segunda-feira, 31 de março de 2014

Casa aos Domingos




Antigamente, a casa aos domingos ficava cheia. Era dia de macarronada com purê de batatas, molho de carne moída bem grosso e vermelho, refrigerante... enfim, tudo o que não se deve comer, mas eu não engordava. A gente às vezes colocava a mesa lá fora. Havia música. 

À noite, a melancolia daquela velha vinheta do Fantástico, que até hoje nos persegue.

Mas o tempo modifica as pessoas, afastando-as. As urgências que a vida impõe fazem com que hoje, a casa esteja silenciosa aos domingos. Mas há o jardim, a natureza, e o prazer de descobrir a beleza do silêncio e da quietude. Há as lembranças dos tempos felizes que vivemos - graças a Deus, temos muitos bons momentos a lembrar! E ainda superando tantas coisas que nos aconteceram nos últimos anos, respiramos fundo o ar da nova casa que hoje construímos em  nossas mentes e corações.



terça-feira, 25 de março de 2014

Açúcar, Livros e Plantas





Quando eu era criança, todas as pessoas do meu bairro se conheciam, e algumas frequentavam as casas umas das outras - principalmente, os adolescentes e crianças. As portas estavam sempre destrancadas, pois não havia perigo de roubo ou assalto, e quando estava muito quente, dormia-se com as janelas e portas escancaradas. Era comum que minha mãe e as vizinhas chamassem umas às outras para pedir favores, como uma xícara de açúcar ou então fazer um pedido para que olhassem as crianças enquanto a outra saísse. Bem, eram tempos diferentes, em que confiar nas pessoas não era tão perigoso como hoje.

Ontem tive um daqueles velhos momentos de volta; minha vizinha pediu-me uma muda de flor, o que desencadeou uma conversa ao final da tarde; ela do seu lado do muro, e eu, do meu. Falamos de cães, plantas, perdas e jardins. Às vezes, nós trocamos livros, mas acho que estas ocasiões são também uma desculpa para uma boa conversa. Bem, esta é uma desvantagem dos livros eletrônicos: não se pode emprestá-los, e perdemos mais uma desculpa para um bom papo.

Percebi que dentro de nossas casas existem dramas bem parecidos. Todas as pessoas passam por, mais ou menos, as mesmas coisas. Temos medo de ficar sozinhos, de assaltos, de insetos e animais peçonhentos; lembramos do passado e sentimos saudades de pessoas e coisas que não estão mais conosco. Para ela, eu ainda sou muito jovem, apesar dos meus 48 anos (ela deve estar na casa dos 70), embora eu às vezes me sinta muito, muito velha... e talvez ela fique me olhando e pensando no tempo em que tinha a minha idade, e seus filhos eram adolescentes, a casa estava sempre cheia e o futuro era algo bem distante guardado em alguma prateleira empoeirada, no qual ninguém pensava muito.

A tarde morria em lindas cores, entre cantos de pássaros; o cheiro do meu gramado recém-cortado era carregado até nós pela brisa refrescante. Entre os dedos dela, a muda de flor roxa que eu colhera para ela, e as horas murchando aos poucos, como aquela muda de flor...



domingo, 23 de março de 2014

Receber Bem





Quando eu era criança, minha mãe costumava contar-me histórias de um livro didático que ela usava em seus tempos de escola. Naqueles tempos, havia apenas um livro no qual as crianças aprendiam tudo: matemática, Língua portuguesa, ciências, história e geografia. A parte de língua portuguesa tinha várias lendas e fábulas, como por exemplo, a do uirapuru, da índia Potira, A Lenda do Sol e da Lua e muitas outras. Entre elas, a que me inspiro a escrever esta crônica.

Eu era muito pequena, nem sequer tinha sido alfabetizada ainda; portanto, não me lembro dos detalhes. Mas dizia a lenda que havia uma garça, orgulhosa e rica, que convidara um gato para jantar em sua casa, mas com a intenção de humilhá-lo. Lá chegando, o outro bichinho viu-se decepcionado, pois a garça serviu-lhe o mingau em um jarro de ouro comprido e fino, onde somente ela, com seu bico longo, poderia se alimentar. O gato passou a noite esfomeado. Mas houve uma revanche: no outro dia, a garça foi convidada para jantar, e o gato serviu-lhe o mingau derramado sobre uma pedra, onde somente ele conseguiria comer.

Não costumo convidar desafetos para o jantar, mas se eu tiver de fazê-lo por força das circunstâncias, ele será tão bem tratado quanto todos os outros convidados. Eu jamais convidaria alguém para minha casa a fim de humilhá-lo. Assim, não concordo com o papel da garça, e nem com a vingança do gato, pois acho de uma pobreza de espírito tremenda, fazer um convite a alguém para ter a chance de sentir-se seguro em seu próprio território a fim de humilhar esta pessoa.

Quando convido alguém para minha casa, procuro saber o que esta pessoa gosta de comer, e o que ela pode comer. Não serviria carne a um vegetariano ou açúcar a um diabético. Não faria perguntas indiscretas e nem jogaria indiretas para ferir meu convidado. Quando ele falasse, eu faria silêncio e o ouviria com atenção – mesmo que não tivesse nada a comentar sobre o que ele dissesse. Não o excluiria das atividades da casa nas quais os outros convidados tomassem parte. Acredito que diferenças devem ser resolvidas longe da mesa da sala de jantar, através de uma boa conversa.

Foi assim que minha mãe me ensinou.




quarta-feira, 19 de março de 2014

A CADEIRA DE BALANÇO





A primeira casa que compramos pertencia a um casal de idosos. Na sala de estar havia uma cadeira de balanço antiga, dessas com assento e encosto de palhinha. Eles estavam mudando para um pequeno apartamento e teriam que se desfazer de uma parte de seus móveis; quando soubemos, imediatamente fizemos uma oferta na cadeira de balanço.

Eu sempre quisera possuir uma cadeira de balanço. Lembro-me que nossa Tia Rosa tinha uma na edícula, e quando nós a visitávamos, eu me sentava (pequenininha, no meio da enorme cadeira) e ficava ali quietinha durante horas...

A cadeira de balanço que compramos dos ex-donos da nossa primeira casa ficou conosco durante os sete anos que moramos lá, e quando  vendemos a casa e nos mudamos para esta onde hoje moramos, trouxemos a cadeira conosco. Minha irmã refez para mim a palhinha do assento, já gasta, e dei-lhe, eu mesma, uma demão de verniz.

Mas acho que as coisas tem seu tempo de permanência nas casas e junto às famílias. Há algum tempo, eu vinha entrando em minha sala de estar e, ao deparar com a cadeira antiga e escura (agora, é preciso refazer a palhinha do encosto) achei que dezesseis anos já foi tempo demais. Em termos de funcionalidade, ela não estava mais agradando. Visualmente, ela deixava aquele cantinho da minha sala um tanto escuro e triste.  Decidi substitui-la por um moderno pufe reversível em mesinha de centro quando necessário, pois achei-o mais prático, clarinho e funcional. 

A cadeira de balanço está em minha varanda, aguardando seu destino... não sei se a vendo, doo ou pinto com cores alegres, deixando-a na varanda. Ainda não decidimos o que fazer com ela. Pacientemente, ela nos olha sempre que entramos e saímos de casa. Parece entender que talvez o seu tempo conosco tenha acabado, e sei que ela nos perdoa e não guarda ressentimentos por ter sido substituída pelo pufe moderninho.



sábado, 15 de março de 2014

Mudanças



Acho que uma casa tem que acompanhar as mudanças da gente. As paredes devem tingir-se das cores que nos agradam no momento. E mesmo que não seja possível pintá-las, é possível incluir essas cores nos pequenos detalhes: uma almofada, uma toalha de mesa ou cortina, um tapete.

Às vezes eu olho para quadros que fazem parte de minhas paredes há anos, e vejo que seus desenhos ou paisagens nada mais tem a ver comigo; substituo-os por outros ou troco-os de lugar. E quando eu os substituo, sempre acabo presenteando alguém com eles, pois quase nunca guardo coisas que não uso mais - a não ser que eu sinta que as usarei novamente.

Gosto de caminhar pela casa e ver as coisas diferentes. Nem precisam ser mudanças radicais (nem sempre temos o dinheiro suficiente para fazê-las), mas detalhes aqui e ali que dão um ar diferente, inovado. Parece que a casa respira melhor. É quase como quando  a gente corta o cabelo ou compra roupas novas.



Viver é mudar. Não consigo ficar  na mesmice. "Conservadora" não é um adjetivo que me define bem, pois apesar de ter meu lado conservador, que tem mais a ver com meus valores, até mesmo estes mudam. Eu não gostava Drummond, e agora, eu gosto. Acho que com o tempo, se nos permitirmos estar abertos às mudanças, novos entendimentos passam a fazer parte do nosso ponto de vista, e passamos a compreender melhor certas coisas que costumávamos não gostar, e ao mesmo tempo, passamos a não gostar mais de outras que eram consideradas muito importantes.

Não, não chego a ser uma metamorfose ambulante; mas também não tenho aquela velha opinião formada sobre tudo.



segunda-feira, 10 de março de 2014

Temperinhos




A vizinha chamou-me pelo muro, e entregou-me uma plantinha verde com uma pequena raiz: "É manjericão. Você pode plantar, e terá sempre um galhinho fresco para colocar em massas e carnes."

Plantei-o, e ele cresceu e expandiu-se tanto, que sobra canteiro afora! Juntamente com ele, plantei também hortelã-pimenta (que ainda não vingou muito bem), alecrim e salsinha. Depois, acrescentei pimenta dedo-de-moça, mas ela ainda não deu pimentinhas.

Sempre bom plantar alguma coisa naquele espaço vazio nos fundos da casa. De vez em quando, peço licença ao meu manjericão e retiro algumas de suas folhas para temperar a comida. Acho gostoso esse ritual de ir lá fora buscar tempero.

Lembro-me de que minha mãe tinha mania de cortar os tomates e espremer as sementes na terra, sem cuidado, sem nada. Dias depois, começavam a aparecer mudas que iam crescendo, crescendo... e logo tínhamos tomates vermelhinhos! Infelizmente, não tenho o dedo verde de minha mãe, e nem tudo o que eu planto, cresce com facilidade. Mas alguma coisa sempre vinga, e por isso, eu vou tentando... aqui em casa eu fiz como ela: espalhei as sementes do tomate, e eles brotaram. Comi alguns na salada, embora não tenham ficado tão bonitos e vermelhos quanto os dela. Acho que é excesso de zelo. 

Lá na casa de minha irmã, onde minha mãe morou até morrer depois que me casei, ela um dia plantou - ou melhor, apenas espetou no chão - um galho de roseira vermelha, de uma rosa que tinha ganho e que murchou; até hoje, a gente chega lá e vê a enorme roseira, sempre florida, as rosas cor de sangue aveludadas...



quarta-feira, 5 de março de 2014

De Madrugada - A Casa Dorme




Silêncio; a casa dorme.

As cortinas fechadas não se agitam. Não entra vento pela fresta da janela. Portas não rangem - e se rangirem, melhor verificar. Pessoas não circulam, e os corredores vazios dão passagem a outros tipos de criaturas. A TV permanece calada, e não há música tocando. O cãozinho dorme à porta da varanda, feliz em seu colchãozinho. Não há pássaros se alimentando nos comedouros, nem colibris bebendo a água doce.

A casa adormecida é quase como uma pessoa morta; só que ela, a casa, respira ainda devagar, bem baixinho... guarda o sono daqueles que dormem entre as suas paredes (os sonhos, estes saem pelas janelas fechadas, passando pelas vidraças quais fantasmas, e vão despertar em outros mundos).

Melhor respeitar o sono de uma casa, ou na manhã seguinte ela estará quase elétrica, de tão irritada, e as pessoas sentirão nelas mesmas a sua irritação. As luzes vão piscar quando a gente passar sob elas, e as portas vão bater devido a algum vento zangado que as empurrou. A comida vai queimar no fogo, mesmo que a gente só tenha saído de perto do fogão um instantinho só... o computador vai travar, e a máquina de lavar roupas vai deixar manchas sobre os tecidos.

Melhor não fazer barulho; se for levantar-se para uma xícara de chá, respeite o direito do relógio de tiquetaquear e deixe que o seu som seja o único a quebrar o silêncio da casa que dorme. Pois uma casa adormecida, quando despertada assim, de repente, sem sutilezas, pode vingar-se durante o dia.

Espere que o sol nasça; deixe que a luz do dia chegue, e desperte a casa adormecida bem devagar...



domingo, 2 de março de 2014

Sentido da Vida






SENTIDO DA VIDA - CRÔNICA INSPIRADA NO BELO TEXTO "PAUSA", DE ARANA DO CERRADO - E A ELA DEDICADA

O que dá sentido à vida?

Podem ser várias coisas.

Para mim, é a roupa lavada e passada, dobrada e cheirosa dentro das gavetas. O bolo fresquinho ainda quente, assado no forno caseiro de uma casa simples, limpa e acolhedora. O chão varridinho no quintal, os passarinhos voando livres, alimentados pelas frutas que eu deixo no comedouro, o vento derrubando novas folhas secas que serão varridas amanhã de manhã.

Para mim, o sentido da vida está em não procurar sentidos ocultos, mas ver tudo através do cotidiano, das coisas mais simples, como um entardecer avermelhado, gotas de chuva batendo no telhado, passarinhos cantando em uma árvore próxima, o sol, o céu... e assim, observando e respirando a vida que podemos enxergar, acabamos por reter compreensões que estavam submersas de sentidos. 

Para mim, o sentido da vida está naquela palma do vizinho ao portão, no latido alegre do cachorrinho quando seu dono chega em casa, no gato miando em volta da gente quando trabalhamos na cozinha, no barulhinho que faz a chave girando na fechadura à noitinha - o amado chegando em casa, contando das coisas que aconteceram durante o seu dia no trabalho.

Para mim, o sentido da vida é parar de tirar o pó e ficar com aquela cara de boba, segurando o paninho, quando de repente, toca aquela música que já não escutávamos há tanto tempo, e ela nos traz lágrimas aos olhos, e as recordações vão transbordando no rosto da gente.

O sentido da vida, para mim, está em saber que alguém modificou-se por causa de nosso trabalho; um aluno conseguiu passar em uma entrevista de emprego ou participou de uma vídeo conferência em outro idioma que eu consegui ajudá-lo a aprender. O marido desfrutou de um jantar simples e saudável após um dia cansativo no trabalho. O cachorrinho dorme em seu colchãozinho, de banho tomado e barriguinha cheia. As flores do jardim estão lindas porque lembrei-me de regá-las nesse calorão.

Para mim, é este o sentido da vida.