terça-feira, 26 de maio de 2015

SOBRE PERDER UMA CASA






Gostaria de partilhar com vocês um trechinho do livro que estou lendo no momento, "Teu é o Reino," de Abilio Estévez. Nesta passagem, ele fala de alguém perdeu sua casa após uma tempestade, da dor e da sensação de vazio, orfandade e desproteção repentinas. Segue:

"...foi nessa hora funesta que Consuelo teve consciência de que ficara sem casa. Não existe perplexidade que se possa comparar. Acontece que quando uma casa é levada pelo mar, você não perde apenas um teto onde se proteger da intempérie, da chuva, do frio, do luar, não perde apenas o lugar onde sonhos, grandezas e mesquinharias estão a salvo do olhar (severo) do outro, de quem escruta e examina para descobrir em que parte do corpo se esconde sua fraqueza, onde você guarda o que não deve ser visível, acontece que você não perde só aquilo que protege e dá calor, o lugar que permite que você seja o mais você de todos os vocês que mostra, acontece que uma casa não é só o Lugar, aquele do refúgio e do pudor, uma casa é também o armazém das suas lembranças, onde você guardou as caixas de bombons, já sem bombons, cheias de cartas e fotografias, aquela imagem da modelo de revista a quem você quis se igualar, o lugar onde compartilhou quimeras e terrores, o lugar onde lavava a roupa (que é uma forma de purificação), e onde tomava banho (que é uma forma de se igualar ao Senhor), e onde dormia (que é uma forma de se aproximar do mistério), uma casa é também o lugar de defecação (que é a forma de ir se acostumando a devolver à terra o que é da terra), e o lugar do amor (que é uma forma de cada qual experimentar o gozo da expulsão do Éden), e o lugar onde você tem a ilusão de que uma porção do Universo lhe pertence, o único em que pascal deixava de sentir terror diante dos espaços infinitos, já que é também o lugar construído à sua escala, onde você não se sente uma mísera partícula num plano infinito no tempo e no espaço, é por limites ao Universo e dizer de modo categórico Este é meu lugar, e é bom porque é meu lugar. Assim explicou Consuelo aos seus parentes a sensação de ter perdido a casa."

A história de Consuelo e sua casa perdida continua de maneira comovente. Não é lindo este texto? 

Que todos que perderam  suas casas possam reconstruir o seu lar, e ter de volta essas paredes que nos guardam, dão conforto, privacidade e proteção. Que cada um tenha dentro de si, sempre, onde quer que estejam,  a imagem da casa, do lar verdadeiro, onde estão seus objetos mais queridos, suas lembranças mais amadas...



segunda-feira, 18 de maio de 2015

Casas da Infância






Onde mora a sua infância? Onde ela ficou?

Você já voltou à casa onde morava quando era criança? Na sua imaginação, talvez ela seja bem maior do que realmente era. Afinal, você cresceu. Lá ficaram os seus heróis,  seus melhores momentos e quem sabe, alguns segredos guardados sob as pedras do jardim ou a tábua do assoalho. 

Minha casa da infância ainda é acessível, pois uma de minhas irmãs mora lá. Mesmo assim, ela hoje está diferente. Porque aquela não é mais a minha casa. Pelo menos, não hoje. Se eu fechar os olhos, posso escutar o ruído da panela de pressão e minha mãe cantarolando na cozinha, ou o jogo ouvido por meu pai no rádio domingo à tarde, ou os latidos e miados dos muitos  cães e gatos que tivemos. Talvez eu ouça a voz da vizinha chamando minha mãe através do muro que dividia as casas, e os ecos de algumas de suas conversas. Pode ser que eu escute nossas vozes ecoando pelas paredes da casa. Não me surpreenderia se eu ouvisse meus amigos chegando e me chamando para ir brincar no "campinho" ou na rua. 

Mas se eu abrir os olhos e olhar em volta, verei que a casa da minha infância não existe mais. As paredes e o chão ainda estão lá. Alguns vizinhos ainda moram ali perto, outros mudaram-se, e ainda outros morreram. A casa que eu hoje visito é a casa de minha irmã.

A casa da minha infância só existe hoje em um único lugar: a minha imaginação.



segunda-feira, 11 de maio de 2015

Na Bons Fluidos Deste Mês...





Encontrei dois pensamentos muito bacanas na revista Bons Fluidos deste mês, na reportagem que fala sobre a casa de Cacá Bratke, fotógrafa. Um deles, é da própria Kaká, e diz: "A casa é como  a gente. Ela vai se modificando ao longo da vida. Vamos abrindo mão de algumas coisas, conquistando outras. Ela vai se acomodando ou se revelando, da mesma forma como as escolhas que fazemos sobre ir ou não por um caminho. A casa nada mais é do que a gente mesmo."

E também do filósofo Gaston Bachelard: "A casa é uma das maiores forças de integração para os pensamentos, as lembranças e os sonhos do homem. Nessa integração, o princípio de ligação é o devaneio... sem ela, o homem seria um ser disperso. Ela mantém o homem através das tempestades do céu e das tempestades da vida. É o corpo e é a alma. É o primeiro mundo do ser humano... o primeiro berço."

Gostei muito de ambos, pois penso exatamente como eles. Realmente, a casa tem uma importância muito grande na vida da gente, e muitos nem sequer percebem, e talvez por isso sintam-se tão perdidos e desconectados. Quando não estamos em harmonia com o ambiente em que vivemos, é porque existe uma desarmonia interior que necessita de atenção. Achei também muito interessante o pensamento do filósofo, pois ele associa a casa à palavra  "alma," que coincidentemente, dá título a este blog.

Acho essencial que possamos gostar do lugar onde moramos. Se a vizinhança não for do nosso agrado e as circunstâncias não permitirem uma mudança, podemos ao menos transformar o interior da casa em um refúgio que nos encante, usando um pouco de imaginação, organização, amor e cuidado.

Maravilhosa a reportagem, e também a revista deste mês.


terça-feira, 5 de maio de 2015

Pintar a Casa


Nosso lavabo vai ficar assim - mas com o teto branco.



Após onze anos vivendo nesta casa, nós a estamos pintando com cores diferentes por dentro. Dá uma certa insegurança: será que vai ficar bom? Escolhemos cores nada básicas... por exemplo, o lavabo será roxo. Não, não é lilás, é roxo mesmo! A área de serviço vai ser amarela. A cozinha terá uma parede vermelho-escarlate, e as outras, brancas. O quarto de hóspedes será rosa, e o nosso, verde. 

Fomos atrevidos. Mas acreditamos que ficará bom, e não vemos a hora de ver tudo pronto - embora tenhamos uma jornada meio-longa pela frente, já que começamos hoje.

E lá vem os dias de muita poeira e muita bagunça... Paciência.