quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Uma casa da Minha Infância




A gente tocava a campainha da casa na antiga Rua João Pessoa e a porta era aberta ao ter a maçaneta puxada por uma cordinha, onde, no final de uma escadaria de madeira, Tia Rosa nos esperava. Após as saudações, os adultos ficavam conversando na sala de pé-direito altíssimo e janelas enormes, enquanto as crianças iam brincar lá fora. Do quintal via-se os prédios altos e totalmente diferentes da casa antiga, perdida no meio daquela arquitetura moderna. Havia uma varanda comprida, com várias portas que deveriam ter sido quartos dos empregados da casa nos velhos tempos, mas um daqueles quartos era ocupado por gatos de todas as cores, tamanhos e espécies. Havia gatos pela casa toda.

Tia Rosa e Tia Nanina diziam que eles iam chegando e ficando. Eu adorava brincar com eles, embora  muitos fossem ariscos e fugissem quando eu me aproximava. 

Nos fundos da casa havia uma edícula onde as duas irmãs nos chamavam na hora do café. No primeiro andar, uma grande cozinha com chão de cimento queimado, e subindo uma escadinha lateral, chegávamos a um quarto onde havia uma cadeira de balanço, na qual eu adorava sentar-me, e um pequeno banheiro. Se subíssemos pelo morro nos fundos da casa, chegaríamos a uma outra casa, abandonada, cercada por pessegueiros e muito mato. Flores selvagens cresciam por lá, e a vista era linda! Via-se a torre da catedral, os topos dos prédios, as montanhas ao longe... só havia silêncio e pássaros. Nós, crianças, achávamos que a casa era assombrada. Meu sonho era morar nela!

Na hora do café - que só era oferecido quando nós, as visitas, nos levantávamos para ir embora - Tia Rosa e Tia Nanina esticavam uma toalha sobre a mesa de madeira, onde dispunham as xícaras remanescentes de vários aparelhos, com desenhos diferentes. Minha preferida era uma de bolinhas vermelhas. Às vezes, elas faziam bolo. Era uma delícia ficar ali, vendo-as bater a massa à mão, picar maçãs, acender o forno... eu adorava visitar a Tia Rosa!

E quando ela nos visitava, chegava trazendo sempre um saco de plástico trançado feito esteira, cheio de maçãs vermelhas e perfumadas. Toda vez que eu sinto o cheiro de maçãs, eu me lembro dela. Ela enxergava mal, e morávamos em uma casa com escadas de acesso. À noite, quando ela ia embora, a iluminação no topo das escadas não era suficiente para que ela enxergasse, e meu pai fazia tochas de jornal para iluminar melhor o caminho, enquanto a ajudava a descer as escadas até o táxi que a estava esperando para levá-la de volta para sua casa na Rua João Pessoa.

Lembranças da minha infância, que ficarão para sempre...


6 comentários:

  1. Belas lembranças! Relembro cenas semelhantes que, de tão nítidas na memória, ficam gravadas para sempre...Revive-se outra vez!
    Um beijo, Ana!

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  2. Adoro te ler... me traz lembranças de coisas que nao vivi... mas... ao ler-te é como se tivese vivido...

    Estive uns dias refugiada em sua cidade... sempre que estou, ou muito alegre, ou triste... corro para Petropolis... me acalma... nao sei bem pq...

    Beijos...

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  3. Amiga Ana, teu texto levou-me de volta ao tempo de criança. Foi muito gostoso ler este post. Nossas memórias dos tempos infantis são eternas. Um abração. Tenhas um lindo fim de semana.

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  4. Ana, lindas lembranças!
    Adorei o texto.
    Recordei de lindos momentos da minha infância!
    Um ótimo final de semana.
    Beijinhos
    Amara

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  5. Oi Ana,
    É tão gratificante ler palavras
    que nos remete ao passado.
    Eu adoro relembrar minha infancia.
    Uma ótima semana
    Beijos

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  6. Ana que delícia de texto, recordações das vivências de família. Através das suas histórias consigo delinear o que poderia ter sido, mas que nunca mais será, porque tudo foi interrompido. Agradeço pela beleza que compartilha, através de seus textos maravilhosos, abraços carinhosos
    Maria Teresa

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