terça-feira, 15 de julho de 2014

Quando as Coisas se Quebram




Quando eu me casei, há vinte e quatro anos, ganhei de presente do meu sogro um abajur que, apesar de não ser peça de designer, eu muito gostava. Era encontrado em lojas populares, e tinha lâminas de vidro na cúpula com desenhos delicados de flores. Mas o que eu mais gostava nele, era a praticidade: bastava que eu o tocasse, e ele acendia. Quando tocado pela segunda vez, a intensidade da luz aumentava, e uma terceira vez, a luz ficava bem forte. 

Eu o mantinha em minha mesa de cabeceira, desfrutando de sua praticidade durante a noite quando precisava levantar-me para usar o banheiro. Certo dia, ao varrer o chão, sem querer derrubei-o com o cabo da vassoura, fazendo com que fosse ao chão e se espatifasse em vários pedaços pequenos (era todo feito de vidro). Não sei porque, tive uma reação que eu nunca tivera antes em relação a um objeto: chorei muito de frustração por tê-lo quebrado.

Chorei tanto, que meu marido ficou preocupado, trazendo-me um copo de água com açúcar para eu me acalmar. Até hoje, não compreendi o porquê daquela reação exagerada a um objeto que não era caro ou difícil de encontrar; mesmo assim, não comprei outro igual.

Ontem, ao usar o forno de microondas, coloquei o alimento a ser aquecido em um prato de louça azul que eu adorava, e que já tinha usado no forno várias vezes. Mas ontem, enquanto o forno estava ligado, ouvi um forte ruído, e ao abri-lo, deparei com o prato rachado ao meio... Não sei o motivo, mas imediatamente lembrei-me do abajur que quebrei há tantos anos...

E cheguei a algumas conclusões:

Acho que, naquela época, minha vida andava tão conturbada, que eu só precisava de um pequeno motivo para chorar. Tantas coisas estavam rachadas, que a quebra do objeto representou a quebra de muitas outras coisas - mais tarde, realmente aconteceu. Mas ontem, o prato rachado deu-me uma sensação diferente: senti que era como se a vida, através daquele objeto, estivesse me dizendo que estava na hora de recomeçar: jogar fora os cacos e renovar-me. Renovar minha casa e a maneira como tenho interagido com ela. Abrir portas e janelas, queimar incensos, chamar os anjos para que eles entrem e levem com eles os fantasmas que cismo em manter aqui.

Compreendi imediatamente a mensagem enquanto jogava fora as duas metades daquele prato azul.

Quando um objeto se quebra - dizem - é porque algo precisa ir embora: um pensamento ruim, uma má energia, um hábito que está nos prejudicando. No meu caso, sei exatamente do que se trata...



5 comentários:

  1. Olá!
    Belíssimo texto, um desabafo seu que me fez desabafar tanta coisa por aqui também, agradeço que tenha compartilhado conosco.
    Um abraço querida Ana.

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  2. que belo texto,obrigado por compartilhar

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  3. que belo texto,obrigado por compartilhar

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  4. Eu nunca tive um abajur, mas digamos que meu abajur também se quebrou. Fiquei tão emocionado com meu objeto quebrado que me estranhei, nunca fui muito apegado a objetos ou a bens materiais, chorei como um bebê, como há muito eu não chorava, senti uma dor esquisita, uma sensação ruim. Resolvi então buscar na internet algo a respeito do que eu sentia, encontrei seu texto, enquanto o lia as lágrimas rolavam, quando terminei a leitura alguns segundos depois as lágrimas secaram, suas palavras me consolaram e abriram minha mente para ver o que eu tanto queria esconder de mim mesmo, não dá para negar nossos sentimentos, devemos ser sinceros com nós mesmos. A sua experiência de vida me ajudou muito hoje, tive muita empatia com essa história, só tenho a lhe agradecer. Gratidão!

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  5. é incrível o que as palavras provocam dentro da gente, é como se uma porta se abrisse, é como enxergar uma luz no final do túnel,é incrível,como sentimos fluem através das palavras ...por isso Jesus é o verbo:a palavra, que liberta!

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