segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

Casa Não é Prisão




Uma casa deve ser um refúgio no meio do mundo onde nos recolhemos para recompor as forças. É como se ela estivesse suspensa bem no meio dos acontecimentos, esperando para nos proteger quando precisarmos.

Uma casa não pode ser, jamais, prisão: "Não vou viajar. Quem vai olhar a casa?" Ou: "Não vou dar aquela festinha, pois vão sujar o chão!" Vassoura, panos, água e um pouco de paciência limpam tudo. A casa é o lugar para onde a gente deve gostar de voltar, e não de onde a gente nunca quer sair.

Amar uma casa deve ser quase como amar alguém: cuidar, mas deixar as janelas abertas. Decorar, mas sem atravancar. Limpar, mas sem tornar-se escrava da limpeza. E, se um dia precisar deixá-la, abençoar as pessoas que irão morar nela depois da gente, guardar as boas lembranças em uma caixinha na memória e, ao fechar a porta, seguir em frente sem olhar para trás, deixando no passado o que ficou no passado. Sem apegos. Porque a gente tem as fases de morar em uma casa e também de deixá-la, se for preciso. 

Quem está tranquilo tem um lar dentro do próprio coração.



segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

Planeta Casa: Quente!...




O ano de 2014 foi apontado como o mais quente de todos os tempos. Planeta casa precisando de cuidados... após tantos desmandos com seus cômodos, ele finalmente está dando sinais de cansaço... se eu pudesse (e soubesse como), ia lá para fora e fazia uma dança da chuva.  Mas não vai adiantar, pois não há nuvens.

Espero poder acordar com o barulhinho da chuva no telhado, em uma manhã fresca e perfumada, com cheirinho de terra molhada. Espero poder olhar da janela e ver as plantinhas do meu jardim, hoje ressecadas e tristes, com seus rostinhos voltados para o céu e sorrindo em agradecimento. Não tenho água suficiente para dividir com elas, e vê-las secando, ver a terra farinhenta feito areia, me dá uma enorme tristeza...

Os passarinhos fugiram todos. As frutas apodreceram no comedouro, sem ter quem as comessem. Ouço o canto deles na mata, sob as árvores, onde é mais fresco. Eles não se atrevem a cruzar os céus com esse calorão, debaixo desse sol. Só dão o ar da graça no finalzinho da tarde, e mesmo assim, por pouco tempo.

A limpeza da casa também fica comprometida, já que não posso usar muita água. Será que alguém aí já parou para pensar no que vai acontecer se ela realmente acabar de vez?...

Enquanto isso, balões cruzam os céus com suas tochas acesas. As matas secas aqui embaixo tremem de medo quando eles passam.



segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

À Noite, no Jardim




As noites petropolitanas são sempre frescas, mesmo no verão , e apesar dos dias bem quentes que estamos tendo é possível ir lá para fora à noite e desfrutar de uma brisa fresca, quase fria. É o que temos feito sempre que possível.

Ficamos sentados no jardim, enquanto os cães brincam perto de nós. Olhamos as estrelas. Ontem, escutamos um barulho sobre o muro forrado de hera, e quando olhamos, percebemos que estávamos sendo observados: um ouriço caixeiro estava bem acima de nossas cabeças, e quando os cães latiram para ele, começou a mover-se bem lentamente sobre o muro, até desaparecer do outro lado. Ainda bem que ele não estava no gramado, ou teríamos problemas com os cachorros... tirar espinho de ouriço é trabalhoso.

Conversar no escuro é bom... parece que prestamos mais atenção ao que o outro diz sem as distrações do dia. Bem, mas é certo que a noite também tem suas distrações, como os ouriços, por exemplo. E os cães. E as estrelas cadentes. Mas são distrações mais serenas, que ao invés de nos puxarem para fora, encantam os caminhos que vão para dentro...



quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Uma casa da Minha Infância




A gente tocava a campainha da casa na antiga Rua João Pessoa e a porta era aberta ao ter a maçaneta puxada por uma cordinha, onde, no final de uma escadaria de madeira, Tia Rosa nos esperava. Após as saudações, os adultos ficavam conversando na sala de pé-direito altíssimo e janelas enormes, enquanto as crianças iam brincar lá fora. Do quintal via-se os prédios altos e totalmente diferentes da casa antiga, perdida no meio daquela arquitetura moderna. Havia uma varanda comprida, com várias portas que deveriam ter sido quartos dos empregados da casa nos velhos tempos, mas um daqueles quartos era ocupado por gatos de todas as cores, tamanhos e espécies. Havia gatos pela casa toda.

Tia Rosa e Tia Nanina diziam que eles iam chegando e ficando. Eu adorava brincar com eles, embora  muitos fossem ariscos e fugissem quando eu me aproximava. 

Nos fundos da casa havia uma edícula onde as duas irmãs nos chamavam na hora do café. No primeiro andar, uma grande cozinha com chão de cimento queimado, e subindo uma escadinha lateral, chegávamos a um quarto onde havia uma cadeira de balanço, na qual eu adorava sentar-me, e um pequeno banheiro. Se subíssemos pelo morro nos fundos da casa, chegaríamos a uma outra casa, abandonada, cercada por pessegueiros e muito mato. Flores selvagens cresciam por lá, e a vista era linda! Via-se a torre da catedral, os topos dos prédios, as montanhas ao longe... só havia silêncio e pássaros. Nós, crianças, achávamos que a casa era assombrada. Meu sonho era morar nela!

Na hora do café - que só era oferecido quando nós, as visitas, nos levantávamos para ir embora - Tia Rosa e Tia Nanina esticavam uma toalha sobre a mesa de madeira, onde dispunham as xícaras remanescentes de vários aparelhos, com desenhos diferentes. Minha preferida era uma de bolinhas vermelhas. Às vezes, elas faziam bolo. Era uma delícia ficar ali, vendo-as bater a massa à mão, picar maçãs, acender o forno... eu adorava visitar a Tia Rosa!

E quando ela nos visitava, chegava trazendo sempre um saco de plástico trançado feito esteira, cheio de maçãs vermelhas e perfumadas. Toda vez que eu sinto o cheiro de maçãs, eu me lembro dela. Ela enxergava mal, e morávamos em uma casa com escadas de acesso. À noite, quando ela ia embora, a iluminação no topo das escadas não era suficiente para que ela enxergasse, e meu pai fazia tochas de jornal para iluminar melhor o caminho, enquanto a ajudava a descer as escadas até o táxi que a estava esperando para levá-la de volta para sua casa na Rua João Pessoa.

Lembranças da minha infância, que ficarão para sempre...


domingo, 4 de janeiro de 2015

E quanto às frutas e verduras...




Vínhamos percebendo que nunca dávamos conta de comer todas as frutas que comprávamos. Chegávamos do supermercado ou da quitanda e arrumávamos as frutas em uma cesta na cozinha. Ficava um arranjo bonito, mas na hora de comer, a preguiça de lavar e/ou descascar as frutas, principalmente as mais complicadas, como o abacaxi, fazia com que decidíssemos por outros alimentos menos saudáveis, mas de rápido consumo, como biscoitos e pães.

Um dia, enquanto fazíamos compras no mercado, eu tive uma ideia: aumentei minha família de potes herméticos comprando um novo conjunto com vários tamanhos. Em casa, após lavar os potes, lavei também as frutas - peras, maçãs, uvas - já deixando-os prontinhos para comer dentro do pote maior. As outras frutas, como o abacaxi, melão e mamão, coloquei já descascadas e picadas, cada qual em um pote separado. Resultado: deu vontade de comer fruta ou fazer suco ou sorvete, é só pegar a fruta na geladeira, prontinha para consumo!

Quantas frutas se estragaram depois disso? Nenhuma! Deu um trabalhão; passei mais de uma hora fazendo isso, mas valeu a pena. Afinal, organizar dá trabalho.

Fiz o  mesmo com as hortaliças, assim que cheguei: lavei tudo e coloquei as folhas arrumadas e secas dentro de uma panela grande de alumínio. As folhas se conservam crocantes por muito mais tempo -semanas a fio - quando conservadas em panelas ou recipientes de alumínio. Na hora da salada, é só pegar e comer! Grau de desperdício: zero!

Também fica uma delícia pegar aquelas partes que todo mundo joga fora, como talos de couve e espinafre, e refogar junto com o arroz. Comida verdinha e cheia de fibra. 

Não é fácil chegar cansada do calorão do mercado e ir para a cozinha, mas garanto que o trabalhão compensa.



sábado, 3 de janeiro de 2015

Cuidar da Casa





Lendo Vickor Frankl, descubro que precisamos encontrar um propósito para viver, e nós o encontramos quando paramos de nos perguntar o que queremos da vida e passamos a indagar o que a vida quer de nós. Segundo o autor, que sobreviveu aos horrores do holocausto cultivando determinação e propósito, há três maneiras básicas de se aprender sobre o sentido da vida: através do amor, do trabalho e do sofrimento. Não o sofrimento masoquista, não a busca pelo sofrimento, mas tentando aprender o que ele quer dizer quando chega. 

Cuidar de uma casa é uma manifestação de amor, pois quando nos dedicamos a este trabalho, estamos tornando um ambiente mais aconchegante, limpo, bonito e confortável não apenas para nós mesmos, mas para alguém que amamos e vive nela. E é exatamente nisso que eu penso quando me dedico às tarefas caseiras de varrer, lavar, cozinhar, enfim, tarefas estas que hoje em dia são consideradas "menores" por muitas pessoas, principalmente, mulheres. A minha realização, o meu propósito, entre outras coisas na vida, está em tomar conta da casa física, e por consequência, da casa espiritual.

E o conceito que abrange a palavra "casa' é muito amplo:a casa onde eu moro, a casa onde cada pessoa mora, o mundo, o corpo, o universo. Tudo isso são casas! Até mesmo as emoções são casas onde nossos espíritos vivem temporariamente.  Mudamos de casas várias vezes durante um único dia. E nossa missão é sentir e entender a casa na qual estamos, e não apenas ignorá-la, tentando morar eternamente na casa da alegria e do esquecimento, como se as casas da tristeza, da dor, da dúvida e do medo não existissem! A Casa da Felicidade Eterna é a única que só existe em um único lugar: o Reino da imaginação. Saibamos aproveitar a casa da Felicidade quando estivermos nela, sabendo que a estadia não durará para sempre, pois há outras casas que devem ser visitadas e outras experiências que devem ser vividas e aprendidas.

Pois o sentido da vida está em aprender a sentir e entender as emoções. E ainda temos um longo caminho pela frente.