sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Bichos em Casa



Às vezes eu digo ao meu marido: "Quando nossa Latifa se for, eu não quero mais bichos." Adoro animais, mas é bem verdade que eles nos prendem bastante, pois sou do tipo de pessoa que não viaja para longe por dias e dias e deixa latinhas de comida e água espalhadas pela casa. Não teria coragem para tal. Também já visitei alguns hotéis para cães por aqui, e não gostei de nenhum.  Meus sobrinhos, que olhavam meus cães quando eu viajava, cresceram, arranjaram empregos e namoradas, e por isso, não tem mais tempo de olhar a Latifa. Ela fica triste se eu sair para uma caminhada; chego em casa e a encontro chorando.

Se me afasto dela e fecho a porta da casa quando estou limpando tudo, ela fica o mais próximo de mim que puder, por exemplo, escolhe no quintal o local onde fica a janela  do cômodo onde estou (mesmo que esteja sol quente ou chovendo) e fica lá, deitada esperando. Nos finais de semana, saio para passear com o coração pesado e um imenso sentimento de culpa - mesmo deixando a Latifa solta dentro de casa, com ventilador, água, comida e a porta dos fundos aberta para ela sair e entrar. Bem, quanto a segurança da casa, confio nela! Acho mais fácil para alguém mal-intencionado arrombar uma porta do que passar por um Rottweiler. 

Há anos, desde que nosso cão Aleph morreu, eu e meu marido não fazemos uma viagem mais longa. Não queremos deixar a Latifa sozinha.

Bichos em casa dão trabalho; é preciso estar disposto a varrer e aspirar pelos do tapete todos os dias; é preciso estar em dia com vacinas e veterinário. É preciso gastar com uma boa ração, remédios quando necessário, dar banhos, escovar o pelo. É preciso ter um coração receptivo e sensível para compreender as necessidades emocionais do cão de ter a gente por perto. Eu não teria coragem de isolá-la em algum canto afastado do jardim.

Mas apesar de todo esse trabalho, ah, como vale a pena! Acordar de manhã e deparar com uma cara animada e sorridente, cheia de desejos de "Bom dia." 

Animais conversam com a gente; não da nossa forma, é claro, mas quem tem um cão, gato ou outro animal de estimação há algum tempo e presta atenção a ele, logo compreenderá que ele tem uma forma toda especial de se expressar. Saberá distinguir seus olhares e resmungos de fome, tédio, medo, tristeza, "Hey, me leva para dar uma volta", "Me dá um pedaço disso aí que você está comendo..." Animais são tudo de bom. E mesmo a dor que sentimos quando chega a hora de nos separarmos dele, terá valido a pena. 

Mas mesmo assim, acredito que Latifa será nosso último cão. Já estamos chegando aos cinquenta, e há muitas coisas que queremos ver e sentir por aí.



4 comentários:

  1. Ana,
    Entendo-a em todos os aspetos.
    Dizer, é o último cão, é muito comum. Mas, depois de algum tempo, começa uma comichão cá dentro e quando damos conta já está. Apaixonamo-nos por olhar fantástico e não lhe consegumos resistir.

    Abraço

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  2. Amei seu Blog!

    Qdo perdi a Jully, disse a mesma coisa. Meses depois, lá estava eu com o Tuddy com 1 ano na época, já está com 5. E agora ao todo são 4! Dois mini salsichas que peguei com 2 meses, estão com 3 anos e meio e o Iogue, cego, minha filha o achou na rua apavorado, é um York Terrier médio, que de tão maltratado, sem pelo, nem sabíamos que raça era. Depois ele ficou lindo! Como não tenho mais marido e estou com 57 anos, quero viver muito com eles... Moro numa casa num Condomínio só de casas aqui no Rio e é muito bom! Sem eles não teria graça...
    Vc tem um coração lindo. Quem ama animal é um ser especial...

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  3. Ana , nas palavras de Clarice Lispector : " Ter um bicho é uma experiência vital . E a quem não conviveu com um animal falta um certo tipo de intuição do mundo vivo . "
    Nosso labrador , o Dust , de 10 anos acabou de fazer uma cirurgia para retirada do baço e tem sido de uma resignação para se recuperar que tem nos dado grandes lições . Beijos e bom domingo para vocês e para a Latifa .

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  4. Não tenho cão, mas fico com a shitzu que minha filha possui, quando ela viaja. Apeguei-me à cachorrinha que, inclusive, estampa a capa de meu livro de crônicas Uma Rede na Varanda. Mas concordo com você, Ana, animal prende muito. quando calha de minha filha e eu viajarmos ao mesmo tempo, é um sufoco!

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