segunda-feira, 29 de setembro de 2014

UM LUGAR PARA OLHAR O CÉU





Acho que toda casa deveria ter um lugar para olhar o céu; seja uma janela, um canto de jardim, uma poltrona, um pedacinho de chão. Lembro-me que quando eu e meu marido nos mudamos para nossa primeira casa (e tivemos, pela primeira vez, um quadradinho de jardim), nos deitávamos no chão nas noites de verão (geralmente, aos sábados) e ficávamos conversando e olhando o céu.

No último sábado, ao fazer compras em um supermercado por aqui, achei umas poltronas de jardim que me atraíram. Ao olhar para elas, que são largas e feitas de material plástico, com braços confortáveis e assentos baixos com encostos reclinados, imediatamente imaginei que seriam boas para olhar o céu. Compramos duas, e coloquei-as no jardim ontem de manhã. O tempo não estava muito ensolarado, mas mesmo assim, sentei-me em uma delas e relaxei - os cães brincando à minha volta. 

Comecei a ler um dos livros que baixei para o meu e-reader, mas em poucos minutos comecei a sentir-me sonolenta e fechei os olhos. Passei a escutar e tentar identificar os cantos dos pássaros que voavam pelo jardim e pela mata próxima... sabiás... coleiros...  canários da terra... bem-te-vis... maritacas... cambaxirras... um tucano... saíras... e assim, contando passarinhos, eu dormi. Apenas por alguns minutos, mas dormi. Despertei com pinguinhos de chuva no rosto, e ao abrir os olhos, dei com o céu cinzento e as copas das árvores. Debaixo das cadeiras, dormiam meus cachorrinhos...

Mal posso esperar por uma noite estrelada, para que possamos nos sentar nas cadeiras e olhar as estrelas.


segunda-feira, 22 de setembro de 2014

EIS A CASA





Deixo um poema de Cecília Meireles sobre uma casa na qual todos gostariam de viver:


Eis a Casa


Eis a casa
menos que de ar
imponderável,
no entanto é branca de camélia e tem perfume de cal.

Com seus corredores

Suas escadas

O alpendre
As janelas uma a uma

Vê-se o mar. As montanhas. O trem passando. O gasômetro.

Vêem-se as árvores por cima com suas flores

A casa impon derável

Mas de cimento madeira tijolos ferro vidro

A pintura prateada das grades cheira a óleo a fruta a luz

A água a pingar cheira a musgo
soa metálica, trêmula
insetos pássaros líquidos
pequenas estrelas
clarins muito longe

Peitoris gastos de braços antigos

Sombras de borboletas

Eu sei quem comprou a terra
quem pensou nos desenhos
quem carregou as telhas

Passam legiões de formigas pelos patamares

Eu sei de quem era a casa
quem morou na casa
quem morreu

Eu sei quem não pode viver na casa

É uma casa
com seus andares
suas escadas
seus corredores varandas
aposentos
alvenaria
muros

imponderável

Uma casa qualquer
Cruz que se carrega
Imponderavelmente, para sempre, às costas.



Um poema belíssimo, e nem é preciso dizer... nem percebemos o quanto somos como os caramujos, carregando nossas casas às costas - todas elas - as casas onde moramos, nascemos, crescemos e vivemos com nossas famílias. As casas onde fomos felizes e tristes, cujas paredes nos viram rir e chorar, temer e amar. As casas que nos comportaram e nos abrigaram quando nos sentíamos vazios de nós mesmos. As casas onde comemoramos nossos aniversários e choramos após nossos velórios. As casas cujas paredes ficaram impregnadas dos nossos sonhos e desejos, realizados ou não - e os sonhos e desejos não realizados sempre parecem eternos.

Carregamos muitas casas às nossas costas. Todas as casas em que moramos ou ainda vamos morar. Deixamos nelas pedaços de vida que ficam registrados em fotografias e lembranças. Cada mudança de casa é uma mudança de fase; até mesmo uma simples pintura na parede, uma troca de cortinas ou de cores, representa uma mudança, ou pelo menos, o desejo desta mudança.

Carregamos as nossas casas para sempre, quer as experiências que vivemos nelas tenham sido boas ou ruins. E finalmente, há casa derradeira, a casa que nos verá envelhecer. A nossa última morada.




segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Pedaços Negros de Tristeza Pela casa...





Ando pela casa, e nos cantos, há pedaços negros de tristeza: restos de folhas queimadas, resíduos pretos que a tudo sujam quando tocam. Parece que as árvores queimadas, a quem tais resíduos pertencem, querem deixar as suas marcas em nossas casas, as marcas das dores que sentiram enquanto queimavam, covardemente atacadas por pessoas sem coração e sem visão de futuro.
Centenas de milhares de insetos, aves, mamíferos e répteis morrem sem ter para onde fugir, encolhidos de medo e de dor no calor do fogo das queimadas. 

Apesar de tudo o que é anunciado pela TV, as reportagens e campanhas de conscientização, as pessoas ainda continuam pondo fogo nas matas, causando incêndios criminosos - alguns de proporções assustadoras - causando a morte de animais e até de pessoas. Muitos perdem as suas casas devido à ação destas pessoas sem coração, cujo prazer mórbido resume-se a atear fogo e apreciar, enquanto quilômetros de mata desaparecem entre as chamas.

E eu não acredito que o façam por ignorância; não acredito que "São apenas crianças brincando", como alguns dizem. Hoje em dia, as crianças e adolescentes tem acesso à informação, e sabem muito bem dos perigos e prejuízos causados por uma queimada. Não o fazem sem saber o que estão causando. Fazem-no por pura maldade. Pelo prazer de sentir que tem o poder de alterar as vidas que os cercam ao fazerem coisas proibidas.  

Ontem eu assisti pela TV um filhote de Tuiuiú sozinho em seu ninho, abandonado pelos pais que precisaram fugir da fumaça para garantir a sua sobrevivência. O pobre animal era um símbolo desesperado da ignorância humana, de pé sobre um tronco comprido de árvore enquanto tudo à sua volta queimava. Bombeiros tentavam apagar o fogo, arriscando suas vidas a fim de garantir as vidas de outras espécies. Graças a Deus, o Tuiuiú teve um final feliz, o que, com certeza, não aconteceu com centenas de outros animais.

Traçando o caminho do fogo, os bombeiros chegaram à casa de uma família, cujo pai admitiu ter sido o seu filho o causador da queimada criminosa. Disse: "Foi ele mesmo." E o que terá sido feito a respeito? Acredito que a melhor punição - além de alguns dias ou meses de detenção - seria levar estas pessoas e obrigá-las a resgatar animais feridos ou em fuga. Talvez assim, vendo a dor de outras criaturas bem de perto, eles tomassem consciência. Eles deveriam ser obrigados a ajudar a apagar o fogo, sentindo o calor da morte nos seus próprios rostos.

Abro as janelas de manhã, e o jardim e o telhado estão cobertos de cinzas, cinzas que o vento traz para dentro de casa. 

Hoje, as janelas terão que ficar fechadas, apesar do calor agradável e do dia lindo lá fora.



terça-feira, 9 de setembro de 2014

Dia de Jardineiro





Dia de jardineiro. As plantas e a terra sendo mexidas. A grama cortada. Aromas maravilhosos cruzam o ar. Os passarinhos não vem aos comedouros, desconfiados do movimento.

"Por favor, Edson, vê se planta estas mudas de azaleias no canteiro junto ao muro. É melhor, não acha?"





E algumas plantas mudam de lugar. Coloco violetas nos vasos onde antes estavam plantadas as azaleias, mas elas estão sem flores, e vejo que preciso comprar mais flores - sempre tenho vasos de flores espalhados na varanda da casa e no muro junto à cozinha: margaridinhas coloridas, violetas, calanchuês, ciclâmens. Gosto das cores. Gosto da sensação que a gente tem quando chega em casa e, ao  descer as escadinhas do jardim, depara com a varanda florida.





E o Edson capina, afofa a terra, replanta as azaleias, corta a grama, varre tudo. O que seria de mim sem ele... Num instantinho, ele pega o pé de manjericão, que adora se espalhar pelo canteiro de temperinhos, e coloca-o em seu lugar. Digo: "Cuidado com as hortelãs, não vá arrancá-las! Andam tão fraquinhas!"




Olho os vasos de orquídeas, tão maltratados e lembro-me que tenho que adubá-los para que a próxima floração seja bonita. Por enquanto, jogo-lhes um pouco d'água. Pego os talos de espinafre que sobraram do almoço e após passá-los no liquidificador, jogo o sumo sobre a terra das  roseiras. Costumo colocar de tudo nas plantas: cascas de batata e outros legumes, sobras de comida... tudo batido no liquidificador.




Enquanto cuidamos das plantas, o Mootley passa correndo, um tufo de grama pelo de urso na boca... saio correndo atrás dele: "Mootley, devolva isso aqui!" É claro, não consigo pegá-lo! E o gramado de pelo de urso que fica em volta do cedro vai ficando cada vez mais ralo... mas ao olhar para cima, vejo que o cedro parece que cresceu. A copa está se espalhando mais. Ótimo para sombrear o calor do verão!



O meu ipê amarelo este ano deu poucas flores, está mais magrinho... talvez seja a falta de chuvas. E o dia vai passando, o sol vai se encaminhando devagarinho para trás da Pedra do Retiro. Edson recolhe suas coisas após o café e vai embora. "Até a próxima!" 

Os passarinhos voltam a encher os comedouros. 




quinta-feira, 4 de setembro de 2014

Prêmio Liebster Award

Prêmio







Meu blog "A casa & a Alma" foi indicado a este prêmio pela amiga Lucy Mara Mansanaris. Muito obrigada, Lu! O Liebster Awards é um selo de partilha e amizade entre blogs com menos de duzentos seguidores. Para aceitar os prêmios, as regras são:



1-Colocar o prêmio em seu blog
2- Responder às questões
3- Remeter o selinho para 4 blogs com menos de 200 seguidores com as mesmas questões
4-Não repassar para o blogger que lhe nomeou
5- Informar ao blogger que o nomeou para que o mesmo possa acompanhar a suas indicações.

Minhas respostas:

1. O que você acha do nível dos blogs na internet?
Sigo poucos e tenho poucos seguidores, por absoluta falta de tempo, mas gosto muito dos que estou seguindo no momento. Se não gosto, não sigo. Li recentemente um texto que dizia que o conteúdo dos blogs hoje em dia não passa de palavras vazias e sem sentido, o que muito me contrariou, pois não podemos generalizar. Em todos os setores - blogs, revistas, jornais, livros - isto acontece, o que não significa que todos sejam ruins.

2. Como você definiria o seu blog?
Tenho cinco blogs - este, que fala apenas sobre casas e seus moradores; o "Liberdade de Expressão", meu primeiro blog, criado em 2012, onde publico de tudo, desde poemas a artigos, crônicas, desabafos, etc...; escrevo o "Histórias", onde coloco meus contos e pequenos romances, "Nada a Dizer", onde posto apenas imagens sem palavras e finalmente, meu preferido, o "Passagem", no qual publico textos e demais trabalhos de outros autores. Ainda escrevo no Recanto das Letras, onde mantenho duas escrivaninhas: " Ana Bailune" , na qual publico também de tudo um pouco, e "Cavaleira Solitária", que contém textos de humor. Definir cada blog ou site seria difícil, pois teria que alongar-me muito nesta postagem; então deixo apenas uma frase: escrever é o meu hobby.

3. Está difícil "blogar" hoje em dia?
Bem, não é fácil porque os blogs às vezes são bem mais pesados - principalmente aqueles nos quais são colocados muitos widgets, sons e imagens - e demoram mais para abrir do que meus espaços no Recanto das Letras, e talvez por isso a maioria dos blogs sejam pouco comentados. Mas tenho bastante leituras, apesar de não ser este meu único objetivo.

4. Que tipo de conteúdo você não gosta de ver num blogue?
Não gosto de pornografia. Acho grosseiro demais.

Assuntos diversos:
 5. O que no Brasil necessita de melhoras?
O povo. Acho que é uma ilusão pensar que teremos melhores e mais honestos governantes se não melhorarmos a nós mesmos, a nossa própria maneira de agir e a nossa desonestidade latente que mora no velho e péssimo "Jeitinho brasileiro" de levar vantagem em tudo. Como sempre digo, um mundo mais limpo começa quando cada um varre a sua própria calçada.

6. Já tem seu candidato à presidência?
Sim, apostarei em Aécio Neves.

7. Quais assuntos você não abordaria numa conversa com amigos?
Não falo de minha vida sexual, acho horrível quem faz isso.

8. Filme preferido?
Tantos... "Sob o Sol da Toscana", por exemplo.

9. Onde gostaria de morar?
Já moro: junto às montanhas, próximo a uma floresta, atrás de um orquidário.

10. Como você se vê?
Sou uma pessoa cheia de defeitos, que não tem a menor pretensão de parecer perfeita, boazinha ou doce. Se estou aqui para melhorar, seguirei este caminho sem a menor pretensão de tornar-me perfeita, pois a perfeição é inatingível, e detesto hipocrisia. Odeio quem se aproxima da gente apenas quando precisa, quando há algum interesse.

11. Como gostaria que as pessoas lhe vissem?
Como elas quiserem. 

Blogs indicados ao selo:

-Blog da Janda
-My Sweet House, de Lu Cavichioli
-Rosachoqueeoutrascores, de Aparecisa Ramos
-Bluemaedel, de Helena Frenzel.