigerante e sobremesa, se tiver) e ainda sirvo um senhor lanche à tarde. Nem sequer exijo perfeição... só quero alguém que venha aqui no dia marcado e faça o meu jardim.




Vejo a vizinha lidando com seus jardineiros, e de vez em quando, rola um estresse feio! Posso escutá-la daqui de dentro da minha casa, reclamando do serviço e mandando fazer de novo. Mesmo assim, os jardineiros estão com ela há anos! Tentei contratá-los; ficaram contentes e marcaram para a semana seguinte. Acordei cedo para esperá-los, e conforme a hora ia passando, percebi que eles não iam aparecer... faltaram no primeiro dia de serviço! E o que mais me deixou indignada, é que eles acenaram para mim lá da casa da tal vizinha. Indaguei: 

"Não era dia de vocês trabalharem aqui?"

E um deles, na maior cara de pau:

"É, Dona Ana... mas a gente veio para cá hoje. Amanhã a gente vai trabalhar aí."

"Não precisa. Amanhã eu vou sair."

"Então nós vamos na próxima sexta!"

"Não precisam vir amanhã, nem na próxima sexta! Como eu disse, eu quero trabalhar com pessoas que tenham responsabilidade e cumpram com seus compromissos."

E a vizinha, fingindo constrangimento:

"Ah, Ana, eu não sabia que era o seu dia... deixa passar desta vez!"

Respondi que não deixaria de jeito nenhum.

Será que meu jardim está com 'urucubaca?' 





Então, lá vou eu de novo: pego o cortador de grama (embora ele tenha sido avariado pelo último jardineiro que passou por aqui) e vou para o gramado. Mas cortar a hera é serviço braçal demais para mim, além do muro ser alto demais.

Novamente, estou procurando por um jardineiro. Um que fique. Talvez eu tenha que virar uma Dona Ana chata e briguenta, exigente e detalhista para conseguir que alguém fique. Bem, vou tentar...



domingo, 15 de setembro de 2013

A Energia do Sábado





Desde pequena, sempre adorei os sábados... lembro-me da época em que eu tinha aulas de inglês e educação física nas manhãs de sábado, e acordava cedinho, a casa cheirando à madrugada, e dirigia-me à escola enquanto todos ainda dormiam. As aulas sempre terminavam com a gente jogando queimado no pátio da escola, e ao meio-dia, eu caminhava com as amigas até a avenida, onde tomava o ônibus para voltar para casa.

Sábado era dia do meu pai chegar mais cedo do trabalho. Era dia da comida mais caprichada. Era dia de ouvir músicas e brincar na rua. Também era dia - mais tarde, quando me tornei uma adolescente - das festinhas no início da noite, na casa de Dona Celina - mãe de amigos nossos, a única que não se importava com a nossa bagunça.

Na casa de Dona Celina, tudo era possível e permitido. Frequentemente, entrávamos já chamando pelos nomes de nossos amigos (quatro irmãos: dois meninos e duas meninas), e íamos adentrando a casa, encontrando Dona Celina na cozinha, passando roupas, debaixo do velho relógio cuco. Ela nos recebia com alegria, pois gostava de ter jovens em volta.

A casa de Dona Celina era bem pequena, mas era o lugar onde todos gostávamos de ficar.

Uma das lembranças mais queridas que tenho de lá, é a de uma noite de natal; voltávamos da comemoração em casa de minha irmã, recém-casada, e quando saímos do táxi, percebemos a luz e as vozes vindas da casa de D. Celina. Após alguma insistência, eu e minha irmã adolescente tivemos, finalmente, a permissão de nossos pais para irmos lá, "bem rapidinho." E encontramos a festa de natal sem ceia farta e sofisticada, mas com muita música, dança e alegria. 

Na casa de Dona Celina, nós nos arrumávamos para irmos aos bailes - "Sons", como eram chamados naquela época . As meninas disputavam o único espelho do armário do quarto, dividindo e partilhando sombras, rímel, blushes, batons e lápis de sobrancelhas... e de lá, saímos todos juntos nos domingos à tarde, em direção ao Serrano Futebol Clube.

A casa de Dona Celina foi nosso point, nosso ponto de encontro, da infância à adolescência... 

Comecei falando de sábados, e terminei recordando a casa de Dona Celina. Mas é que não existiam sábados sem casa de Dona Celina. E os sábados sempre me trazem lembranças daqueles tempos.



quarta-feira, 11 de setembro de 2013

Chá




Chá


Chá de maçã com pouco açúcar,
Torradas com manteiga e mel...
Pela janela, um pedacinho
Uma nesguinha azul de céu.

De gole em gole, sorvo o chá
Que tem um gosto de passado,
No fundo da xícara, memórias
Com o açúcar cristalizado.

Licor de chocolate; um trago,
O friozinho pela fresta...
O crepitar do fogo, as chamas,
Dançando na lareira, em festa.

Passa por mim a vida inteira
Entretecida aos fios de lã
Da manta que me agasalha
Enquanto eu mordo uma maçã.

No corredor, o tique-taque
Quebra o silêncio dessa tarde.
A casa viva me vigia,
E eu adormeço, eu adormeço...

Nem mesmo sei se é de verdade
O chá, o mel, o chocolate...
Na sonolência eu me esqueço...
Até que um cachorrinho late.






domingo, 8 de setembro de 2013

Domingo ao Sol



A casa parece sempre mais quieta no domingo. Parece que os fantasmas vão descansar em outros lugares no final de semana. Sinto até saudades deles...

Mas hoje tive um dia bem gostoso, sentada à sombra da minha laranjeira perfumada, coberta de flores, com meu leitor de e-livros, envolvida em uma leitura muito agradável. O sol estava quente sem queimar, do jeitinho que eu gosto.  Às vezes, eu erguia os olhos do livro e olhava a montanha ao longe. Parecia que as palavras do autor ecoavam mais fortemente, quando eu fazia isso.

Foi um lindo dia. Agora, fresca pelo banho recente, vou enrolar-me em uma manta bem macia e curtir o final da tarde assistindo a um bom filme. Sinto que os fantasmas retornam à casa silenciosa.



domingo, 1 de setembro de 2013

De Manhã...






De manhã, antes do sol nascer, já estou de pé, abrindo janelas e pensamentos. Deixo a brisa fresca entrar e varrer para longe qualquer resquício de sonho mau. Depois, acendo um incenso, enquanto varro a casa e passo um pano úmido no chão.

Tomo meu café da manhã sentada - nunca gostei de comer apressadamente.

Após um banho, vou lá para fora providenciar a troca da água dos beija-flores e as frutas dos comedouros dos pássaros. Há três jacus que estão sempre por aqui, e já não fogem mais de mim. Esta manhã, surpreendi-me por ter conseguido chegar bem perto de  um deles. As aves acabam se acostumando com a nossa presença, mas isto não significa que confiam em nós. Acho que elas sabem de todas as histórias de pássaros engaiolados, apedrejados ou que tiveram seus pés colados à galhos de árvore nos quais posaram inocentemente.

É gostoso acordar cedo. Acho que acordar tarde é um grande desperdício de vida. Aproveito o tempo que sobra para pensar na vida, rezar pelos meus mortos e pelos vivos - acho que estes últimos necessitam bem mais de rezas. Quando a rotina começa, sinto-me pronta... a casa limpa e cheirosa para receber meus alunos, e eu, pronta para entregar-me a mais um dia que começa.