sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

Casa é Para Viver.




Para mim, casa é para viver. Nela, a gente coloca as coisas que gosta, pinta com as cores que prefere e constrói da maneira que acha bonito. Tanto faz a moda, os ditames do que é ou não é considerado de bom gosto -pois o tal bom gosto nada mais é que  um alinhamento frio de regras impostas pelos que se dizem especialistas em decoração.

Gosto da casa que se parece com a gente. Casa para gente morar e pendurar as lembranças que desejar em cada parede. A única coisa que eu não gosto, é sujeira e acúmulo de móveis e objetos, pois isto atravanca os espaços. Faz mal. Mas se for do meu gosto, posso pendurar cortinas laranja na sala de estar ou colocar almofadas com cores que 'não combinam' sobre o sofá. Posso servir café para as visitas em xícaras de diferentes jogos com pires de diferentes formatos.

Casa é para ser divertida. Nada de ficar demasiadamente preocupada com a poeirinha que se acumula mais rapidamente quando o tempo está seco. Depois a gente limpa. Agora, vamos assistir àquele filme sensacional, ou sentar lá fora no jardim.


segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Felicidade em Casa




Ontem, ao assistir ao Fantástico, descobri (ou confirmei o que já sabia) de que as pessoas mais felizes não são necessariamente  as que moram em bairros elegantes e condomínios de luxo: a maioria das pessoas entrevistadas na reportagem - moradores de favelas pelo Brasil afora - consideram-se felizes. Por que? Simples: porque elas vivem solidariamente! Em meio ao crime e à violência, elas conseguiram abrir uma brecha e viver com dignidade. Conseguem ser felizes com a parte que lhes cabe, e acreditam no trabalho que realizam. Vivem em clima de camaradagem com os vizinhos e amigos. Fazem festas.

Lembro-me do tempo em que morei em um bairro de classe média baixa, da minha infância à idade adulta. Havia uma sensação confortadora de estar protegida, de ser conhecida e de conhecer todo mundo. As casas eram simples, não havia muitos enfeites. As pessoas não faziam dramas diante da vida, aceitando suas mazelas e vivendo um dia de cada vez, procurando ser felizes com aquilo que tinham.

E havia as conversas ao muro, as brincadeiras de criança na rua, os pais chegando em casa ao final do dia. As pessoas eram muito mais simples, e a felicidade, que mora na simplicidade, muito mais natural. Não havia artificialismos; ninguém ficava competindo para mostrar em redes sociais quem tinha a casa mais bonita, as roupas mais caras, os sorrisos mais convincentes. Poucos tinham carros, e quando tinham, era um carro para cada família, o que fazia com que nos encontrássemos em pontos de ônibus e déssemos e pegássemos caronas .Viver era um exercício natural. A gente sorria nas fotos quando tinha vontade. E mesmo quando havia uma rivalidade ocasional, ela desaparecia e dava lugar à solidariedade assim que o momento se fizesse oportuno. 

Saudades das casas simples do bairro onde morei. Saudades do viver simples e dos desejos simples.



quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

A Luz Acabou!




Nem houve uma tempestade; eu esperava pelo último aluno do dia, quando mais ou menos às seis e trinta da tarde de repente a luz acabou. Meu marido já tinha avisado que chegaria um pouco mais tarde, e percebi que teria que ficar esperando por meu aluno sozinha no escuro - isto é, com a Latifa, que por incrível que pareça, também não gosta da escuridão.

Ainda havia a luz do crepúsculo, o que me deixou tempo suficiente para procurar velas e fósforos. Acendi as velas da varanda, três castiçais que pendem das vigas do telhado. Depois, acendi as velas que tenho sempre em volta da lareira e as seis velas dos castiçais da sala de jantar; ainda acendi uma outra sobre a pia da cozinha e mais uma na mesinha de centro da sala de estar; pronto!

Fui lá para fora aguardar a chegada do aluno, já que a campainha não estava funcionando por falta de eletricidade. Esperei, esperei... e ele estava bem atrasado; consegui trocar mensagens e decidimos cancelar a aula, já que a luz não voltava. 

Suspirei fundo: já estava bem escuro por volta das sete horas. Da garagem, olhei para a casa iluminada pelas velas, no meio da escuridão total e absoluta do jardim. Aqui, quando a luz acaba, fica tudo negro. O céu estava nublado e não dava para ver as estrelas ou o luar. Senti um certo pânico, pois não gosto de escuridão. Mas de repente, passou um vaga-lume, e depois outro. Fiquei encantada, olhando-os... esqueci do meu medo de escuro.

Desci as escadas e entrei na casa. A luz de velas dava a tudo um ar solene e mágico. Sentei-me no sofá, olhando em volta sem sentir qualquer desconforto. Lá fora, a escuridão parecia ser uma barreira que transformava minha casa em algum lugar separado do mundo real, isolado na atmosfera alternativa de alguma terra distante.

Adormeci, e quando despertei, a luz havia voltado. E eu estava de volta ao mundo real. Levantei-me e fui apagar as velas.


domingo, 16 de fevereiro de 2014

DOAR






Existe um momento em que o espaço nos armários fica pequeno demais; difícil encontrar as peças de roupa, os sapatos, as bijuterias e jóias. Tudo passa a exalar aquele característico aroma de mofo e de coisa guardada.  Às vezes, caminhar pela casa passa a ser uma aventura que consiste em desviar de móveis e objetos de decoração que atravancam o caminho, e fazer uma limpeza pode levar dias a dias devido ao grande número de adornos e mobília.

É hora de doar.

Penso que sempre que algo novo entra pela porta da casa, algo usado da mesma categoria deve sair. Isto ajuda a manter o espaço harmonizado e limpo, além de fazer um bem tremendo a alma da gente - doar coisas que não usamos mais, quando em bom estado, significa preencher uma falta na vida de alguém que necessita daquele objeto.

Doar é bem mais do que simplesmente livrar-se de algo que atrapalha: deve ser um gesto que venha  do coração. Não significa caridade alguma, pois a caridade verdadeira está em doar aquilo que mais precisamos. Mas pode significar um pequeno gesto de solidariedade. Faz bem à casa e à alma.

Achei sensacional a ideia de um site de compra e venda, cuja 'tagline' é: "Desapega, desapega!" Doar é desapegar-se. 



quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Pétalas de Flor pelo Corredor





Dias secos, quentes e cheios de vento morno. O vizinho tem uma árvore no jardim que é cheia de flores amarelas - não sei o nome. Quando o vento sopra, as pequenas pétalas voam com ele, e se espalham por todos os cantos e todos os jardins vizinhos.

Minha casa, que fica sempre de portas e janelas escancaradas em qualquer época do ano, deixa entrar essas gotas de luz amarelas. Elas entram principalmente pela varanda do segundo andar, e vão descendo as escadas e se espalhando pelo tapete do corredor. Eu deixo que fiquem lá até murcharem.

Um privilégio, ter pétalas amarelas espalhadas pela casa!



segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

O AMANHECER DAS CASAS





As casas amanhecem. 

O amanhecer das casas nas manhãs de segunda-feira é preguiçoso. Ainda podemos sentir os sabores do final de semana - inclusive, o leve amargor do final do domingo. É preciso circular e abrir todas as janelas e portas para que a energia da nova semana possa entrar, ao mesmo tempo que a energia da semana que passou possa sair.

Antes de começar o dia, sempre faço uma pequena oração. Principalmente, de agradecimento pelo dia que passou e o o novo dia que começou. Depois, as únicas coisas que eu peço é que todos tenham saúde, pois aprendi que rezar pelos outros, esperando que aquilo que nós consideramos que seja o melhor para eles aconteça, é uma atitude irresponsável. Melhor é não arriscar, pois ninguém compreende os caminhos que cada um precisa traçar.

Mas não faz mal pedir que haja um pouco mais de paz nas casas em todo o mundo: nas casas que guardam bombas sem saber sobre quais cabeças elas explodirão. Nas casas que abrigam famílias que não mais se entendem. Nas casas onde as pessoas já perderam todas as esperanças e não acreditam mais que algo de bom possa acontecer. Nas casas onde as pessoas perderam totalmente a fé. Nas casas onde ninguém mais se importa com o que poderá acontecer aos outros seres humanos que cruzam com eles nas ruas, desde que os seus objetivos pessoais e egoístas sejam atendidos e que sua causa nem sempre tão justa assim seja alcançada. Peço que haja um pouquinho de paz nas cabeças daqueles que deflagram revoluções sem nem sequer saber o que reivindicam. 

Gostaria que estas pessoas parassem para se colocar um pouco no lugar do outro, que a essa hora, pode estar sofrendo devido a um ato impensado que eles praticaram. Que antes de praticar atos insensatos, as pessoas possam, mentalmente, penetrar nas casas das outras pessoas e perceber que elas tem famílias, que amam e são amadas, que tem suas necessidades, sofrem, sentem dores (físicas e emocionais), que tem tanto direito de estar aqui quanto elas. Somente quando houver solidariedade com aqueles que vivem em outras casas, e respeito pelo direito que eles tem de viver e sonhar, haverá um pais-casa melhor para todos.

Não é através da desumanização que conseguiremos um país e um mundo mais humanos.





quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

A Passagem do Tempo Sobre as Coisas





Adoro uma coisa nova. Aquele cheirinho que tem nas roupas novas, que vem daquelas lojas perfumadas com aromatizantes... cheiro de sapato novo de couro, de parede recém pintada, rosa recém aberta, madeira nova... adoro o cheiro que vem das caixas dos aparelhos eletrodomésticos novinhos em folha, e cheiro de carro novo.

Mas existe uma magia típica das coisas velhinhas, que já sentem a passagem do tempo... elas tem uma história para contar; testemunharam muitos acontecimentos. Sobreviveram a muitas pessoas que já se foram há tempos.

Aquele reboco que cai da parede envelhecida, um vasinho de planta lascado, a calçada com musgo nos cantinhos, uma joia de família. Não gosto de adquirir objetos usados sem saber a quem eles pertenceram, mas adoro quando alguma coisa de família vai passando de geração em geração; uma peça de mobília, por exemplo, ou aquela colchinha de retalhos que foi da tia-avó de alguém. Um paninho de crochê, uma poltrona velha e um pouco gasta, um quadro, um livro...

As coisas velhas trazem em si a energia das pessoas a quem elas pertenceram, por isso, devemos ser cuidadosos ao adquiri-las. Dizem que ao comprar coisas em antiquários ou sebos ( o que não tenho por hábito), é aconselhável lavá-las com água e sal - se não for possível lavar, pelo menos passar um pano umedecido nesta mistura - e depois, deixá-las ao sol durante algum tempo, a fim de 'desmagnetizá-las.' Por isso, apesar de adorar as coisas velhinhas, prefiro só adquiri-las se conhecer a procedência.

Não sou do tipo de pessoa que tende a acumular objetos; mas existem alguns que gosto de guardar, como por exemplo, meus discos de vinil.

A passagem do tempo sobre as coisas deixa marcas indeléveis. Tenho uma mesa na adega cujos pés tem as marcas dos dentes do Aleph quando ele ainda era um filhote. Mesmo quando ele for embora, algo que ele fez estará sempre ali. Jamais vou me desfazer daquela mesa.

Apesar da era digital, as fotos que revemos ao reunir a família, são as velhas fotografias de papel, algumas ainda em preto-e-branco. 




segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

NO CHÃO DA COZINHA


Minha cozinha é o local mais fresco da casa durante o verão, pois há duas portas, uma diante da outra, que mantenho abertas (a não ser quando estou cozinhando, ou o fogão não fica aceso), causando uma contínua corrente de ar. Latifa adora deitar-se ali, nos azulejos frios, sentindo o vento, e só sai já ao finalzinho do dia, quando o calor arrefece.
Numa tarde muito quente, após chegar em casa cansada do calor da rua, deitei-me com ela. Imediatamente, ela virou-se de barriga para cima e encostando a cabeça na minha, dormiu. Fiquei desfrutando daquele momento, sabendo que daqui a alguns poucos anos, ela já não estará mais aqui.
Ao mesmo tempo, descobri minha casa de um ângulo que eu nunca tinha olhado: o teto branco, a parte inferior da mesa, as copas das árvores lá fora, o contato do azulejo gelado contra minhas costas. Senti o vento passando por cima de nós, e fiquei escutando as maritacas que passeavam pela tarde quente. Por um momento, esqueci-me de qualquer compromisso ou responsabilidade: não pensei nas aulas a preparar, no jantar a fazer ou nas teias de aranha que já recomeçavam a surgir no telhado da varanda. Deixei-me estar ali, naquele momento, na companhia daquele cão que confia totalmente em mim, a ponto de dormir em minha presença.