quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

Casa Vazia





Nas duas ocasiões em que estávamos procurando casa para comprar há alguns anos, tive a chance de entrar em várias casas vazias. Incrível perceber que nem todas estavam tão vazias assim; é que os antigos donos sempre deixavam algo para trás: um vaso de plantas, uma vassoura velha, algumas louças talvez.

Nesta aqui, quando a compramos, encontramos, entre outras coisas, um cestinho de madeira envernizada com uma pintura de flor. A alça também é de madeira. Dentro dele, havia várias chaves diferentes que não se encaixavam em porta nenhuma. Bem, livramo-nos das chaves mas até hoje, onze anos depois, mantemos o cestinho na adega. Ficou como lembrança da ex-proprietária, uma senhora já falecida agora. Acho que objetos assim fazem parte da história da casa, e gosto de manter alguns.

Quando nos mudamos da outra casa, também deixei algumas coisas para trás. Não sei o que foi feito delas, mas não as quis mais, então deixei-as lá. Alguns objetos apenas, que poderiam ser facilmente descartados se o novo proprietário não os quisesse. 

Lembro-me de que esvaziar a casa antiga foi muito alegre; colocamos tudo no caminhão para arrumar na casa nova. Mas à noite, decidi que queria ir lá para me despedir, e daí, não sei o que me deu: comecei a chorar sem parar! Quando já estávamos indo embora, parei na escada e olhei para trás, para o contorno da casa desenhado contra o céu noturno crivado de estrelas. A varanda vazia, já sem a minha rede. As roseiras tão bem cuidadas que eu estava deixando para trás, abandonando... nossa, chorei muito. Pensei na primeira manhã em que acordei naquela casa, a estranheza de olhar em volta e achar tudo tão enorme, após morar sete anos em um apartamento tão pequeno. O cheiro do primeiro café que preparei naquela manhã gelada de inverno, e ainda de pijamas, ir até a sala de jantar e ver as caixas de papelão ainda cheias, as coisas para arrumar.

 Meu marido não conseguia entender o motivo do meu choro, e eu não sabia colocá-lo em palavras. Mas é que eu olhava para a casa, e vinham à minha mente cenas alegres que eu tinha vivido ali: momentos de ouvir música balançando na rede daquela varanda, ou tomar sol nos fundos da casa, completamente nua ( a parte de trás da casa era totalmente isolada). Momentos de fazer colares na mesa da sala de jantar ou de ficar acordada até tarde nas noites de sábado assistindo a filmes na TV. Momentos em que recebemos pessoas ali, no ano novo, em aniversários, almoços... e quando, nas noites de verão, levávamos o Aleph (nosso falecido Rottweiler, ainda filhote na época) lá para fora e nos deitávamos no chão ainda morno de sol, olhando estrelas. 

E sempre que eu passo por aquela casa, sinto que ela ainda é minha, embora tenha tido pelo menos quatro proprietários desde que nos mudamos, e o último modificou-a totalmente. Mas eu vivi nela durante sete anos, parte da minha vida ficou entre aquelas paredes.

Um dia, acho que nos mudaremos desta casa, pois ela é grande demais para um casal de idosos - que é o que, em breve, nos tornaremos. Sei que será mais uma sessão de choros e lembranças. Deixarei aqui as almas dos meus quatro cães e da minha mãe; ficará também o meu sobrinho Ricardo, sentado na grama, sonhando com o dia em que ficaria curado do seu câncer e poderia brincar de correr com os cães (isso nunca aconteceu). Ficará a alma do meu sogro, que nos ajudou a comprá-la emprestando parte do dinheiro. Ficarão os senhores que construíram a escada de madeira que leva ao andar superior - todos já morreram. E é claro, ficará um pedaço da gente.



sábado, 21 de fevereiro de 2015

Onde Você Mora?





Dizem que o lar é onde o coração está. O coração pode estar em todos os lugares ao mesmo tempo? Podemos ser cidadãos do mundo? 

Tem muita gente que consegue; mas sinceramente, este perfil não combina comigo. Sou mulher de uma casa só. Sinto-me bem onde estão minhas raízes, minhas coisas, meus livros e discos, fotos e memórias. Não sou melancólica ou ligada a bens materiais, mas adoro a ilusão de pertencer a um lugar.

Gosto de viajar. Posso passar algum tempo longe, mas sabendo que tenho para onde voltar, e num quarto de hotel, pouco antes de dormir, gosto de saber que em algum pontinho desse imenso planeta, existe uma casa que é minha, e que me aguarda...

Sinto-me inteira e conectada quando estou em casa. Toda casa tem um cheiro que nenhum lugar do mundo tem. Esse cheiro só existe nela. E as cobertas também tem um toque diferente, o quebradinho na parede para onde a gente fica olhando assim que acorda, o canto dos habituais passarinhos na árvore próxima (e em nenhuma outra árvore eles cantam do mesmo jeito), as vozes dos vizinhos conversando na rua, os cães latindo no quintal, enfim, tudo isso chama-se lar.





segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

Sozinha em Casa - Uma reflexão






Sei de pessoas que tem muito medo de ficarem sozinhas em casa. Elas temem que algum ladrão possa entrar, ou que ocorra algum problema com o qual elas não consigam lidar. Mas a maioria das pessoas que temem ficar sozinhas em casa, na verdade tem medo de estarem em sua própria companhia.
Sozinhos em casa, principalmente quando não há tarefas a realizar, nós temos tempo demais. Podemos começar a pensar em coisas que normalmente não pensamos. Podemos analisar as nossas vidas, erros e acertos, arrependimentos e desejos não cumpridos, sonhos desfeitos, sonhos que ainda vivem em algum lugar da alma, adormecidos, mas que nos recusamos a despertar.

Os espelhos parecem multiplicar-se. De repente, podemos nos ver diante daquele grande espelho do quarto e prestar atenção à passagem do tempo. Você já ficou nua diante do espelho, diante dos próprios olhos, olhando cada curva, cada pelo, cada grama de gordura que a idade trouxe? Eu já. O corpo marca muito bem a nossa história de vida. Não sinto vergonha do meu corpo, embora ele já tenha tido dias bem melhores; Meu corpo torna possível que eu esteja aqui.

Sozinhos em casa, podemos abrir o armário de livros antigos e percorrer suas páginas devagar, recordando leituras e estados da alma dos tempos em que lemos tais livros. Às vezes nos lembramos do momento em que foram comprados - nosso contexto de vida então - e do porquê nós os compramos. Um livro pode ser um mergulho fundo na alma, no território das lembranças e vivências.

Sozinhos em casa, nós percorremos os cômodos e nos lembramos de que eles precisam de pintura, ou quem sabe, de uma arrumação mais elaborada; enquanto andamos pelos cômodos vazios de pessoas, nós nos lembramos daquelas pessoas que gostaríamos que estivessem por ali com a gente, naquele exato momento, e do porquê de elas não estarem - estão mortas? Afastaram-se por algum motivo, ou sem motivo algum?

Quando eu estou sozinha em casa, sem nada para fazer - como hoje - gosto de ler, escrever, ficar lá fora no jardim com meus cães, sentada na grama jogando bolinha para eles pegarem. Também dou uma percorrida nos canteiros e vejo como estão as minhas plantinhas. Se o tempo está ruim, pego o livro de receitas e vou para a cozinha. Ou então ligo a TV e escolho um bom filme ou programa. Quando não está quente demais, saio para dar uma volta à pé pelo bairro, visito o orquidário e escolho algumas orquídeas para enfeitar a casa. Meu tempo sozinha é sempre agradável. Gosto da minha própria companhia. Adoro relaxar, e fico muito bem quando eu estou sozinha em casa.

E você? Como se sente ao estar sozinha em sua própria casa?


segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

A CASA DE SOLANO




Quem acompanha as minhas postagens pela internet, sabe que eu absolutamente adoro a revista Bons Fluidos, e que sou fã do colunista Carlos Solano, que é arquiteto e escritor. Na revista, ele sempre traz dicas úteis sobre a casa e sobre as energias que ela contém - e que podem ser ativadas e melhoradas.

Mas ao adquirir a Bons Fluidos de fevereiro, tive uma linda surpresa: a casa de Carlos Solano estava lá! Adorei saber que sua casa - simples e linda, localizada em Minas Gerais - é exatamente como eu imaginava que ela fosse! E após ver com meus próprios olhos o local de onde ele escreve seus textos para a revista, entendi o motivo de sua inspiração: uma linda vista para as montanhas.

As outras matérias da revista também estão excelentes, mas saber um pouquinho mais sobre o escritor Carlos Solano realmente deixou-me contente. Para ele, menos é mais, e este é um dos meus lemas quando se trata de casa. Também não gosto de coisas acumuladas atravancando o espaço.

Enfim: este post é apenas uma homenagem a uma revista que é diferente das outras, original, agradável, fala de coisas boas em um mundo onde a maioria das revistas só fala de dietas, violência, corrupção e traição. Não que estes assuntos não necessitem ser abordados, mas é que a gente também precisa de um momento de relaxamento, um oásis no meio desse deserto...

Obrigada a todos da equipe desta maravilhosa publicação.



terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

Empresa-Casa



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Uma casa precisa ser administrada como se fosse uma empresa. É preciso que ela seja limpa, arejada, consertada, organizada. Quem já ficou apenas um dia deixando a louça acumular na pia, sabe bem do que estou falando; ao final do dia, temos uma pilha de louças sujas e muita bagunça. Experimentem deixar de varrer ou aspirar a casa durante uma semana: em breve, a poeira se erguerá e se depositará sobre móveis e cobertas; o aspecto será de sujeira e desorganização, principalmente nas casas por onde circulam muitas pessoas.

A alma da gente também é assim. Precisa ser administrada. A gente vai deixando as amarguras, ressentimentos e medos se acumularem bem em cima de onde estão os nossos sonhos, desejos e esperanças. Logo, está tudo uma bagunça só, e nos vemos em crises de identidade, temos aquela sensação de desânimo e de que nada vai para frente... tudo porque não soubemos lidar com as emoções quando elas chegaram, preferindo acumular tudo debaixo do tapete do comodismo.

Há situações que não podemos deixar passar sem tomarmos providências imediatas. Um simples vazamento pode prejudicar a estrutura de uma casa e até mesmo derrubá-la dentro de algum tempo! E os vazamentos emocionais que tentamos não enxergar e protelar tem exatamente o mesmo efeito devastador. O casamento que a gente sente que não vai bem, mas decide deixar pra ver como é que fica, e de repente, descobrimos coisas desagradáveis que surgiram justamente dessa falta de coragem para lidarmos com os problemas; As pessoas importantes que ignoramos, sem dar a elas a devida importância e que de repente somem de nossas vidas. Os relacionamentos que não cuidamos e que acabam por terminar são como aqueles vazamentos fétidos dos quais não cuidamos na hora devida, e que quando finalmente somos obrigados a lidar com o problema, o estrago já é tao grande que já não tem mais jeito, ou a obra fica cara demais...

Uma casa tem que ser bem administrada. Tem que ser cuidada. Tanto na sua estrutura física quanto na sua estrutura emocional.

Uma casa não é só uma estrutura de cimento ou madeira. Ela guarda a nossa vida, nossos relacionamentos, sonhos e esperanças.