sexta-feira, 30 de outubro de 2015

A Minha Casa é Brega

Minha casa brega





A minha casa é brega. Brega de espantar qualquer decorador ou arquiteto. Brega de ter um cômodo de cada cor, paninhos de tricô sobre alguns dos móveis e misturas de diferentes estilos e cores na decoração.

Minha casa é brega porque tem vasos de flores nos parapeitos das janelas e bibelôs de passarinhos na mesinha da sala. Há cachorros circulando livremente pela cozinha, jardim e área de serviço, e por isso, meu jardim é um pedacinho caótico do paraíso. Há marcas de patinhas pelo piso da área e da cozinha, que por mais que eu limpe, voltam a aparecer a cada vinte minutos. 

Minha casa é brega porque tem casinhas de passarinhos, castiçais e fadas pendurados na varanda, onde também sempre tenho  redes bem coloridas. Quem chega, pode ver logo na entrada o ancinho e o cortador de grama, e na varanda, meu regador grandão.

O canteiro nos fundos da casa é todo misturado, e nele eu coloquei uma roseira, algumas plantas que peguei em minhas caminhadas pela rua, plantas que os outros olham e chamam de "mato" mas que produzem lindas florzinhas. Tem um canteiro quase todo vazio, onde tento cultivar meus hortelãs, mas eles nunca parecem muito animados. 

Minha casa é brega, pois na salinha de aula, os móveis são cobertos de lembrancinhas que meus alunos trouxeram para mim de suas viagens a lugares como a Grécia, Inglaterra, Rússia, Disney, Tiradentes, e também algumas lembrancinhas que colegas de blog me mandaram pelo correio.

Minha geladeira é a coisa mais brega de todas, pois é coberta de ímãs que recebi de presente de amigos, alunos e sobrinhos, de suas viagens ao redor do mundo - Portugal, Inglaterra, Rússia, Argentina, Espanha, Estados Unidos, Itália, França, Irlanda, enfim, lugares que eu adoraria visitar mas a oportunidade nunca chega... pelo menos, tenho ali pedacinhos destes lugares. 

Meu lavabo é brega, porque é roxo e tem toalhinha debruada em crochê. 

Há sinos de vento pendurados nas árvores, varandas e portais na casa toda. Quando venta, eles começam a soar, espalhando aquele som maravilhoso, relaxante e totalmente brega. 

Uma vez, alguém deixou um comentário em uma de minhas postagens sugerindo que ter um estilo próprio é perigoso, pois  a gente pode ser considerado brega. Ela estava certíssima! Só que o que ela não sabia, é que eu nem ligo, contanto que esteja cercada por coisas que eu gosto, que me deixam feliz e confortavelmente... brega!




terça-feira, 27 de outubro de 2015

Violetas Africanas




As violetas estão entre minhas flores favoritas, embora seu cultivo seja bem difícil. Quando as compramos, acomodadas em vasinhos, elas estão lindas e floridas; assim que a floração acaba, ficam as folhas, felpudas e abundantes, e pode até ser que o vasinho venha a florir novamente após algum tempo. Depois, elas começam a adoecer ou "melar". Mas por que isso acontece? A fim de obter respostas e aprender mais sobre o cultivo destas flores tão temperamentais, decidi fazer uma pequena pesquisa; eis o que eu descobri:

-Elas gostam muito de luz, mas não suportam o sol. O melhor é mantê-las em locais iluminados, mas longe da luz solar!




-As variedades que tem folhas mais escuras precisam de mais claridade. Já as de folhas claras, devem ser mantidas em locais claros, mas não tão iluminados.

-Violetas não gostam de excessos: evitem locais quentes demais ou muito frios.

-Podemos encontrar violetas comercializadas em vasos plásticos, mas o ideal é transferi-las para vasos de barro, que tem boa aeração.

-As regas não podem ser muito exageradas, ou as flores e folhas tendem a "melar" ou murchar, causando a morte da planta. Regar com pouca água, apenas a terra, evitando molhar as flores. O ideal é verificar com o dedo se a terra está seca, e só regar quando ela estiver. No inverno, uma vez por semana é o suficiente, enquanto no verão, duas regas semanais são suficientes.




-Estas flores não resistem a canteiros do lado de fora, devido à chuva e ao sol em excesso. Já tentei fazer canteiros de violetas, plantando-as no chão, e elas morrem! O ideal é que sejam cultivadas em vasos de barro, e colocadas em parapeitos de janela (desde que não haja sol em excesso).

-Se aparecerem doenças, o ideal é usar um produto acaricida para matar os bichinhos que às vezes aparecem nas folhas. Uma boa floricultura saberá indicar um.




-Retire as folhas mais velhas e as flores secas para que o vaso esteja sempre bonito. Através das folhas mais velhas que são retiradas, você pode fazer mudas.

-Adube a cada quinze dias usando uma colherinha de café de adubo para violetas, encontrado em floriculturas. Não deixe que o adubo caia sobre as folhas e flores! Jogue apenas em volta da planta.


Violetas são plantas bonitas e que duram bastante. Excelentes para serem usadas na decoração da casa, e também para dar de presente.




Imagens: Ana Bailune

quinta-feira, 22 de outubro de 2015

OS SAPOS E A CASA







"O que é aquilo ali no cantinho, entre a pia e o fogão?", perguntou meu marido ontem à noite. Eu, que estava na pia lavando verduras, logo fiquei pensando que pudesse ser uma aranha, e senti um calafrio correndo pela minha espinha. Com a lanterna do celular, descobrimos que se tratava de um pequeno sapo. Teve sorte de ter sobrevivido aos meus dois cães, Leona e Mootley, que não devem ter visto quando ele entrou e se acomodou ali. Apesar de todo calor e dessa seca que está se arrastando há vários meses e acabando com nossas minas d'água, o sapinho sobreviveu, e veio procurar abrigo em minha cozinha. 

Meu marido colocou-o em uma latinha, que guardamos para resgatar insetos que entram em casa, e levou-o para o jardim, soltando-o em um canteiro. Jogou-lhe um pouco d'água sobre a pele, e deixou-o ao seu próprio destino. Bem, não podemos conviver com um sapinho dentro da casa.

Antes, quando as chuvas eram abundantes, contávamos com um verdadeiro coral de sapos e rãs em nosso jardim, quando anoitecia; principalmente após uma chuva. Mas aos poucos, eles foram rareando até sumirem completamente. Meus dois outros cães não mexiam com os sapos; isto, após tentarem intrometer-se com um um: vi quando eles vieram babando em nossa direção, com cara de quem quebrou a louça. Dei-lhes água para beber, e depois daquilo, nunca mais mexeram com sapo nenhum, o que fez com que os anfíbios fizessem do nosso jardim o seu playground noturno. Eu gostava da presença deles. Havia um bem grande, que eu chamava de Príncipe. Algumas de minhas alunas tinham medo de passar por ele quando entravam e saiam, mas eu lhes assegurava de que Príncipe era totalmente inofensivo. Ele era quieto, observador e meio-zen. Uma ou duas vezes, acariciei sua pele áspera, e ele continuou "na sua", como se eu nem estivesse ali.

Segundo a Revista Fapemat de Ciências, além de trabalharem no controle de insetos e pragas, "...Já se sabe que esses animais são bioindicadores, ou seja, sua presença num local funciona como indicador de que o ambiente está em equilíbrio ecológico. “Os anuros são altamente sensíveis às alterações do ambiente. Por depender de ambientes aquáticos e terrestres em bom estado de conservação, qualquer alteração na qualidade da água e na temperatura pode extinguir espécies. Então, quando eles começam a desaparecer algum dano ao ambiente pode estar acontecendo”, afirma Adelina Ferreira, doutora de biologia que trabalha com a reprodução dos anuros e professora da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT)."

E também: 

"Estes anfíbios apresentam substâncias em sua pele com funções de proteção, o que tem atraído a atenção de grandes laboratórios farmacêuticos. “Os anuros não tem garras nem dentes poderosos, por isso eles usam a secreção para se proteger de fungos, bactérias, protozoários e de predadores maiores. São diversas espécies com compostos químicos muito variados, visados para estudos de substâncias novas que possam servir para várias utilidades”, aponta Marcos André de Carvalho, doutor em zoologia e professor da UFMT."

O desaparecimento dos meus sapinhos confirmam o que diz a revista. As chuvas diminuiram drasticamente, e elas são essenciais para o equilíbrio do ambiente. Mas quem sabe, o sapinho de ontem à noite tenha surgido para dar-nos esperanças, avisando-nos de que as coisas vão mudar para melhor?

Algumas culturas, como a japonesa, acreditam que a presença de sapos traz sorte a uma casa. Andar com um sapinho de madeira ou porcelana, segundo acreditam, atrai prosperidade e sorte, riqueza e felicidade. O sapinho em japonês se chama "Kaeru" que significa "VOLTAR".
Carregando-o na bolsa ou na carteira, terá a sorte de ter de volta o dinheiro que gastou. Bem, não custa tentar!

Espero que após esta leitura você pense duas vezes antes de espantar um sapo do seu quintal ou jardim. Jamais maltrate um, pois além de serem úteis, eles merecem o nosso respeito, pois tem o mesmo direito que nós temos de morarem nessa grande casa, que é o Planeta Terra!




quarta-feira, 14 de outubro de 2015

Onde Tudo Começa


O relógio que está na parede de minha sala de aula





"Quem disse que eu me mudei?
Não importa que a tenham demolido:
A gente continua morando na velha casa em que nasceu."
Mario Quintana

Em minha salinha de aula, existe um relógio de parede no qual está escrito: "Home is where your story begins", ou seja, "O lar é onde sua história começa." Apaixonei-me pelo relógio na mesma hora em que o vi. Há um ninho de pássaros, representando o lar, e acima destes dizeres, o velho cliché (velho, mas verdadeiro): "Home, Sweet Home."

Algumas pessoas não dão importância à casa. Uma conhecida minha me disse certa vez que "casa é coisa de caramujo ou tartaruga." Bem, então acho que preciso descobrir a qual destes grupos eu pertenço! Enquanto alguns veem na casa apenas um lugar para dormir, outros fazem dela um lar, um refúgio onde recuperam as forças, exercitam sua criatividade e andam descalços. Principalmente, um lugar onde guardam as lembranças.

Minha casa é um lar, e sinto-me muito bem dentro dela. Tão bem, que não me sinto nem um pouco presa ou desconfortável por trabalhar em casa e raramente poder sair. E embora a minha história não tenha começado nesta casa, ela continua aqui. Ela me conhece bem. Suas paredes sabem dos meus humores, já me viram rir e chorar muitas vezes, e também guardam as passagens de pessoas que foram importantes em minha vida e que já se foram. Às vezes, quando penso neles, eu me lembro: "Sentaram-se aqui," ou então "Passaram por este corredor" e também "Olharam por esta janela."

Quando eu me sento lá fora e olho para a minha casa lá do jardim, eu sinto vontade de entrar nela. Acho muito bom quando alguém gosta da casa onde mora e sente-se bem dentro dela. Não sou apegada a bens materiais, e sei que um dia, cedo ou tarde, terei que ir embora daqui, pois ela é grande e tem escadas demais para que um casal de idosos viva bem nela. E quando isso acontecer, eu sei que eu vou chorar, mas vou fechar a porta e levar comigo o lar que ela foi para mim. 

Desejarei que seus novos moradores tenham por ela o mesmo carinho que eu tenho, e que preservem todas as árvores do jardim - algumas, plantadas por nós. Guardarei comigo as lembranças dos dias felizes que vivi aqui, e eles servirão como incentivo para reconstruir o meu lar em outro lugar que, com certeza, já está aguardando a minha chegada, lá no futuro...






quinta-feira, 8 de outubro de 2015

A Casa do Meu Passado

Minha bisavó Genova à porta da casa, de pé sobre as escadas onde eu brinquei de casinha




A casa de minha mãe, onde nascemos todos pelas mãos da parteira Dona Maria Carioca, era pequena e simples. Foi comprada pelos avós de minha mãe quando eles chegaram ao Brasil no início do século XX, vindos da Itália. Trouxeram com eles meu avô, ainda bebê. 

A casa tinha apenas dois quartos, onde dormíamos eu e minhas três irmãs. Meu irmão dormia na sala. Tudo era pequeno, mas havia um quintal onde, quando eu era ainda bem criança, meu pai plantava abóboras. Mais tarde, como as abóboras ocupavam todo o espaço do quintal dos fundos, Meu pai desistiu delas. Mas sempre tivemos pés de frutas, como abacate, figo, limão, ameixa, banana, pêssego. Durante um certo tempo, eu e minha irmã cultivamos couves, alface e cheiro verde. Minha mãe jogava sementes de tomate aleatoriamente pelo chão, e os tomateiros cresciam em pouco tempo, espalhando seus frutinhos vermelhos. 

O chão da casa era feito de tábuas de madeira, que minha mãe gostava de encerar. O chão da cozinha era de cimento, tudo muito rústico. Minha mãe jogava água e sabão naquele chão toda sexta-feira, e esfregava com a vassoura. Enquanto escrevo, posso me lembrar do som da vassoura sobre o cimento... ela ralhava com  a gente se tentássemos passar pela cozinha quando ela a estava lavando, e então utilizávamos a porta da sala para ir brincar no quintal. Naquelas escadinhas de cimento que conduziam à entrada principal, eu me sentei muitas vezes, e construí muitos sonhos. Fazia sobre elas a minha casa de mentirinha, e cada degrau representava um cômodo. Por muitos anos, habitei naquela casa de mentirinha após a escola, quando eu chegava em casa escutando o canto das cigarras nas tardes de verão. Gostava de olhar para as montanhas lá em baixo, à esquerda, e ver o sol indo embora.


Meu avô Rogério, pai de minha mãe



Quando chovia, o barulho da chuva forte caindo sobre as telhas de zinco era ensurdecedor! Se havia trovões, eu me escondia debaixo da mesa mineira de madeira que ficava bem no centro da cozinha, fechando os olhos. Minha mãe não permitia que abríssemos torneiras ou segurássemos tesouras quando havia tempestades, pois dizia que objetos metálicos poderiam atrair os raios. 

Nossa mobília ainda era a dos tempos que meus pais se casaram, toda ela já usada, doada por meu avô. No quarto de meus pais, havia um conjunto de armário e penteadeira muito bonito e antigo. Meu avô o ganhara quando trabalhou no Hotel Majestic, onde hoje funciona a Faculdade de Medicina de Petrópolis. O armário, de pinho de riga,  tinha espelho de cristal bisotado na porta, e sobre a cômoda, havia um tampo de mármore branco. Nas laterais, um par de altares, um de cada lado. Eram móveis grandes, antigos e estilosos, que não soubemos valorizar. Mais tarde, meus pais acabaram substituindo-os por móveis mais modernos, mas de qualidade inferior. 

No verão, havia muitos besouros e joaninhas pelo quintal. Eu adorava brincar com eles, e uma vez, peguei uma quantidade razoável de joaninhas e coloquei em uma caixa, que acabou se abrindo, e elas se espalharam pelas paredes dentro da casa. Os besouros eram marrons, cinzentos, pretos, listrados, bege-nacarados, verdes, furta-cor ou azulados. Eu enchia caixas com eles, e depois me sentava no quintal enquanto eles passeavam pelos meus braços. Também gostava de lagartas, a maioria delas listradas, muito engraçadinhas. Posso ainda sentir o toque macio e gelado delas sobre a minha pele. 

Meus bisavós Heitor e Genova



Tínhamos muitos bichos: cães, gatos, galinhas, hamsters. Uma vez tive uma pata branca que me seguia para todos os lados, inclusive quando eu ia até a venda do "seu" Manuel buscar alguma coisa que minha mãe pedia. Naquele tempo, não tinha essa coisa de castrar os animais, e as cadelas e gatas tinham sempre muitos filhotes, mas conseguíamos doar a maioria deles. Os mais feinhos iam ficando... também não existia ração de cachorro, e nós os alimentávamos com fubá e restos de comida. Quando dava, acrescentávamos pedaços de bofe ou frango à sua refeição. Eram todos muito saudáveis, e ficavam soltos, podendo passear pelo meio do mato ou pela rua. Às vezes, um deles aparecia morto, atropelado ou envenenado. Eu ficava muito triste quando isso acontecia, mas ao mesmo tempo, entendia que era parte da vida, e afinal, havia muitos outros cães. A vida era assim.

Eu, na época da escola, dando discurso no aniversário de D. Franci, a diretora


Cães e gatos conviviam no mesmo espaço, sem brigas. Dormiam e comiam juntos. Separávamos a comida dos gatos porque os cães comiam mais depressa. Às vezes havia  'desentendimentos' que nós resolvíamos com alguns gritos. As coisas eram mais naturais, e iam acontecendo sem que ninguém as controlasse. A vida era mais devagar. 

Era bom, acordar de madrugada quando ainda estava escuro, e escutar meus pais conversando na cozinha antes que meu pai saísse para o trabalho. A melhor coisa do mundo é ter os pais vivos e ainda jovens zelando pela gente. Vivíamos com algumas dificuldades financeiras, mas nunca nos faltou nada. Os  mais novos herdavam as roupas de primos e irmãos mais velhos, que eram reformadas para que servissem melhor. Sapatos eram comprados uma ou duas vezes ao ano. Na escola, usávamos os cadernos e lápis mais simples. As árvores de natal eram pontas de pinheiros enfeitadas com bolinhas de vidro coloridas e chumaços de algodão para fingir que era neve. Ganhávamos presentes apenas nos natais e aniversários. Brincávamos na rua com os colegas, e todos os vizinhos se conheciam e conversavam sempre. Se a televisão de alguém quimasse, a família toda ia para a casa de algum vizinho para assistir aos programas favoritos. Era comum dividir, partilhar e ajudar, mesmo tendo pouco.

Foi bom viver na casa do meu passado.





quinta-feira, 1 de outubro de 2015

Um Gambazinho


O gambázinho, minutos após ser encontrado



Era uma quinta-feira à noite, e ouvimos os cães latindo no quintal. Sempre recebemos visitas noturnas de morcegos, corujas, ouriços e gambás, portanto, não nos surpreendemos a princípio. Mas os latidos foram aumentando e tornando-se mais ferozes, e então fomos lá fora ver o que estava acontecendo:

Em cima do muro, um gambá caminhava lentamente, e pendurados em seu corpo, os seus filhotes. Estava escuro e não conseguimos ver quantos eram, mas um deles desprendeu-se de repente e ficou preso na hera do muro. Antes que desse tempo de fazermos qualquer coisa, minha cadela Leona deu um pulo alto e o abocanhou. Aos gritos, meu marido conseguiu fazer com que ela o largasse. Fechamos o portão do canil, islolando os cães do lado de fora, mas o bebê gambá, assustado, entrou por um dos tijolos furados do muro e desapareceu lá dentro. Ainda ficamos lá algum tempo esperando que ele saísse, mas após quase uma hora, concluimos que ele tinha ido embora caminhando por dentro do muro, e entramos, colocando os cães novamente no canil.

De manhã cedo, cheguei da sacada da minha varanda e, ao olhar lá para baixo, vi um corpinho imóvel e todo molhado, caído na escada. Exclamei: "Ah, não!" Desci as escadas desanimada, pois tinha certeza absoluta de que o bebê gambá estaria morto, mas para minha surpresa, ele estava respirando. Peguei um pano na área de serviço, e ao tocá-lo, ele abriu os olhinhos e fez aquele som característico dos gambás.

Ele era bem pequeno; tinha mais ou menos o tamanho de um rato comum. Com cuidado, embrulhei-o no pano e verifiquei se estava ferido. Tinha um pequeno corte em uma das patinhas, nada sério, mas o restante do corpo estava normal. Enxuguei-o cuidadosamente, e coloquei-o em uma caixa, enrolado em um paninho de lã. Ele se aconchegou, enrolando-se a ele, e dormiu.

Corri para o Google: o que come um gambá? Leite com mel e gema de ovo. Bananas e maçã picada. Insetos. Bem, descartei a última parte... "Encontre uma entidade responsável para resgatar o animal." Tentei, durante horas, mas ninguém atendeu minha ligação. Suspirei e fui para a cozinha. Consegui uma seringa descartável no banheiro, descartando a agulha, e enchi-a com a mistura. Ao chegar perto dele, segurando-o todo enroladinho na palma da minha mão, o bebê rosnou para mim, baixando as orelhas. Mas forcei um pouquinho, e ele abriu a boca, sugando o líquido da seringa. A cada duas horas, o processo se repetia, às vezes sendo substituído por banana amassada. Ele não gostou de maçã. 

Lembrei-me de outros filhotes que apareceram em outras ocasiões, e não consegui salvar, apesar dos meus cuidados: uma rolinha. Um sabiá. Duraram apenas um dia, e depois morreram. Olhei para o filhote em minhas mãos - que já estava acostumado comigo e nem rosnava mais, apenas abria a boca quando me via, esperando comida. Pensei: "O que eu vou fazer com você? O que vou fazer com um gambá?" Cocei a barriga dele, como havia aprendido no Google, a fim de estimular suas funções excretoras, e ele enroscou a cauda em meu dedo e dormiu.

Mais tarde, peguei um ursinho de pelúcia e coloquei-o na caixa, para que ele pensasse que era a mãe. Ele se aconchegou todo no ursinho, indo descansar sob o braço dele.

Minha única esperança seria tentar devolvê-lo à mãe, e à noite, quando meu marido chegou, alimentei o gambá pela última vez e entreguei-lhe esta missão, pois precisava ir dormir para acordar muito cedo no dia seguinte. Às duas da manhã, escutei meu marido abrindo a porta do quarto:

-A mãe apareceu! Eu o soltei em cima do muro, e ele foi atrás dela. Não sei se eles se encontraram, mas foi a melhor coisa que pudemos fazer por ele...

Pensei que só nos restava torcer para que mãe e bebê pudessem ter se encontrado.

De manhã, ao ver a caixinha do gambá vazia, senti uma certa melancolia...