sexta-feira, 24 de abril de 2015

Plantar




Entrego ao jardineiro as plantas que compramos ontem. Juntos, discutimos os melhores locais para plantá-las. Ontem, ao caminhar pelo mercado enquanto as escolhia, deparei com algumas que pareciam estar ali já há algum tempo, ressecadas, a terra tão estorricada que parecia grãos de pedra. Sinto pena das plantas que são colocadas no mercado e jamais recebem um pouco de água. Acabam morrendo de sede, ninguém as compra. São seres vivos; custava alguém jogar nelas um pouquinho de água?

Peguei os vasos com as plantas que escolhi e coloquei no carrinho. Penso que estas tiveram mais sorte, pois neste exato momento, estão lá fora, sendo plantadas na terra fresca. Espero que elas possam viver e que as flores possam desabrochar sem medos.

Fiquei pensando - quem escreve sempre pensa demais sobre as coisas, e às vezes, acaba fazendo associações meio absurdas entre elas -:  Às vezes, a gente fica lidando com a vida da mesma maneira que os funcionários do mercado lidam com as plantas: colocamos as coisas lá na prateleira, e as esquecemos. Murcham os sonhos, murcham os planos daquelas viagens que há anos gostaríamos de fazer, murcham as intenções de melhorar, mudar, aprender algo novo. As plantas secam e morrem, e quando finalmente nos lembramos delas, vamos até os vasos nas prateleiras e só encontramos folhas ressecadas. Esquecemos de aguar as coisas mais importantes de nossas vidas, e fica tarde demais para voltar atrás. Sejamos mais cuidadosos com nossas sementes e mudas. Sejamos mais dedicados àquilo que queremos plantar.


segunda-feira, 13 de abril de 2015

Corpo






A casa é como um corpo em volta do corpo. Assim como o corpo abriga a nossa alma, a casa nos abriga. Somos a alma da casa. Eu às vezes sinto uma preguiça enorme de fazer as coisas, e quando estou assim, eu não me forço; talvez sejam as energias da casa que estão pedindo mais sossego, menos agitação. Logo depois - sempre acontece - parece que me baixa um "Caboclo Faxinador" e começo a tirar tudo do lugar e limpar. É como se a casa acordasse de um longo sono, ou como se ela e eu fossemos parte de uma orquestra que deve tocar afinadamente.

No momento, estamos bem no meio de um sono. A alma da casa quer sossego. Quer silêncio e pouco movimento. Quando eu tento ir contra essa energia, forçando-me a dar conta de uma pilha de roupas ou varrer todo o quintal, o meu corpo reage: começo a suar, minhas mãos e pés incham e minha respiração torna-se ofegante. Se estou com vontade de limpar, tudo flui sem que eu me canse muito, e de maneira mais rápida... não há inchaço, nem cansaço excessivo. Depois, tomo uma boa chuveirada e ambas - eu e a casa - estamos prontas para o que der e vier.


terça-feira, 7 de abril de 2015

Gotejando




Choveu muito aqui no domingo, no finalzinho da tarde. Deitada atravessada na cama, enquanto meu marido assistia a algo na TV, eu de repente comecei a prestar atenção nas gotas de água que se formavam nas pontas das telhas e iam engordando até cair. O vento fustigava os galhos do cedro, e passava zumbindo pela greta da janela. Lembrei-me de que, quando eu era pequena, adorava fazer exatamente aquilo quando chovia: deitar na cama e ficar olhando as gotas caindo das telhas, o céu de chumbo por trás. O pensamento vai longe... quando nos damos conta, ele está muito além das gotas, e as memórias é que começam a engordar e cair.

Passei pelo tempo. O telhado é outro, a casa é outra, minha aparência é outra -estou bem mais velha. Mas a chuva é a mesma: é a água que evapora do chão, lagos, rios e mares, e volta a cair. Em outra casa, em outro tempo, uma menininha que estava dormindo despertou, olhou o mundo e voltou a dormir.


sexta-feira, 3 de abril de 2015

Que nas Casas de Vocês...






Que nas casas de vocês exista a paz do renascer. Que a manhã de domingo seja pacífica, doce, silenciosa e contemplativa. Feliz Páscoa!

Deixo de presente de Páscoa, um poema meu:


VOLTA AO VENTRE


Disseram que a mulher que deu-lhe à luz
Não era, de um deus, mãe verdadeira.
Que os anjos lhe falaram; foram vê-la,
E no ventre fechado, semearam.

Nasceu-lhe sob o brilho de uma estrela,
E a alegria ao vê-lo, misturava-se
Ao medo do futuro anunciado,
Pois ao mirar seus olhos de bebê,
Ela reconheceu-lhe o triste fado.

Tentou não dar ouvidos aos profetas,
Tentou negar, dos  anjos,  a palavra...
Viu-o crescer, e os passos que ele dava
A cada vez, mais dela o afastavam!

Até que um dia, fez-se a profecia:
Do alto de uma cruz, ele a mirava...
Sua alma de bebê, tornada homem,
Era a alma de um deus que a deixava!

E  hoje, a cada Sexta-feira Santa,
A alma dele abriga-se  em seu ventre,
Ela o envolve em luz, e ele sente
A paz entre as palavras que ela canta.