domingo, 28 de dezembro de 2014

Resoluções & Soluções





No final do ano, todo mundo quer fazer planos e começar o ano renovando a vida e as amizades, e quem sabe, até mudando de casa. Se for este o seu caso, desejo que você encontre a casa dos seus sonhos e seja muito feliz nela.

Se não for, se permanecer na sua velha casa é seu desejo, que você se renove e passe a vê-la com novos olhares, encontrando dentro dela novos prazeres. É possível mudar a cor de uma parede, a posição dos móveis e depois sentir as energias se renovando... não e preciso muito!

Mas se você não deseja pintar a casa, não tem problema: coloque um vasinho com flores frescas, que você pode colher na beira da calçada mesmo. Já reparou como existem lindas flores que ninguém vê porque não presta atenção? Tenho certeza que elas ficarão lindas naquele vasinho que você tem guardado em casa, escondido dentro de algum armário!

Bem, seja lá como for - mudando de casa, reformando a casa antiga ou deixando tudo como está, o importante é ser feliz e lembrar-se de agradecer por todas as coisas da vida , sejam elas consideradas 'boas' ou 'ruins', pois a vida é assim, feita de altos e baixos. 

Desejo que seu 2015 seja muito feliz e tenha muito mais altos do que baixos.


Feliz ano novo!




sábado, 20 de dezembro de 2014

Mensagem às Famílias





Desejo que a verdadeira significação do natal esteja presente em sua casa e em sua alma. Que a noite seja feliz de verdade, que todos estejam realmente integrados e dispostos a compreender, a acolher, a olhar para o outro sem os terríveis véus da comparação e do preconceito.

Que aprendamos todos a aceitar o outro como ele é, mas que isto sempre signifique também ser compreendido e aceito. Porque todo sentimento de amor em uma família deve ser recíproco. Muitas vezes, nos lembramos de pedir e cobrar, de impor e ordenar, mas nos esquecemos que o outro existe! Ele sente-se ferido como nós, sente a mesma dor humana que sentimos, sente-se só, precisa do mesmo carinho que precisamos.

Acima de tudo, que possamos aprender a nos alegrarmos de verdade pela alegria do outro; a nos sentirmos homenageados quando o outro receber uma homenagem; a sermos solidários quando o outro estiver triste; a não julgarmos sempre de má vontade o que o outro disse ou fez sem antes conhecer as suas razões. Que cada conquista do outro possa fazer com que nos sintamos bem sucedidos. Que não haja em nossa boca nenhuma palavra para depreciar, nem que seja um pouquinho só, aquilo pelo qual o outro lutou, buscou e conseguiu através do seu esforço, e que o deixa feliz, pois quem faz isso, são os nossos inimigos - se os tivermos. Membros de uma família não deveriam agir assim.

E que sejamos honestos, em todos os sentidos, pois é só através da honestidade - no real sentido da palavra - que poderemos progredir na vida, alcançar bens mais duradouros e valiosos, olharmos a nós mesmos no espelho sem sentir culpa e sem procurar nos outros os seus erros para que nos sintamos melhor em relação aos nossos. Quando somos honestos, podemos olhar o outro de frente, sem medos, sem portas, sem preconceitos, sem maldade. Uma família que não age aberta e honestamente em relação a todos os seus interesses comuns, deveria separar-se, pois desejar "ganhar" em cima do outro é abominável! 

É preciso aprendermos a ser mais generosos quando nos referirmos aos membros da própria família. A família deveria ser uma instituição segura, e as pessoas deveriam valorizar e amar a sua família muito mais do que a qualquer outras pessoas que a ela não pertencem. Se não for assim, não existe família.

Um Feliz natal a todas as famílias!




segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

Casa em Dezembro





Casa em Dezembro é casa enfeitada. Pelo menos, deveria ser! Mas de nada vale enfeitar a casa por fora e não espanar as teias de aranha e a poeira do ressentimento e da inveja por dentro. 

Casa em dezembro é casa iluminada. Mas de nada adianta acender as luzes da varanda e da árvore de natal e continuar escuro por dentro.

Casa em dezembro pode ser sinal de casa cheia de gente! Mas de nada adianta encher a casa de pessoas quando estamos vazios de sentimentos verdadeiros, de amor, de respeito, de verdade e de paz. 

Casa em Dezembro é casa de brincadeiras de amigo oculto; mas de que adiantam as brincadeiras, se por trás de cada amigo oculto esconde-se um inimigo, declarado ou não?

Casa em dezembro é casa cheia de fartura. Mas de nada adianta ter a mesa cheia e o coração vazio.

Casa em dezembro é casa com presentes. Mas de nada adianta distribuir presentes e continuar cheio do bolor do passado e do medo do futuro.

A casa em dezembro deve ser, antes de tudo, algo bem mais acima do que apenas tradições que cumprimos e que, muitas vezes, nem paramos para meditar sobre seus significados. De que adianta reunir a família se seus membros falam mal uns dos outros pelas costas, excluem uns aos outros, colocam uns contra os outros? Que não haja hipocrisia sobre a mesa! 

De que adiantam lindas fotografias natalinas nas redes sociais, se por trás de cada sorriso existem o ressentimento, a competição, o ciúme, a inveja velada? Preferível passar o natal sozinho, meditando sobre seu verdadeiro sentido a vivê-lo apenas superficialmente, apenas para manter as aparências e não quebrar as tradições! Não acredito nas tréguas Natalinas; não existem tréguas quando o coração está vazio de sentidos e de amor. 

Se quisermos ter um Feliz Natal, será preciso bem mais que o mês de dezembro. Será preciso um ano inteiro onde possamos agir com solidariedade, amizade, compreensão, verdade, gentileza, fraternidade e, acima de tudo, amor.



quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Dos Armários





Meus armários precisam de uma arrumação e limpeza urgentes! Tanta coisa acumulada... e olha que eu vivo doando tudo! Compro algo novo, doo algo usado. Mesmo assim, há coisas demais. Acho que o tempo que passa nos mostra o que é realmente necessário e o que é dispensável. 

Dia desses, como eu sempre faço há anos, subi em uma das prateleiras do armário a fim de alcançar algo que estava mais alto. Ela quebrou. Para que o armário todo não desmoronasse, peguei a prateleira quebrada e coloquei-a no lugar da pilastra de madeira que se partiu, escorando as outras. Senti o peso das coisas inúteis quando aquela prateleira se quebrou. Tanta roupa, sapato, lenço, edredom, cobertor, lençol, bijuteria, bolsa... para quê?

Ano que vem completo cinquenta anos. Já passei da metade da vida. Tenho mais de meio caminho andado. Hora de rever, revisar, separar e escolher as coisas e situações que desejo manter ou encerrar, e meu armário bagunçado reflete esta necessidade.


segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Preparação





Eu acredito no espírito natalino. Nessa época, a gente não pode deixar que nossos pensamentos sejam contaminados por qualquer tipo de negatividade, a não ser que seja estritamente inevitável. Em 2012, meu natal não foi dos melhores, devido à doença de minha mãe. Em 2013 também não foi muito bom... Mas este ano, eu quero que ele seja um bom natal. Um ótimo natal!

Para este fim, estou me preparando por dentro e por fora. Já montei a minha árvore e pus luzinhas na janela e na varanda. Estou cuidando da mente, do coração e dos sentimentos. Estou cuidando da casa. Da casa física e da casa espiritual. Não quero que nada estrague este momento. 

Preparando para meus alunos uma aula sobre mensagens de Natal, deparei com uma muito bonita, que traduzo aqui do inglês para o português:

A fé torna todas as coisas possíveis,
A esperança faz todas as coisas funcionarem,
O amor torna todas as coisas bonitas,
Que você possa ter as três no seu Natal.

É isso. É o que eu desejo para mim e para todo mundo: fé, esperança e amor.




quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

A Receita Certa




Gosto muito de cozinhar, principalmente quando tenho tempo. Mas é irônico que, na maioria das vezes, a minha comida fique mais gostosa quanto mais improvisada ela for devido a, justamente, falta de tempo! Se tenho tempo demais, eu acabo tentando personalizar um pouco as receitas, e acabo personalizando demais... e não dá certo!

Mas toda vez que faço uma receita, percebo que no fim, para dar certo, é preciso o toque pessoal. Com cuidado, é lógico. Por exemplo: quando se fala em meio quilo de batatas, nem sempre se especifica qual o tipo ou o tamanho das mesmas. Há várias qualidades diferentes de batatas, algumas mais e outras menos aguadas. Talvez, para complementar a receita, seja preciso uma colherinha de farinha de trigo. Se alguém diz "mexer até dar ponto de calda," não se sabe se o cozinheiro está usando uma panela teflon ou de vidro, nas quais é mais difícil identificar se a calda está em ponto de calda... achei sensacional uma receita de calda caramelada que achei na internet, onde o cozinheiro, ao invés de somente dizer "deixar ficar em ponto de calda grossa," colocou uma fotografia com a cor que a calda deveria ter. Deu certinho!

Domingo passado eu fiz nhoque. Tem gente que acha que dá trabalho, mas eu faço num instantinho; é só cozinhar as batatas com sal a gosto (quantas? Depende da quantidade que você quer fazer), colocar uns dois ou três ovos, ir pondo o trigo e mexendo até a massa ficar durinha. Enquanto isso, já está fervendo uma panela de água com um pouco de azeite, sal e algumas folhas de louro. Depois, vou derramando a massa na nhoqueira e após escolher o tamanho que quero as bolinhas, vou apertando o êmbolo e cortando a massa com uma faca de cozinha comum, dentro da água fervendo. Assim que elas começam a boiar, retiro com escumadeira. Faço um molho rápido e fácil, colocando molho pronto à bolonhesa (ponho umas folhinhas picadas de manjericão daqui do quintal), salpico com queijo ralado grosso e ponho no forno até o queijo derreter. É rápido e fácil, e serve como prato único.


A minha nhoqueira é assim!

Lembro-me bem da minha primeira tentativa de brigadeiro: era aniversário de meu marido (estávamos casados a apenas um ano) e eu quis fazer uma surpresa; as panelas eram de teflon, e deixei a massa passar do ponto. As bolinhas, ao esfriar, ficaram tão duras, que quicavam na mesa. Mas nos divertimos, comendo as minhas... balas de chocolate!

Acho que a melhor receita para que a minha comida fique boa é: paciência, bom humor, uma boa música de fundo, dois cachorrinhos deitados no chão atrás do cozinheiro, a porta aberta para o canto dos passarinhos, algum tempo livre e a necessidade imprescindível de estar relaxada, tendo a capacidade de rir se não der certo... e muitas vezes, quando não dá certo, acabamos criando uma outra coisa!



sexta-feira, 28 de novembro de 2014

Chuva!...


Após tantos meses de seca, a chuva parece que veio para ficar alguns tempo. E a casa e o jardim agradecem! Já vejo sinais de recuperação no gramado, e as flores voltam a ter viço. Os passarinhos também resolveram aparecer, livres do calor abafado de antes. 

Só meus dois cães não parecem muito satisfeitos com a chuvarada, pois não os deixo correr pelo jardim debaixo de chuva; ainda são pequenos, e tenho medo que adoeçam. Haja brincadeiras para mantê-los calmos e ocupados!

Todo dia, quando abro a porta da área de serviço (local onde eles passam a noite) não sei o que vou encontrar... hoje de manhã, por exemplo, o saldo - além de muito xixi - foi:


Leona


-Um cabo de vassoura roído
-O fio do ferro de passar roído
-A capinha do botijão de gás rasgada
-Uma caixa de papelão picada

Fora os outros dias...
Mas quem optou por ter dois cães bebês ao mesmo tempo, sabia muito bem onde estava se metendo...

Mas há o consolo de que um dia, eles vão crescer... e daqui a algum tempo, a chuva vai parar e eles poderão correr e brincar lá fora novamente, gastando toda a energia represada que eles tem... nas minhas pobres plantinhas... ai, ai...


Mootley



segunda-feira, 24 de novembro de 2014

ACORDAR



Ouço os acordes do meu acordar. São tantos pássaros cantando na mata em frente à casa!... Deixo-me despertar aos pouquinhos, envolvida pelas suas melodias na manhã de segunda-feira. Eu penso: "Como somos capazes de nos sentirmos tristes diante de tanta beleza e de tanta abundância? 

Minha amiga Sandra enviou-me um vídeo baseado em um texto de Osho, no qual ele diz que bastaria uma simples rosa e a vida já seria encantada, mas há uma infinidade de flores, com todos os formatos, cores e perfumes... e há pássaros, animais, plantas, estrelas, planetas, galáxias, tudo em um número incalculável! Como sentir-se vazio?

Sábado à noite, fui a um encontro Espírita no centro Fraternidade Francisco de Assis, aqui em Petrópolis. Assim que cheguei, alguém me acolheu e me disse: "Jesus te ama! Você é amada!" Como foi importante ouvir aquilo... Pensei na sincronicidade da vida e dos acontecimentos, e no quanto a vida tenta nos enviar suas mensagens, e ela tenta muito... pena que nem sempre a escutamos. Durante todo o evento, pareceu-me que alguém tinha escolhido as palavras exatas que eu vinha precisando escutar. E eu escutei.

Apesar de não seguir nenhuma religião regularmente, simpatizo-me muito com alguns dos preceitos do Espiritismo, da Wicca e do Budismo. No meu cadinho, misturo o que me faz bem. Disse uma vez que a minha religião é a natureza, e é a mais pura verdade. Para mim, escutar os passarinhos, o barulho de um rio correndo, o beijo do vento nas folhas, meus cães brincando no jardim, a chuva caindo, enfim, escutar os sons da natureza, é escutar Deus.

Acordo, nesta manhã de segunda-feira, sentindo-me agradecida e renovada. Agradeço a Deus por tudo: pelo meu marido, pela minha casa, pelas pessoas que passaram e passam na minha vida, pelo meu trabalho, pelos meus escritos - que são a minha forma de contribuição à vida. Para mim, eles são a minha obra, aquilo que deixarei quando eu for embora, e se apenas uma das coisas que escrevi fizerem a diferença na vida de uma pessoa, terei cumprido a minha missão.


terça-feira, 18 de novembro de 2014

PREGUIÇA

Mootley, o pretinho, ao lado de Leona


Eu juro que eu ia arrumar tudo hoje. Acordei pensando no aspirador de pó, e na poeirinha sobre a prateleira da sala. Pensei que a roupa que coloquei ontem à tarde no varal estaria no ponto para ser passada. O quintal poderia ser varrido também.

Mas me deu preguiça.

Sentei-me lá fora no jardim com um livro, e o meu cãozinho Mootley veio pedir colo. Nós até o apelidamos de "Good night", pois ele sempre quer dormir: basta um colinho, e ele ajeita a cabecinha no nosso ombro - ou na nossa barriga, ou no nosso antebraço - e dorme o sono dos justos e inocentes... por isso, eu não arrumei a casa como deveria ter feito.

Por isso, a roupa ainda não foi passada, e nem será passada hoje. Quem sabe, amanhã...

A casa também é feita dos hiatos da preguiça. Eles nos livram da perfeição. Através deles, nós podemos ser seres humanos normais, que às vezes não tem vontade de fazer nada. Casas não deveriam ser extremamente limpas e organizadas, ou ficam parecidas com aquelas casas de revistas, arrumadas para serem fotografadas ou impressionar os outros. Organização excessiva é quase tão patológica quanto desorganização excessiva, eu penso.

Mas quando estou patologicamente organizada, deixo-me ser assim. Fica tudo um brinco, e aquela pisada com a sola do sapato molhado no chão da sala me irrita. Corro para pegar um pano para secar. Um copo deixado sobre a mesa de centro pode virar motivo para uma pequena discussão caseira, e farelos sobre a toalha da mesa podem acabar em suspiros irritados. 

Mas hoje não; hoje é meu dia de sentir preguiça, e por este motivo, a casa vai ficar como está. Hoje, eu só fiz a cama. E fui cama para o Mootley.


quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Quem Não Queria Uma Casa Assim?





Hoje posto aqui o mesmo texto que postei em um de meus outros blogs, o Passagem. É um poema de Manoel de Barros. Uma homenagem.

E quem não queria uma casa assim, como a que ele descreve?



Senhor, ajudai-nos a construir a nossa casa
Com janelas de aurora e árvores no quintal -
Árvores que na primavera fiquem cobertas de flores
E ao crepúsculo fiquem cinzentas 
como a roupa dos pescadores.

O que desejo é apenas uma casa. 
Em verdade, Não é necessário que seja azul, 
nem que tenha cortinas de rendas.
Em verdade, nem é necessário que tenha cortinas.
Quero apenas uma casa em uma rua sem nome.

Sem nome, porém honrada, Senhor. 
Só não dispenso a árvore,
Porque é a mais bela coisa que 
nos destes e a menos amarga.
Quero de minha janela sentir 
os ventos pelos caminhos, e ver o sol 

Dourando os cabelos negros 
e os olhos de minha amada.

Também a minha amada não dispenso, meu Senhor.
Em verdade ele é a parte mais importante deste poema.
Em verdade vos digo, e bastante constrangido, 
Que sem ela a casa também eu não queria, 
e voltava pra pensão.

Ao menos, na pensão, eu tenho meus amigos 
E a dona é sempre uma senhora 
do interior que tem uma filha alegre.
Eu adoro menina alegre, 
e daí podeis muito bem deduzir 

Que para elas eu corro nas minhas horas de aflição.

Nas minhas solidões de amor e 
nas minhas solidões do pecado
Sempre fujo para elas, quando não fujo delas, de noite,
E vou procurar prostitutas. Oh, Senhor vós bem sabeis
Como amarga a vida de um 
homem o carinho das prostitutas!

Vós sabeis como tudo amarga 
naquelas vestes amassadas
Por tantas mãos truculentas ou tímidas ou cabeludas
Vós bem sabeis tudo isso, e portanto permiti
Que eu continue sonhando com a minha casinha azul.

Permiti que eu sonhe com 
a minha amada também, porque: 
- De que me vale ter casa sem ter 
mulher amada dentro? 
Permiti que eu sonhe com uma que ame 
andar sobre os montes descalça
E quando me vier beijar faça-o 
como se vê nos cinemas...

O ideal seria uma que amasse fazer comparações
de nuvens com vestidos, e peixes com avião; 
Que gostasse de passarinho pequeno, 
gostasse de escorregar no corrimão da escada 
E na sombra das tardes viesse pousar 
Como a brisa nas varandas abertas...

O ideal seria uma menina boba: 
que gostasse de ver folha cair de tarde...
Que só pensasse coisas leves que nem existem na terra,
E ficasse assustada quando ao cair da noite
Um homem lhe dissesse palavras misteriosas ...
O ideal seria uma criança sem dono, 
que aparecesse como nuvem,
Que não tivesse destino nem nome - 
senão que um sorriso triste 
E que nesse sorriso estivessem encerrados
Toda a timidez e todo o espanto 
das crianças que não têm rumo...


Manoel de Barros





terça-feira, 11 de novembro de 2014

Aqui em casa Tem...




Aqui em casa tem...

- Colcha de croché feita pela avó de alguém há muitos e muitos anos.

-Marcas de patinhas de cachorro no piso da cozinha e da área de serviço.

-Jogos de copos de cristal que foram presente de casamento e que só são usados em ocasiões especiais.

-Uma coleção de xícaras coloridas sobre o armário da cozinha.

-Uma coleção de vinis e outra de CDs, muita música de todos os estilos para todos os gostos.

-Muitos e muitos livros, lidos e relidos, cheios de coisas sublinhadas e comentários à lápis. Estes são os que eu jamais doarei.

-Fotos de papel, lembranças de viagens e acontecimentos felizes.

-Buracos e plantas arrancadas no jardim - afinal, quem tem cachorro sabe que terá que passar por isso...

-Sininhos de vento espalhados pela casa toda, do lado de dentro e do lado de fora, nas árvores, portais e varandas.

-Muitos sprays aromáticos diferentes.

-Muitas velas decorativas, daquelas que a gente não tem coragem de acender.

-Cortinas ralinhas e transparentes em todas as janelas.

-Uma rede na varanda.

-Uma geladeira cheia de ímãs de gente que viajou e lembrou-se de mim - especialmente, alunos e ex-alunos. Eles são de todas as partes do mundo, como por exemplo: Bélgica, França, Russia, Estados Unidos (vários estados), Inglaterra, Itália, Argentina, Chile, Grécia, Portugal, Espanha...



-Bibelôs cafonas que eu adoro.

-Vasos de orquídeas sobre o aparador da lareira e flores sobre o peitoril da janela e a mesa da varanda.

-Poeira em alguns cantinhos e nas prateleiras mais altas, daquela que nem sempre dá tempo de tirar.

-Edredon velhinho e macio sobre a cama.

-Uma bagunça organizada no armário de roupas e sapatos.

E aqui em casa sempre tem roupa para passar, não importa o quanto eu tente colocar tudo em dia... mas acho que são essas coisas que fazem com que uma casa seja um lar.



quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Vassoura Mágica

Esqueça os grãozinhos da foto; ela não os pega!


Passeando pelo site da pontofrio.com, achei a vassoura mágica Magic Sweeper - uma versão "motorizada" da antiga vassoura feiticeira, lembram-se? minha irmã tinha uma, e era excelente.

Como tenho cães em casa, e alunos que apagam seus exercícios - e as sobras da borracha vão sempre parar no tapete da sala de aula - decidi comprar uma para mim.

Ela é fácil de montar, simples mesmo, e movida à bateria. Cabe em qualquer cantinho, facilitando o armazenamento. É também aconselhável que a primeira carga de bateria leve pelo menos oito horas antes de usar pela primeira vez.

Bem, ela é leve, desliza facilmente sobre o piso e a rotatividade permite que ela consiga entrar em alguns cantos difíceis, mas não em todos. É bem mais leve e silenciosa que um aspirador de pó comum, e ideal para fazer pequenas limpezas - o pelo de cachorro no chão, os restos de borracha na sala de aula, a poeirinha no tapete. Mas a vassoura mágica nada tem de mágica, e deixa algumas coisas a desejar:

-A bateria dura pouco, precisando ser recarregada a cada cinquenta minutos de uso. Portanto, ela não serve para grandes limpezas, embora seja boa para limpezas de emergência.

-Se a deixarmos ficar 'cheia' demais, ela devolve ao chão o lixo que recolheu; melhor limpá-la sempre, esvaziando o recipiente onde fica o lixo coletado.

-Ela não entra debaixo do sofá, embora a propaganda prometa isso.

-Não serve para limpar tapetes com pelos altos... e se seu tapete tem franjas, jamais deixe que a vassoura encoste nelas, ou ela as puxará e arrancará! O mesmo cuidado deve ser tomado em relação a fios elétricos: passe longe deles!

-Ela não "pega" sujeiras maiores, como por exemplo, sucrilhos ou pedacinhos de papel embolado. Serve apenas para poeira e coisas bem miúdas, como pelos ou farelinhos de pão.


Vantagens:

-Ela é boa para aquelas limpezas pequenas e rápidas, como antes da visita chegar e depois que o cachorro sai da sala. Também é boa para recolher os farelos de pão após o lanche.

-Funciona à bateria, e não tem fios que atrapalham, como os aspiradores de pó.

-É leve e fácil de guardar.

-O ruído é baixinho, não incomoda tanto quanto o do aspirador de pó.

Conclusão:

A vassoura mágica é boa, mas nada tem de mágica, e se eu soubesse antes, teria comprado a boa e velha feiticeira comum, que funciona sem a necessidade de recarregar bateria e com muito mais eficiência, além de custar bem menos!

A minha nota para ela é 6,5.

domingo, 2 de novembro de 2014

Kasa & Koisas, do Leandro




“O trabalho é tornar o amor visível, se não puderdes trabalhar com amor, mas apenas com desgosto, é melhor que deixeis o vosso trabalho, que senteis à porta do templo e que recebais esmolas daqueles que trabalham com alegria.
Pois se assardes pão com indiferença, assareis um pão amargo, que só matará a metade da fome de um homem.
E se vos ressentirdes ao amassar as uvas, vosso ressentimento destilará veneno no vinho.
E se cantardes como anjo, e não amardes o vosso cantar, abafareis os ouvidos do homem às vozes do dia e às vozes da noite.” – Khalil Gibran, em seu livro “O Profeta”, quando alguém  pede ao profeta que ele fale sobre o trabalho.




Nestes tempos loucos em que a pressa tornou-se amiga da indiferença, é muito bom entrar em uma loja e ser recebido com atenção, carinho e boa vontade, por alguém que ama o seu trabalho, e faz desse amor uma ponte até o cliente. 
Quando estamos fazendo compras, queremos relaxar e encontrar um momento prazeroso, e não ser atendidos às pressas por alguém carrancudo que parece estar prestando-nos um favor. E é por isso que eu decidi colocar este post aqui, hoje. Ao fazermos compras no Shopping Vilarejo, em Itaipava na última sexta-feira, eu e meu marido ficamos absolutamente encantados com o Leandro, da Kasa & Coisas. Lá a gente encontra, além de brinquedos, artigos para presente e novidades para a casa, um atendimento de quem gosta do que faz, tem prazer em explicar direitinho o funcionamento das coisas e adora um bom papo!
A gente sai da Kasa & Koisas sorrindo. Sorrir é muito importante nos dias de hoje. E ainda levamos coisas lindas para casa.





sexta-feira, 31 de outubro de 2014

Em Qualquer Lugar





Seria possível sentir-se feliz em qualquer lugar? O que torna um lugar importante, especial? As condições de vida que oferece, como transporte de qualidade, boas escolas, empregos próximos? A beleza?

Acho que a resposta principal a esta pergunta, é: as pessoas! Mesmo que eu morasse em um lugar maravilhoso como o que acabei de descrever - belo, cheio de conveniências e facilidades - não conseguiria ficar muito tempo se tivesse vizinhos ruins. Não precisam ser daqueles vizinhos que se tornam amigos íntimos, desde que haja tolerância, respeito e camaradagem. Graças a Deus, nós temos muita sorte nesse sentido. Temos ótimos vizinhos.

Deve ser terrível chegar em casa cansado após um dia estafante no trabalho, e de repente, sentir os tímpanos sendo sacudidos por música alta ou escândalos na casa ao lado. Deve ser péssimo conviver com pessoas sem educação, que deixam lixo na nossa porta, por exemplo.

Para vivermos bem, é preciso respeitar regras, e sempre colocar-se no lugar do outro: quem gostaria de ser acordado no meio da noite, ou ser impedido de dormir por causa de uma festa barulhenta? É claro que há ocasiões certas, como véspera de domingo, nas quais uma festa barulhenta pode ser compensada na manhã seguinte... mas durante a semana, nunca!

Preservar bancos, árvores, lixeiras, prédios públicos ou particulares e outras coisas que fazem parte do espaço comum, também deve ser observado; afinal, se eu destruo alguma coisa na minha rua ou cidade, estarei prejudicando a mim mesma. E isso é tão básico, que eu não entendo como existem pessoas que ainda não perceberam...

O que faz os lugares serem bons ou ruins, são as pessoas. Somos eu e você.



quinta-feira, 23 de outubro de 2014

Características

Imagem: casa Irlandesa construída entre pedras


Minha casa é uma antiga casa reformada, e o construtor do projeto inicial cometeu alguns erros que só percebemos depois que começamos a reforma - e que até hoje, não conseguimos consertar, por mais que tentemos. Por exemplo: na parede da sala que fica à direita da porta de entrada, cresce um mofo que se alastra pela parede dianteira, e que faz estourar a tinta com o tempo. Nesses onze anos que vivemos aqui, já tentamos vários recursos, mas o fato é que após um ou dois anos o mofo sempre volta a aparecer. E aí é recomeçar tudo de novo: quebrar o reboco, tentar algum produto mágico e milagroso que, segundo todos prometem, "desta vez resolverá o problema" e aguardar... até que o tal mofo volte a crescer.

Quando compramos a casa, as paredes da sala eram recobertas por lambris de madeira, que aparentemente estavam bons, mas que na verdade, estavam podres e cheios de formigas por trás. Ao retirá-los, deparamos com a realidade: as paredes em frangalhos. Desde então, lidamos com pedreiros, argamassa, isolantes e tintas a pelo menos cada dois anos.

Certa vez sugeri ao meu marido que simplesmente aceitássemos a casa como ela é; que deixássemos o mofo crescer e espalhar-se à vontade, ou que arrancássemos o reboco de vez e deixássemos os tijolos à mostra. Bem, ele não gostou da minha ideia... mas ainda vou tentar convencê-lo. Afinal, lutar contra o inevitável tem sido cansativo e dispendioso! Já pensei em colocar pedras cobrindo a parede, mas achei que ficaria escuro e pesado. A sala não é tão grande assim. Se voltássemos com os tais lambris, estaríamos apenas escondendo o problema e contribuindo para que as paredes mofassem mais rapidamente por trás deles. 

Acho que existem certas coisas nas nossas casas - e nas nossas vidas - às quais só nos resta rendermo-nos. Precisamos aprender a conviver com as coisas e aceitar que nem tudo funciona da maneira que queremos...


sábado, 18 de outubro de 2014

Planeta Água?




Desde pequena, ouço dizer que o nosso planeta - a nossa casa - é formada de mais de 71 por cento de água.

Eu me pergunto de este índice foi recentemente revisto. Tudo o que vemos por aí, são secas, e secas e secas. E queimadas. Estamos tratando muito mal o nosso planeta, e as consequências já se fazem notar: cada vez mais, há menos água no Planeta Água!

Moro nesta casa há dez anos, e quando viemos para cá, havia água em abundância provida por duas minas, que até hoje, abastecem todas as casas por aqui. Em minha garagem há duas torneiras - uma de cada mina - e uma mangueira, com a qual eu costumava regar o jardim quase toda noite ou tarde. Sempre jorrava água de ambas as torneiras, e nas raras ocasiões em que havia um período de estiagem, pelo menos em uma delas havia água.

Há meses não cai uma só gota de qualquer das torneiras. Há um fiozinho correndo de uma das minas que abastece o reservatório e é jogado por bomba para as caixas d'água que ficam no telhado, mas não tem pressão para chegar às torneiras. Há meses não tenho água para minhas plantas, e a grama está cada vez mais seca...

Vejo que o bambuzal em frente à casa está com suas folhas amarelecidas, assim como algumas das árvores. Quando molho os canteiros (usando um regador), a terra fica seca e farinhenta apenas uma ou duas horas após a rega. 

O Planeta Água está mudando, e ninguém percebe. Continuam pondo fogo às matas, matando várias espécies de animais e plantas, e contribuindo para que o ar fique irrespirável, a atmosfera, suja e poeirenta e as minas d'água, cada vez mais raras.

Em Petrópolis, à sombra de minha varanda, o termômetro marca trinta graus! Isso nunca aconteceu antes, em plena primavera!

Neste momento, sopra um vento quente que traz muitas folhas secas e resíduos de florestas queimadas. O sol queima forte, e o ar está translúcido de tanta fumaça e poluição. 

Rezo para que venham as chuvas e nos devolvam a água do Planeta Água.


segunda-feira, 13 de outubro de 2014

As Casas dos Filmes de Terror


Amity Ville


Quem não se lembra de Amity Ville? Ou de Rose Red?  Ou da Casa da Noite Eterna? As casas dos filmes de terror tem personalidades muito fortes, pois embora fictícias (dizem que muitos filmes são baseados em histórias reais), elas abrigam as almas daqueles que nelas habitaram... e se recusaram a sair! Eu me considero uma pessoa com um gosto excêntrico para filmes, pois ao contrário da maioria das pessoas, eu amo filmes de terror. Gosto daquela atmosfera sombria em clima de suspense; gosto de histórias de fantasmas. Basta ter uma casa antiga em uma floresta e pronto: é o suficiente para que o desejo de assistir a um filme me cative.

Eu realmente acredito em fantasmas. Crendo na vida após a morte, e tendo lido muitos livros sobre espiritismo - e também tido as minhas próprias experiências - sei que existem muitas coisas que não podemos ver. Muitas mesmo. E elas são mais numerosas e contundentes do que as coisas que podemos ver. 

Rose Red - casa criada por Stephen King, que nunca parava de construir a si mesma.


Sei também que a presença de espíritos em uma casa deixa seus sinais: Lâmpadas que, apesar de novas, vivem queimando ou piscando; aparelhos eletrodomésticos que ligam e desligam sozinhos; ambientes demasiadamente frios; locais onde um cão não quer permanecer, ou age de maneira estranha, parecendo observar coisas ou pessoas que não estão lá, ou latem repetidamente ao estar neles; cheiro forte de podre ou outros cheiros ruins; aparelhos cujas baterias 'caem' de repente; plantas que murcham ou secam da noite para o dia sem motivo aparente (dizem que fantasmas podem "alimentar-se" delas) e também pesadelos constantes e  sentimentos de cansaço ou medo infundado nas pessoas que moram nestes lugares.


Tive todas estas experiências em uma das casas onde morei, e chamamos um grupo espírita para ajudar-nos. Após benzerem toda a casa, eles nos falaram das "pessoas" que estavam por ali. Foi arrepiante... bem, depois daquilo, a atmosfera da casa melhorou bastante. Inclusive o nosso estado de saúde. Portanto, acho que sempre que deparamos com estes 'sintomas', a melhor coisa a se fazer é procurar ajuda, já que eles somente são interessantes nos filmes de terror.



quinta-feira, 9 de outubro de 2014

Coisas que Ficam, Coisas que Vão...





Final de ano chegando; hora das grandes faxinas anuais, e de se avaliar, nos armários e gavetas, o que fica e o que vai embora; o que se doa, o que se joga fora. Hora de pegar todas aquelas coisas que estão lá no fundo, e olhar para elas com olhos bem sinceros, estabelecendo um diálogo: "Há quanto tempo não uso isto? Ainda tem a ver comigo e com o meu momento? Gosto/preciso realmente disto?" Depois de tomada a decisão, deixar ir ou deixar ficar.

Hora de revisar papéis e contas pagas, e ver o que já pode ser jogado fora. É incrível a quantidade de coisas desnecessárias que guardamos: clipes velhos, tampas de garrafa e rolhas de vinho, pedaços de fitas que vieram com os presentes que alguém nos deu, papéis de presente tão amassados que jamais nos atreveríamos a embrulhar alguma coisa com eles, tubos de cola já seca e imprestável, botões que não mais pertencem a roupa nenhuma... lixo, lixo, lixo.

Ao mesmo tempo, também podemos avaliar aqueles relacionamentos que mantemos e que já não nos fazem mais bem - pelo contrário, nos tolhem, nos machucam. Pessoas que não nos valorizam, não tem mais nada em comum conosco (incrível que quando mexemos com este aspecto de nossas vidas, descobrimos pessoas que jamais tiveram alguma coisa a ver conosco). Fazer uma oração por elas e deixá-las ir embora.

É tão bom, mais tarde, constatar o quanto abrimos espaço em nossos armários, gavetas, cômodos e principalmente, vidas. É maravilhoso andar pela casa e respirar melhor. Assim, amos dando espaço à mudanças, ao que vem de novo, pois tudo o que estanca, simboliza a morte. O mofo, a poeira, o acúmulo, o apego... tudo isso é morte.

A vida é fluida.



domingo, 5 de outubro de 2014

DO PÓ AO PÓ







DO PÓ AO PÓ... PÔ!
(CRÔNICA ESCRITA EM UM PERÍODO DE OBRAS NA CASA - OS CÃES MENCIONADOS ERAM MEUS QUERIDOS E SAUDOSOS ROTTWEILERS, ALEPH E LATIFAH)


Ai, ai... há muito desisti de lutar contra a poeira... ela se deita suavemente sobre tudo o que me cerca, deixando os móveis translúcidos e o piso, cheio de pegadas. A obra, que deveria terminar em um mês, talvez se estenda por três ou quatro... 

Vou passando, respirando o pó (nem espirro mais, pois já me acostumei) e de vez em quando, baixa um "Caboclo Trabaiador" (geralmente, nos finais de semana) e decido jogar água na varanda e nas escadas, passar pano na casa toda, retirar pelo menos um pouco da poeira, para que durante os finais de semana, possamos viver em um local mais ou menos limpo...

Mas dizem que do pó viemos, e ao pó voltaremos. Só não pensei que fosse tão cedo! Sinceramente, o mal é necessário, mas não vejo a hora de ter a minha casa todinha para nós de novo, limpinha, sem açúcar derramado na mesinha da cozinha, sem bate-bate- de martelos, sem sacos de entulho na garagem, e especialmente, sem poeira!




Qual é o pó? Bem, acostumei-me com silêncio e privacidade! E não tenho tido nem uma coisa, nem outra, apesar do rapaz que trabalha aqui - o Almir - ser uma pessoa educadíssima, discreta e de inteira confiança.

Mas tenho saudades de poder olhar pela vidraça da janela e ver - literalmente, enxergar - o lado de fora... receber meus alunos e ouvi-los novamente dizer o quanto minha casa é organizada, silenciosa e aconchegante... mas vai valer a pena esperar.

Até o pelo dos cachorros está empoeirado! Morro de dó, ao olhar aquelas caras pretas e translúcidas, deitados no meio do pó de cimento - pois não ficam no canil durante o dia, preferindo a varanda, que é mais fresca. A água deles é trocada a cada uma ou duas horas, pois se eu não fizer isso, fica uma nata grossa de pó boiando sobre ela.



Terça-feira passada, nem precisei brigar com eles para dar banho: só chamei, e ambos submeteram-se voluntariamente, acho que cansados de carregar quilos de poeira no lombo! Não sei porque, mas depois do banho, eles ficaram bem mais serelepes, como se estivessem mais leves!

Mas a poeira pode ser encarada de uma forma filosófica; por exemplo, dá para fazer alguns desenhos de casinhas com montanhas atrás na mesinha de vidro da sala. Não preciso preocupar-me em varrer, pois de nada adianta, então tenho uma boa desculpa para relaxar e ser natural e literalmente... relaxada! Com isso, sobra mais tempo para escrever, dormir, preparar minhas aulas. 

Lembrei-me até daquela velha piada, em que duas mineirinhas preparavam café na cozinha da fazenda; a primeira pergunta: "Pó Pô o pó?" A segunda responde: "Pó! Pó pô o pó!"

E querem saber? Até que ficou bonitinho, o sol desenhado com o dedo na vidraça.




segunda-feira, 29 de setembro de 2014

UM LUGAR PARA OLHAR O CÉU





Acho que toda casa deveria ter um lugar para olhar o céu; seja uma janela, um canto de jardim, uma poltrona, um pedacinho de chão. Lembro-me que quando eu e meu marido nos mudamos para nossa primeira casa (e tivemos, pela primeira vez, um quadradinho de jardim), nos deitávamos no chão nas noites de verão (geralmente, aos sábados) e ficávamos conversando e olhando o céu.

No último sábado, ao fazer compras em um supermercado por aqui, achei umas poltronas de jardim que me atraíram. Ao olhar para elas, que são largas e feitas de material plástico, com braços confortáveis e assentos baixos com encostos reclinados, imediatamente imaginei que seriam boas para olhar o céu. Compramos duas, e coloquei-as no jardim ontem de manhã. O tempo não estava muito ensolarado, mas mesmo assim, sentei-me em uma delas e relaxei - os cães brincando à minha volta. 

Comecei a ler um dos livros que baixei para o meu e-reader, mas em poucos minutos comecei a sentir-me sonolenta e fechei os olhos. Passei a escutar e tentar identificar os cantos dos pássaros que voavam pelo jardim e pela mata próxima... sabiás... coleiros...  canários da terra... bem-te-vis... maritacas... cambaxirras... um tucano... saíras... e assim, contando passarinhos, eu dormi. Apenas por alguns minutos, mas dormi. Despertei com pinguinhos de chuva no rosto, e ao abrir os olhos, dei com o céu cinzento e as copas das árvores. Debaixo das cadeiras, dormiam meus cachorrinhos...

Mal posso esperar por uma noite estrelada, para que possamos nos sentar nas cadeiras e olhar as estrelas.


segunda-feira, 22 de setembro de 2014

EIS A CASA





Deixo um poema de Cecília Meireles sobre uma casa na qual todos gostariam de viver:


Eis a Casa


Eis a casa
menos que de ar
imponderável,
no entanto é branca de camélia e tem perfume de cal.

Com seus corredores

Suas escadas

O alpendre
As janelas uma a uma

Vê-se o mar. As montanhas. O trem passando. O gasômetro.

Vêem-se as árvores por cima com suas flores

A casa impon derável

Mas de cimento madeira tijolos ferro vidro

A pintura prateada das grades cheira a óleo a fruta a luz

A água a pingar cheira a musgo
soa metálica, trêmula
insetos pássaros líquidos
pequenas estrelas
clarins muito longe

Peitoris gastos de braços antigos

Sombras de borboletas

Eu sei quem comprou a terra
quem pensou nos desenhos
quem carregou as telhas

Passam legiões de formigas pelos patamares

Eu sei de quem era a casa
quem morou na casa
quem morreu

Eu sei quem não pode viver na casa

É uma casa
com seus andares
suas escadas
seus corredores varandas
aposentos
alvenaria
muros

imponderável

Uma casa qualquer
Cruz que se carrega
Imponderavelmente, para sempre, às costas.



Um poema belíssimo, e nem é preciso dizer... nem percebemos o quanto somos como os caramujos, carregando nossas casas às costas - todas elas - as casas onde moramos, nascemos, crescemos e vivemos com nossas famílias. As casas onde fomos felizes e tristes, cujas paredes nos viram rir e chorar, temer e amar. As casas que nos comportaram e nos abrigaram quando nos sentíamos vazios de nós mesmos. As casas onde comemoramos nossos aniversários e choramos após nossos velórios. As casas cujas paredes ficaram impregnadas dos nossos sonhos e desejos, realizados ou não - e os sonhos e desejos não realizados sempre parecem eternos.

Carregamos muitas casas às nossas costas. Todas as casas em que moramos ou ainda vamos morar. Deixamos nelas pedaços de vida que ficam registrados em fotografias e lembranças. Cada mudança de casa é uma mudança de fase; até mesmo uma simples pintura na parede, uma troca de cortinas ou de cores, representa uma mudança, ou pelo menos, o desejo desta mudança.

Carregamos as nossas casas para sempre, quer as experiências que vivemos nelas tenham sido boas ou ruins. E finalmente, há casa derradeira, a casa que nos verá envelhecer. A nossa última morada.




segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Pedaços Negros de Tristeza Pela casa...





Ando pela casa, e nos cantos, há pedaços negros de tristeza: restos de folhas queimadas, resíduos pretos que a tudo sujam quando tocam. Parece que as árvores queimadas, a quem tais resíduos pertencem, querem deixar as suas marcas em nossas casas, as marcas das dores que sentiram enquanto queimavam, covardemente atacadas por pessoas sem coração e sem visão de futuro.
Centenas de milhares de insetos, aves, mamíferos e répteis morrem sem ter para onde fugir, encolhidos de medo e de dor no calor do fogo das queimadas. 

Apesar de tudo o que é anunciado pela TV, as reportagens e campanhas de conscientização, as pessoas ainda continuam pondo fogo nas matas, causando incêndios criminosos - alguns de proporções assustadoras - causando a morte de animais e até de pessoas. Muitos perdem as suas casas devido à ação destas pessoas sem coração, cujo prazer mórbido resume-se a atear fogo e apreciar, enquanto quilômetros de mata desaparecem entre as chamas.

E eu não acredito que o façam por ignorância; não acredito que "São apenas crianças brincando", como alguns dizem. Hoje em dia, as crianças e adolescentes tem acesso à informação, e sabem muito bem dos perigos e prejuízos causados por uma queimada. Não o fazem sem saber o que estão causando. Fazem-no por pura maldade. Pelo prazer de sentir que tem o poder de alterar as vidas que os cercam ao fazerem coisas proibidas.  

Ontem eu assisti pela TV um filhote de Tuiuiú sozinho em seu ninho, abandonado pelos pais que precisaram fugir da fumaça para garantir a sua sobrevivência. O pobre animal era um símbolo desesperado da ignorância humana, de pé sobre um tronco comprido de árvore enquanto tudo à sua volta queimava. Bombeiros tentavam apagar o fogo, arriscando suas vidas a fim de garantir as vidas de outras espécies. Graças a Deus, o Tuiuiú teve um final feliz, o que, com certeza, não aconteceu com centenas de outros animais.

Traçando o caminho do fogo, os bombeiros chegaram à casa de uma família, cujo pai admitiu ter sido o seu filho o causador da queimada criminosa. Disse: "Foi ele mesmo." E o que terá sido feito a respeito? Acredito que a melhor punição - além de alguns dias ou meses de detenção - seria levar estas pessoas e obrigá-las a resgatar animais feridos ou em fuga. Talvez assim, vendo a dor de outras criaturas bem de perto, eles tomassem consciência. Eles deveriam ser obrigados a ajudar a apagar o fogo, sentindo o calor da morte nos seus próprios rostos.

Abro as janelas de manhã, e o jardim e o telhado estão cobertos de cinzas, cinzas que o vento traz para dentro de casa. 

Hoje, as janelas terão que ficar fechadas, apesar do calor agradável e do dia lindo lá fora.