terça-feira, 27 de dezembro de 2016

Simpatias de Ano Novo






Ninguém acredita em simpatias. Pelo menos, ninguém que eu conheça admite crer nelas. Mas quando chega o fim de ano, todo mundo passa a acreditar - mesmo (e talvez, principalmente) aqueles que juram que elas são apenas bobagens de gente supersticiosa. Acho tudo isso muito engraçado!

Mas se você não acredita, então me explique: por que teima em vestir branco na noite de ano novo, quando deseja paz? Por que usa amarelo ou dourado, quando precisa de dinheiro, e rosa quando quer encontrar um amor? Certa vez, conheci alguém que usou preto, porque ela dizia que não queria nada, e a cor preta é a cor que contém todas as outras cores, e que portanto, as neutraliza.

Ok; já estamos entendidos sobre o fato de você não crer em simpatias, e se eu insistir no assunto, com certeza você vai bater na madeira três vezes para isolar o azar causado a quem acredita em simpatias. E enquanto estiver fazendo isso, evitará dar alguns passinhos para trás, ou a mãe morre! 

Tem quem acredite que superstições dão azar, mas mesmo assim, preferem se arriscar a passar pelo meio-fio da rua e serem atropelados por um carro a continuarem na calçada e passarem debaixo de uma escada. Somos seres muito controversos!

Bem, pesquisei por aí e descobri umas simpatias (só de curiosidade; afinal, ninguém aqui acredita nessas coisas) para se fazer na noite de ano novo. Lembre-se: elas só funcionam se você não contar a ninguém sobre o que está fazendo! Mantenha segredo. 

Lá vão elas:




-PARA TER SORTE - Do site Esotherika.com:

 A ceia dos três reis magos

Antes da meia-noite, sirva sobre uma toalha branca nova quatro pratos com maçãs ­ uma para você e uma para cada rei mago.
Coma a sua.
No dia seguinte, dê uma nota (de qualquer valor) e uma das maçãs dos reis a uma criança e outra nota e as duas maçãs restantes a um mendigo.
Deposite uma terceira nota na caixa de esmolas de uma igreja e guarde uma outra até o final do ano e depois jogue-a fora.
A partir de 6 de janeiro, Dia de Reis, acontecerão mudanças em sua vida e a Sorte será sua aliada durante todo o ano novo.




-PARA TER DINHEIRO - Do site dicasdemulher.com


Espalhe punhados de arroz cru por todos os cantos da casa, mentalizando o seu desejo de prosperidade para você e toda a sua família. Retire o arroz em 6 de janeiro, Dia de Reis, e jogue-o no jardim.





-PARA TER SORTE NO AMOR - Do site Mulher de Classe:

Use roupas íntimas novas.  Dão sorte no amor, porque deixam os mal entendidos para trás. São recomendadas principalmente para quem está começando namoro, para garantir o futuro.





PARA ARRANJAR EMPREGO - (imprescindível nos dias de hoje), Do Terra Esotérico:

Escreva seu nome e endereço em uma folha de papel branco e enrole-a em uma chave sem uso. Mergulhe este embrulho em um copo de água com uma pitada de açúcar. Coloque o copo em algum lugar alto, onde ninguém possa mexer.
Deixe-o repousar por sete dias. Depois disso reze um Pai Nosso com muita fé, pedindo pelo emprego. Ao final da oração, jogue a água e o papel no lixo e guarde a chave. (observação minha: é claro, tenha fé, acredite em você, faça contatos, especialize-se e espalhe  currículos por aí!)





ALGUMAS PARA A CASA


É crença antiga de que, na noite de ano novo, as portas e janelas da casa devem estar abertas e as luzes, acesas, para que as energias sejam renovadas. Também é uma boa ideia deixar a casa bem limpinha antes da grande noite, lavando batentes de janelas e  de portas com sal grosso ou água do mar. 

Evitar: coisas quebradas (jogue-as fora!) e lâmpadas queimadas, que trazem muito azar na noite de ano novo. Minha mãe costumava dizer que nesta noite não se deve consumir animais que 'ciscam para trás', como galinhas e perus. Bem, eu acho que não se deve consumir animal algum, mas...

À meia-noite, é bom fazer muito barulho - cantar, ouvir música alta, tocar sinos, bater palmas, etc; - a fim de espantar os maus espíritos e as más energias. E não se esqueça de, no dia 6 de janeiro, colocar na carteira três caroços de romã. Eles não deixarão que sua carteira esvazie durante o ano todo. 


Agora, só me resta desejar a todos vocês boa sorte, e um Feliz 2017!




segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

Agradecimento




Agradeço a todos os que passaram pela minha casa em 2016. 

-Aos meus alunos, que me prestigiaram. Espero que eu os tenha ajudado!

-Aos amigos e parentes que me visitaram.

-Aos pássaros e demais bichinhos que sempre estão por aqui.

À chuva, que deu o ar de sua graça em abudância.

-Aos que prestaram seus serviços, pintando, consertando, jardinando... porque uma casa não se mantém sozinha. Obrigada por deixarem um pouco da sua arte por aqui.

Agradeço também a todos os que passaram por este blog, que é um dos meus favoritos e o que escrevo com mais prazer. Mesmo que não seja o mais visitado. Obrigada!

Um Feliz Natal e um 2017 bem melhor!



quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

CASA É COISA SAGRADA







Casa é coisa sagrada. Devemos limpar os pés, baixar a voz e adoçar o olhar ao entrarmos em casas alheias. Devemos aprender a respeitar os espaços e as regras,   os gostos diferentes dos nossos, os objetos pessoais, as fotos e suas histórias, pois são histórias das vidas de seus habitantes. 

Casa é invólucro do corpo, que é invólucro da alma, templo do coração. Que aprendamos a reverenciar a casa, o lar, e a manter silêncio sobre os domínios que não são os nossos. Isto é sinal de maturidade, espiritualidade elevada, respeito, carinho e generosidade. 

Que jamais penetremos em uma casa para a qual não fomos convidados; que jamais partamos de uma casa com a língua coberta de injúrias, a fim de falarmos mal daquilo que vimos, tecendo críticas maldosas a respeito de quem nos recebeu. Todo aquele que age desta forma, carrega dentro de si a amargura da inveja e da maldade. 

E mais ainda, jamais olhemos para dentro das janelas alheias com curiosidade maldosa, enviando para dentro o olhar enviesado, ofídico e cruel da calúnia, da injúria, da crítica e do desamor. 

Tratemos a casa alheia da mesma maneira que gostaríamos que tratassem a nossa. Ou correremos o risco de nos vermos, um dia, do lado de fora de todas as casas, tendo como cenário, janelas e portas fechadas. 




quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

CHUVAS




Depois de vários dias de chuva forte, é preciso abrir a casa e deixar entrar o ar fresco. Colocar para fora os cobertores, estendendo-os ao sol, trocar as toalhas de banho, lavar a roupa. 

Dá trabalho, mas é necessário.

Tenho pensado no quanto a chuva é importante. Lembro-me dos tempos de seca que vivemos há apenas dois anos, quando a água escasseou nas torneiras e as plantas do meu jardim quase morreram. Mas chuva demais também não é bom. Pena que o homem destruiu o equilíbrio do planeta, causando esses períodos longos de seca e calor entremeados por chuvas fortes. 

E eu sinceramente acredito que todo este desequilíbrio reflete-se também nos pensamentos que as pessoas tem expressado ultimamente. Fico muito triste ao ouvir e ao ler coisas absurdas sendo ditas por pessoas que eu costumava admirar. 

As casas e os pensamentos estão se distanciando cada vez mais uns dos outros, e me pergunto se algum dia voltarão a se aproximar. Dá mesmo a impressão de que algum tipo de separação está em curso. O mundo está se partindo ao meio. Nesta separação, muitos cairão no abismo que está sendo aberto, e depois, cada qual ficará de um lado diferente.

 E as janelas estarão fechadas.




terça-feira, 22 de novembro de 2016

Farelos nos Cotovelos




Quando a gente se casa com alguém – dizem – é que passamos a conhece-lo realmente. Viver juntos na mesma casa deixam expostas todas as manias, fraquezas, medos, dúvidas, qualidades e defeitos. Acho que isso é verdade, embora tenha conhecido casais que viveram juntos uma vida inteira sem sequer atinarem para a verdadeira personalidade do cônjuge. Passaram uns pelos outros sem realmente se olharem.

Já ouvi falar de casais que se separaram por detalhes bobos, como a pasta de dentes espremida pelo meio do tubo, a tampa do vaso sanitário ‘batizada’ ou levantada, as marcas de pés enlameados no assoalho recém-encerado, os roncos noturnos, os cabelos caídos na pia, a cara sem maquiagem ou cheia de creme pela manhã. Mas eu penso que estes motivos são apenas desculpas para o motivo real das separações: faltou amor. Faltou paciência, tolerância, e acima de tudo, diálogo. Talvez, a compreensão de que ninguém é perfeito.

Viver juntos significa dividir espaços,  respeitar os espaços e os gostos do outro e os momentos nos quais ele precisa estar só.

Porém, para certas coisas, nem todo o diálogo do mundo terá sido suficiente. Por exemplo: meu marido tinha a mania de cortar pão sobre a toalha de mesa, o que me deixava sempre irritada. Eu detestava sentar-me à mesa para o café da manhã (levanto-me muito mais cedo que ele, pois começo a trabalhar às sete, e tomo café da manhã sozinha) e sentir os farelos sob o antebraço, ou vê-los grudados nas mangas das minhas roupas. Depois de pedir, implorar, discutir e brigar, desisti; não havia jeito de fazer com que ele se lembrasse de colocar um prato sob o pão antes de cortá-lo. 

Certa vez, enquanto ele começava a cortar o pão, eu mais que depressa pus o prato sob ele, e meu marido – muito sem graça – passou a limpar com a mão os farelos que tinham caído sobre a toalha antes ... jogando-os, com a cara mais inocente do mundo, no chão da cozinha! Percebi que ele tinha tentado encontrar uma solução rápida e desajeitada para seu problema, e ao invés de ficar brava, comecei a rir. Ele pegou a vassoura e passou a varrê-los.

A partir daquele dia, ele não apenas começou a lembrar-se de colocar o prato sob o pão antes de cortá-lo mais frequentemente (às vezes, ele ainda se esquece), mas também passei a não dar mais tanta importância quando os farelos ficam grudados na minha roupa; ao invés disso, lembro-me daquele dia e começo a rir. Confesso que, quando ergo os braços da mesa e não encontro nenhum farelinho sequer, sinto falta, e penso naquele dia com carinho.

Há tantas coisas boas que ele faz para mim e para nós, e farelos de pão não serão mais motivos suficientes para que comecemos uma discussão. Mas só a maturidade traz este entendimento, e a maioria dos casais separam-se antes disso. 





segunda-feira, 14 de novembro de 2016

Natal Com Crise






🌝



Todo ano é sempre a mesma coisa: fechamos nossos olhos, e quando os abrimos novamente, vemos uma loja com decoração de natal, e daí pensamos: "Nossa, como o ano passou rápido!"

Apesar da crise, não posso dizer que este ano tenha sido ruim para mim. Poderia ter sido melhor, mas dentro do contexto atual do país - e do mundo - até que não foi ruim. Porém, ele foi ruim para uma porção de gente que perdeu seus empregos, e eu sinto muito por todos eles. Deve ser horrível ter esse caminho longo em frente, quando não sabemos o que fazer para abastecer os tanques para poder seguir adiante. Há famílias passando necessidades. Há pais desempregados, se perguntando o que farão para sustentar seus filhos. 

Mas creio que as coisas vão melhorar no próximo ano. Precisamos dar um crédito ao novo governo ao invés de ficarmos torcendo para que dê tudo errado. 

Mas com crise ou sem crise, logo será natal. Todo mundo tem em casa a árvore de natal com os enfeites antigos, e não custa nada arrumá-la bem bonita e colocá-la em um lugar de destaque da casa. Acho que ela é um sinal de esperança e fé. Não podemos jamais perder a fé em nós mesmos. E se não houver dinheiro para os presentes, podemos escrever cartinhas, desenhar cartões, fazer uma fornada de biscoitos e decorá-los para dar de presente. E se não tivermos uma roupa nova para a noite de natal, podemos pegar as antigas e lavá-las e passá-las bem, acrescentando um lenço colorido, um cinto ou uma bijuteria. Quem tiver habilidades, poderá bordar alguma coisa, quem sabe...

No lugar do amigo oculto, podemos brincar de outra coisa, como um jogo que possa divertir a todos e tornar a noite mais alegre. Acho que a noite de natal não deve ser deixada de lado.

Em 2012, minha mãe estava em coma no hospital. Foi um natal muito triste para mim, sem comemorações - eu nem aceitei convites, pois minha tristeza poderia contaminar a alegria das outras pessoas. Fiquei em casa. Mas montei minha árvore de natal, e fiz minhas orações como sempre faço. Na noite de ano novo, eu estava mais triste do que nunca, e logo de manhã, recebi a notícia de que ela tinha morrido. Mesmo assim, não consigo pensar nas festas de final de ano como ocasiões tristes. 

Faltam algumas pessoas à mesa - minha mãe, meu pai, meu sobrinho. Amigos de infância. Mas eu ainda estou sentada à mesa, e também meu marido e todas as pessoas que ainda estão por aqui. E existem centenas de motivos pelos quais eu devo ser grata; para começar, agradeço porque há uma mesa. Porque há pessoas. Não estamos passando fome, nem frio. E estamos juntos.


quinta-feira, 10 de novembro de 2016

PRA LÁ DO MEIO DA ESTRADA






Dizem que quem passou dos quarenta está na meia idade. Pode ser, pois hoje em dia, alguém com 40 anos chega a viver além dos oitenta com saúde e disposição; mas, aos 51, estamos virando o Cabo da Boa Esperança – alguém aí conhece quem tenha 102 anos? Meia idade é metade da vida, e já estou além. Pra lá do meio da estrada.

Eu olho tudo o que está acontecendo no mundo hoje em dia, e penso nos momentos em que estou dedicada a uma intensa faxina da casa: as coisas fora dos seus lugares, panos e esfregões espalhados pela casa, garrafas de desinfetante, cera líquida e lustra móveis pelos cantos. A poeira por trás dos móveis aparece, e insetos mortos e secos parecem embalados por ela. Pode ser que baratas e demais insetos, sentindo-se desalojados, passem a correr pela casa, espalhando pânico e desejando manter seus esconderijos.

 A casa está em seu momento mais caótico, e se chegar uma visita, provavelmente não terá onde sentar-se. 

Mas quando a faxina termina, parece que a casa ganha vida nova: as coisas limpas, perfumadas e em seus lugares. Dá gosto andar pelos cômodos e pensar: “eu que fiz,” e imaginar desfrutar de tudo com a pessoa amada.

O mundo está num estado caótico. Acho que estamos vivendo momentos de transição. Vemos coisas acontecendo das quais até Deus duvida (e acho que Ele deve estar apavorado com as coisas que andam acontecendo por aqui). E o que torna tudo ainda mais difícil, é a não aceitação de tais transições por pessoas que desejam manter tudo como está, indo contra o bom senso. Ao invés de analisarem tudo sob uma nova ótica, continuam usando a velha (ca)ótica de sempre, indo contra tudo, sendo contra tudo, não importa o quanto as mudanças sejam necessárias – o que prevalece para estas pessoas é o orgulho ferido, a vingança, a incitação ao ódio, a incoerência. 

Eu prefiro ver essa bagunça como uma fase necessária, antes que a casa fiquei limpa e arrumada. Gosto de dar uma chance aos acontecimentos antes de ir contra eles. Nem sempre as minhas escolhas e preferências são as escolhas e preferências da maioria, e quando isso acontece, devo respeitar os fatos, sem torcer contra, sem querer que dê tudo errado, sem espalhar pânico, boatos e maledicências. As bestas do Apocalipse estão soltas, e correm pelo mundo, nascendo das linhas de blogs, sites e jornais, no formato de crônicas inflamadas e muitas vezes, mentirosas.

Eu já tenho mais que a metade do meu caminho andado. E quando eu paro para pensar, dou graças a Deus por isso. Tenho pena dos que estão chegando agora, e que serão adultos daqui a alguns anos. Sinto muita pena por essa idiotice que grassa por todo o planeta, pelos jovens que são manipulados como marionetes pelas mãos egoístas de quem só quer ver o circo pegar fogo a fim de defenderem seus interesses pessoais.

Tenho horror ao discurso pronto e repetitivo que sai de suas bocas quando eles cometem o sacrilégio de abri-las e dizerem o que os outros pensaram por eles. Causam-me asco os clichés incansavelmente repetidos, que nem fazem mais sentido, que não se encaixam mais em lugar nenhum. 

Espero que eu esteja certa, e que esta bagunça seja apenas uma fase de transição, e que logo as coisas se ajeitem e as pessoas se acalmem. De qualquer forma, não estarei aqui para ver como tudo ficará, e ao olhar em volta, dou graças por isso.




quarta-feira, 26 de outubro de 2016

Minha Casa







A minha casa é meio-Frida Kahlo:
As cores se misturam e se espalham
Aleatoriamente nas paredes,
Em verdes e azuis, roxos, laranjas,
Em brancos, amarelos e vermelhos.

Cortinas não tem forros; esvoaçam
Ao vento que adentra e as agita,
E espalha o cheiro doce do incenso
Que eu queimo pela casa todo dia.

A minha casa é simples, e aqui dentro
Somente os objetos que amamos:
Presentes e lembranças de viagens,
E coisas que gostamos e compramos.

Por sobre a escadaria de madeira,
As mãos dos marceneiros já idosos...
A maioria deles já se foi,
Deixaram suas presenças no meu chão.

Sob esta escadaria, hoje estão
Os livros que mais amo, e que não doo;
De vez em quando os leio, e então me entrego
A branda realidade dos seus voos.

O meu jardim é uma parafernália
De plantas que eu encontro pela rua,
E ao plantá-las, raramente brotam
Onde eu as plantei, mas onde querem.

E Burle Marx, acho, se revira
Na tumba onde dorme, ao contemplá-lo!
Pois nada nesse canto é ordenado,
E nada obedece seus espaços!

Cresce uma pitangueira no canteiro,
As rosas se debruçam sobre o muro
E escolhem enfeitar outros jardins;
O meu bonsai cresceu trinta centímetros,
O cedro se encheu de passarinhos
Que fazem os seus ninhos por ali;
Me acordam de manhã, sempre bem cedo.

Pelo gramado, há falhas onde a grama
Foi arrancada pelas patas ávidas
Dos meus cachorros; ele se divertem
Ao derraparem sobre as folhas verdes.

Na minha casa nada é muito certo:
Eu desafio o rígido bom gosto
E rio das suas leis – desobedeço
O que já foi determinado e posto.





terça-feira, 25 de outubro de 2016

Poupando a Alma




A gente vê uma formiguinha se afogando em uma poça; nossa primeira reação, se tivermos alguma solidariedade pelas outras criaturas, será salvá-la. E olhamos em volta a procura de um galhinho ou de uma folha que possamos usar para resgatar a formiga de uma morte terrível por afogamento, mas não achamos nada, e ela continua a debater-se no meio da poça. É urgente que algo seja feito, ou ela morrerá em poucos segundos. Sem hesitar, mergulhamos o dedo na água e a resgatamos.

O que poderá acontecer então? Esperamos que a formiga nos agradeça, ou demonstre respeito por nós devido a nossa atitude? Se esperamos que haja, da parte de uma formiga, qualquer tipo de reconhecimento, é porque somos insensatos. O máximo que poderemos conseguir, caso não sejamos espertos o suficiente para colocá-la no chão o mais rapidamente possível, é uma ferroada. Porque uma formiga sempre agirá conforme a sua natureza, aferroando tudo que ela considere uma ameaça. É típico das formigas agirem desta forma.

O mesmo acontece em relação a alguns seres humanos que, após receberem a nossa ajuda, nos retribuem com a ingratidão, ou pior ainda, com a indiferença. É da natureza deles que hajam desta forma. 

Porém, não é por isso que devemos permanecer ao seu redor, convivendo com sua indiferença ou levando ferroadas e amortecendo pontapés. Temos uma escolha: podemos sair de perto de pessoas assim. Podemos escolher poupar as nossas almas desta convivência onde um é o doador e o outro apenas recebe. 

Muitos dizem que, ao darmos alguma coisa, não devemos esperar nenhuma recompensa, mas recompensa, neste caso, não é bem a palavra; quem doa, quem ajuda, quem resgata, espera que pelo menos não sofra a ingratidão da indiferença, e que aqueles a quem ajudou, não se voltem contra eles sem motivo algum.

Acho que existe uma má interpretação das palavras que Cristo disse quando nos estimulou a oferecer a outra face. Oferecer a outra face é resgatar a formiga da poça d'água, mesmo sabendo que poderemos ser aferroados, mas não é deixar o dedo disponível para a formiga picar. É ajudar a quem precisa, mesmo que tenhamos sido magoados por esta pessoa, mas sem permitir que voltemos a ser magoados. 

Poupemos as nossas almas das convivências infrutíferas. Perdoemos, mas não continuemos nos expondo a relacionamentos dos quais só podemos esperar sofrimento, ingratidão e injustiça. procuremos nos relacionar com aquelas pessoas que realmente demonstram gostar de nós, da nossa presença, e que nos respeitam e admiram.




terça-feira, 18 de outubro de 2016

Quebrando Regras



Reza o bom-gosto que todas as louças sobre uma mesa tem que ser iguais. Assim como todos os copos e talheres, tudo pertencendo a um mesmo aparelho. 

Tem mesmo?

Mas ... e aquelas peças que sobraram dos aparelhos antigos que foram quebrando, ou as que ficaram de herança dos pais ou tias? Só porque elas não tem suas peças correspondentes, terão que ser legadas ao esquecimento, ou então condenadas a permanecerem enfeitando a cristaleira? Não! Coloque tudo na mesa!

Copos diferentes uns dos outros, xícaras, travessas  e pratos que pertenceram a vários aparelhos diferentes e talheres que não tem nada a ver uns com os outros, servem para quebrar o gelo da formalidade e criar mesas lindas e coloridas. Basta usar um pouco de imaginação. 

Sou absolutamente contra qualquer regra em uma casa. Casa tem que ter a nossa cara. Mais importante do que cumprir regras que mais parecem uma 'ditadura do bom-gosto,' cada um deve usar o que gosta, o que pode evocar lembranças de bons momentos ou de pessoas queridas que se foram. Por que não?




Por isso, quando eu era menina, adorava tomar café na casa da tia Rosa. Lá, as xícaras eram todas diferentes: cada uma mais linda e antiga que a outra, e eu podia sempre escolher qual xícara ou pires gostaria de usar. Optava quase sempre por uma branca de bolinhas vermelhas, redonda e bojuda. 




Quando me casei, eu tinha copos lindos, mas como não sou de guardar nada, eu usei-os todos, e eles foram quebrando. Um dia, peguei todos os copos que eram de conjuntos diferentes e doei. Hoje, eu me arrependo de ter seguido a regra ditatorial de que todos os copos sobre uma mesa devem ser iguais. 


Uma das vantagens de ter copos de cores e modelos diferentes, é que cada pessoa saberá qual é o seu, sem confundí-los com os de outra pessoa. 

Para mim, a única regra de uma casa deveria ser esta: use tudo o que gostar, sem se preocupar com o que os outros vão pensar ou com as convenções da moda e do bom-gosto. Casa é para ser feliz. É o único espaço do mundo onde você pode andar nú, cantar no banheiro, ficar de pijama o dia inteiro no final de semana, convidar quem você quiser... e usar louças diferentes em uma mesma ocasião.

O mesmo eu digo sobre lençóis, fronhas e colchas. E também sobre as cores das paredes. Gosto de um cômodo de cada cor. Certa vez, uma pessoa disse sobre minha cozinha: "Onde já se viu, cozinha de paredes vermelhas?" Sem hesitar, respondi: "Aqui em casa!"










segunda-feira, 10 de outubro de 2016

Tempo Livre






O que você gosta de fazer no seu tempo livre?

Esta é uma pergunta que sempre aparece durante as conversas com meus alunos de inglês: "What do you like to do in your free time?"  E então começamos a falar de todas as atividades com as quais preenchemos nosso suposto 'tempo livre:' exercícios físicos. Cozinhar. Cuidar da casa. Levar o cachorro para passear. Fazer compras. Ir à festas. Assistir a um filme. Ler um bom livro. E então, eu acabo concluindo de que essa coisa de tempo livre não existe; pelo menos, não como a imaginamos!

Pois se nós tratamos de preencher todas as lacunas do nosso tempo com atividades, então não haverá mais lacunas, e portanto, não haverá o que deveria ser chamado de tempo livre.

O trabalho em uma casa jamais termina. Jamais! Sempre há alguma coisa que a gente deixa para fazer no nosso tempo livre: arrumar os armários, podar as roseiras, retirar as teias de aranha dos cantinhos, tirar o pó. Se não tivermos cuidado, estaremos dedicando todo o nosso tempo livre ao cumprimentos de tarefas após tarefas. 

O mesmo se diz de quem trabalha fora: ao invés de tirar dez minutinhos para o café, as pessoas aproveitam para colocar alguma coisa em dia. Quando eu trabalhava fora, os intervalos entre as aulas eram todos dedicados à preparação de outras aulas. 

Lembro-me de um final de tarde muito cansativo; eram cinco da tarde, estava um calor horroroso e minha próxima aula seria às sete. Todos os professores estavam em sala de aula, e decidi que ao invés de começar a preparar as aulas da semana seguinte, eu ia antes tirar algum tempo para descansar. Apaguei as luzes da sala dos professores, virei o ventilador na minha direção, coloquei os pés para cima em uma cadeira e fechei os olhos. Dez minutos depois, alguém passou no corredor e me viu. Ela entrou, acendendo a luz e perguntando: "Você está bem? Precisa de alguma coisa?" Respondi que estava bem, mas ela continuou me perguntando qual era o problema comigo. Quando insisti que estava apenas descansando, ela me deu um tapinha nos ombros e saiu, dizendo que se eu precisasse conversar, ela estaria disponível, e saiu, deixando a luz acesa.

As pessoas não estão acostumadas a verem as outras descansando. Logo concluem que há um problema de saúde, ou emocional. Se você está apenas parado, contemplando a natureza ou o movimento da rua, você está deprimido. Há muitos anos, quando eu era uma estudante, o pai de uma amiga passou de carro e me viu parada no ponto do ônibus. Por algum motivo, ele não podia me oferecer uma carona, e seguiu adiante. Eu estava bem debaixo de um salgueiro chorão, uma árvore linda, e eu contemplava o vento agitando suas longas folhagens, e nem sequer o vi passar. Quando nos reencontramos, ele me perguntou por que eu estava tão triste naquele dia. Só que eu não estava triste! Estava apenas parada, olhando para uma linda árvore que ninguém olhava, embora passassem por aquela ela centenas de vezes por ano.

Para mim, tempo livre é para não fazer nada. É como eram as horas de recreio na escola, mas ao invés de brincar, eu me sento no pátio e apenas observo. É o momento de aguçar minha percepção, descansar o corpo e a alma. Hora de não fazer absolutamente nada - por mais estranho que isso pareça.




quarta-feira, 28 de setembro de 2016

É Muita Pressão!










Minha mãe tinha mania por panelas. Principalmente, panelas de pressão. Tinha várias, de vários tamanhos, velhas e novas. Algumas não tinham mais as válvulas, ou estas estavam quebradas. Elas serviam para cozinhar o angú dos cães (naquele tempo não existia essa coisa de ração não; era angú mesmo, misturado a restos de comida e pedaços de carne de segunda. E os cães eram todos gordos e saudáveis). 

Ela vivia recauchutando suas panelas de pressão: trocava as válvulas e as borrachas que ficam em volta da tampa. Usava uma agulha comprida e fina, vendida em camelôs, para desentupir as saídas da válvula. Confesso que, nesses meus vinte e seis anos como dona de casa, nunca troquei uma borracha de panela de pressão, e nem troquei ou limpei as válvulas. E por incrível que pareça, estou só na minha terceira panela de pressão nesses quase trinta anos.

Minha mãe vivia dizendo: "Panelas de pressão são perigosas! Não chegue perto do fogão quando elas estiverem no fogo! Não as sacuda, não as molhe e nem as deixe cair quando estiverem chiando! Cuidado para não encher a panela demais! Cuidado! Cuidado!" 





Quem nunca ouviu falar de panelas de pressão que apresentaram problemas, que atire a primeira tampa. Ou a primeira válvula entupida. Já ouvi dizer que uma mulher, conhecida de uma conhecida, quebrou a mandíbula depois que uma panela de pressão explodiu e a tampa bateu em seu queixo com toda força. Já ouvi também sobre panelas que explodiram e furaram o teto, ou a coifa, afundando o fogão. Recentemente, uma de minhas alunas, a Lorena, mostrou-me fotografias de uma cozinha totalmente pintada de feijão porque a válvula entupiu e o feijão começou a espirrar para todos os lados. Há histórias de pessoas que sofreram queimaduras sérias, e até de gente que não resistiu à pressão e acabou morrendo.

Eu também tenho a minha:



Eu tinha uns dezesseis anos quando meus pais adoeceram - peneumonia - e minha irmã, que morava no centro da cidade próximo a um pronto socorro, achou melhor que eles ficassem em sua casa, caso acontecesse algum problema e eles precisassem de tratamento de emergência. Eu fiquei sozinha em casa, pois minhas irmãs já eram casadas naquela época. Resolvi cozinhar uma sopa para o jantar. Piquei os legumes e a carne, juntei os temperos e coloquei tudo na panela de pressão.

Estava tudo indo às mil maravilhas, e fui assistir TV. De repente, escutei um chiado alto na cozinha, e quando cheguei lá, a panela estava espirrando sopa para todos os lados. Eu não sabia o que fazer; tinha medo de chegar perto e levar uma panelada no queixo, ou ficar com queimaduras sérias, ou ser assassinada pela panela de pressão. Desligar o fogo significaria ter que chegar perto da panela, e isso estava fora de cogitação! Depois de xingar, rezar e chorar, resolvi correr até a casa de minha irmã, que morava ali pertinho. Cheguei lá toda esbaforida, dizendo que a panela ia explodir. 

Voltamos correndo para a minha casa, e ela, calmamente, entrou na área de serviço, onde ficava a famosa casinha do botijão, e desligou o gás. Eu me achei uma perfeita idiota por não ter pensado naquilo antes, mas o pânico embota o raciocínio. Depois que o chiado parou, fomos até a cozinha e abrimos a panela. A sopa ainda estava crua, mas a minha maior preocupação, seria ter que limpar a cozinha toda àquela hora da noite - já passava das nove. Minha irmã foi embora, deixando a diversão todinha para mim.

Depois de tudo limpo, coloquei a panela no fogo para terminar de cozinhar a sopa. Sem a tampa, é claro. Mesmo assim, fiquei olhando para ela desconfiada; e se de repente ela pegasse a tampa e se tampasse sozinha, só para me assustar? O estresse foi tão grande, que fui dormir com fome; não comi a sopa. Aliás, ninguém comeu. Ela acabou virando comida de cachorro.



Depois de casada, também tive alguns eventos desagradáveis com panelas de pressão, mas já mais experiente, mostrei a elas quem é que manda. Corajosamente, atravessei a cozinha, cheguei ao fogão e apaguei o fogo. Elas ficaram lá, chiando e reclamando até se conformarem.

Panelas de pressão são temperamentais, mas além de pouparem gaz e acelerarem o cozimento dos alimentos, também fazem coisas maravilhosas; quem nunca cozinhou uma lata de leite condensado, não sabe qual é o melhor doce de leite do mundo! Mas cuidado (quase posso ouvir minha mãe dizendo isso): Não abra a lata enquanto ela estiver quente, ou o doce vai espirrar em seu rosto e causar queimaduras sérias!

É esperar pacientemente até que a lata esfrie e você possa desfrutar dessa coisa deliciosamente engordativa.




quinta-feira, 22 de setembro de 2016

Dois Cães

Meus cães, na porta da cozinha.






Chega de manhã. Latidos, arranhões nas portas dos fundos. Abro a porta, e eles ganham o jardim, correndo, latindo, espantando os passarinhos distraídos que ficam sobre o gramado. Brincam de pique como duas crianças. 

O cachorro do vizinho sobe as escadinhas da porta que dá na área de serviço, e fica olhando. Penso que ele gostaria de vir brincar também, mas quando minha Leona o vê, ela corre e dá um salto, quase pulando os  três metros de altura que a separa da outra casa. Mas eu sei que é de brincadeira. Mais latidos, até que o outro cão vai embora e os meus se distraem brincando de cabo de guerra com uma folha comprida. 

Na cozinha, marcas de patinhas elameadas. Passo o pano de chão. Mootley senta-se sob o pinheiro, e fica olhando para cima. Acho que ele está dizendo que a vida é boa. Leona me traz a sua bolinha, e eu a jogo para ela pegar. Mootley fica de longe, observando, tramando... de repente, ele sai correndo e pega a bolinha da Leona. Ela vai atrás dele, e o pega-pega recomeça.

Todo dia é assim, e que bom que é. Eles me lembram, através do seu entusiasmo, espontaneidade e alegria, que cada dia deve ser vivido intensamente, e celebrado até o finalzinho. 

Final de tarde: os dois, cansados, vão tirar uma soneca na casinha. Ficam por lá até a hora do meu marido chegar. Brincamos mais um pouco com eles, e pronto: hora de dormir. Gosto de dizer, brincando: "Boa noite, John Bob! Boa noite, Mary Helen!"




domingo, 11 de setembro de 2016

Antigas Paradas

eu







Antigamente (não gosto muito desta palavra, pois me faz lembrar de quantos anos tenho; vou recomeçar esta crônica):

Quando eu era criança, era obrigatório participar das paradas de sete de setembro. Quem não participasse, deveria apresentar atestado médico, e perderia pontos no conceito. Ainda me lembro dos ensaios, feitos na rua próxima à escola; tínhamos que passar desfilando por uma escola rival, e éramos vaiados pelas outras crianças. Era humilhante.

A nossa 'formação' - tempo em que aguardávamos nossa vez até a hora de começar a desfilar - era feita em uma rua muito fria da cidade, onde o sol só começava a brilhar depois das dez. Lá estava eu, de pé, segurando uma bandeira às sete da manhã, tiritando de frio entre a neblina petropolitana, comum naquela época,  e muitas vezes, com vontade de ir ao banheiro. 

Ir ao banheiro era difícil, pois era preciso que uma das professoras nos acompanhasse até uma outra rua, onde pedíamos para usar o banheiro de algum bar ou padaria, e a resposta era quase sempre a mesma: "O banheiro está em reformas." E quando conseguíamos, o lugar era sujo e fedido. Minha mãe sempre nos advertia para que jamais nos sentássemos no vaso sanitário de banheiros públicos, e de saia levantada, eu me apoiava nas pernas para não encostar no vaso, enquanto prendia a respiração. Como era difícil!

Às vezes, as mães traziam pacotes de biscoitos que eram distribuídos entre as crianças. E finalmente, a hora do desfile: momento de glória. Vinte ou trinta minutos sendo aplaudidos e ouvindo coisas como "Que gracinhas!" 

Uma vez, não me lembro o motivo pois eu era muito pequena - uns sete ou oito anos -, minha mãe não foi ao desfile, e acabei me perdendo da minha irmã mais velha, que foi para casa sem mim ou ficou com as amigas, não me recordo bem do que aconteceu. Eu não tinha dinheiro para voltar para casa de ônibus. Seria preciso subir a rua toda à pé, debaixo do sol de meio-dia, sozinha, com fome, sede e muito cansada. Era uma caminhada longa, de quase uma hora. 

Quando estava chegando no início da ladeira, antes de começar a subida, parei para tomar água em uma 'biquinha' de mina que havia ali. Enquanto bebia, olhei para o chão e vi um enorme limão, verdinho, e eu o peguei, pensando em entregá-lo a minha mãe para fazer um suco no almoço. A caminhada foi dura. Estava muito cansada, acordada desde seis horas, e de pé naquela rua das sete Até meio-dia. O sol estava forte, o que dificultava ainda mais a caminhada. Ninguém me levara biscoitos, e meu estômago roncava. Mas subir a rua naquelas condições era a única maneira de chegar em casa, então olhei para cima e comecei a caminhada.

Cheguei em casa suada e varada de fome, e minha mãe me deu a maior bronca:

-Onde você estava até essa hora? Por que não veio para casa com sua irmã? 

Expliquei a ela o que tinha acontecido. Logo depois, minha irmã chegou em casa e levou uma bronca maior ainda.

Entreguei o limão à minha mãe, pedindo que fizesse uma limonada. Ainda furiosa, ela indagou: 

-Onde você achou isso?

Quando disse que o encontrara na rua, ela esbravejou: 

-JÁ TE DISSE PARA NÃO PEGAR NADA NA RUA!

E jogou o limão no lixo. Me senti muito humilhada, não sei porquê.  Almocei - acho que depressa demais - e depois, tive febre e vomitei tudo. Não gosto de lembrar daquele dia, mas sempre me lembro quando 7 de setembro chega. 

Eu tinha a impressão de que estava em um daqueles filmes em que alguém tenta chegar em casa, mas alguma coisa sempre acontece, impedindo. A imagem da minha casa, do meu quarto e da sombra do nosso telhado ia e vinha, e me dava forças a cada passo. Às vezes eu tinha lembranças de quando eu era uma criança abandonada, sem ter para onde ir, e chegava a uma vila onde outras crianças que tinham pais e casas estavam brincando. Eu brincava com elas, mas quando o sol se punha, suas mães as chamavam para dentro e eu ficava  na rua, com fome, descalça, e sozinha. Nunca vivi isso de verdade, mas era como se eu me lembrasse. Era eu, mas não era eu, pois nunca fui criança abandonada. Pelo menos, não nesta vida.

Mas desde muito cedo, meu maior sonho sempre foi ter uma casa. E eu sonhava com ela, fazia planos de como seria. Teria árvores no jardim, dois andares e uma escada de madeira por dentro. E eu teria muitas roupas. Lembro-me de ficar horas deitada em minha cama quando criança, idealizando esta casa que hoje me acolhe.



quinta-feira, 8 de setembro de 2016

MAIS MENOS








Não é ter uma casa maior ou mais bonita que vai preencher o seu vazio. Não é um carro novo, uma viagem, um novo eletrodoméstico ou a renovação do guarda-roupa que vai fazer com que aquele enorme buraco dentro de você seja preenchido. Embora estas coisas possam ser positivas e acrescentar momentos de prazer, elas não servem para aquele espaço que deve ser ocupado pelo autoconhecimento, sabe, aquelas coisinhas que  a gente não quer ver, se recusa a escutar e acha que se elas ficarem lá fora no frio, miando de fome, vão acabar morrendo.

Elas não vão morrer; vão miar cada vez mais alto, sem jamais se cansarem. E estes miados vão se revelar de várias formas: dores no corpo, pesadelos, insônia, insatisfações, e a pior de todas: a amargura.

O que é amargura? Amargura é olhar em volta e não achar nada bonito para se ver, pois os olhos ficam turvos. Parece que o olhar se acostuma a só focar no que for feio, e é só isso que a pessoa amarga consegue enxergar, pois é só por isso que ela se interessa. Quando está diante de alguma coisa bonita, ela procura, procura e procura, até achar um defeito que possa citar; e quando está diante de algo não tão bonito, ao invés de se calar ou procurar por alguma coisa positiva, ela simplesmente se sente feliz feito pinto no lixo, e passa a apontar, criticar, rebaixar. Parece que o prazer da pessoa amarga é causar desprazer nos outros, fazer pouco de suas conquistas e jogar indiretas ferinas.

Pessoas assim não precisam de mais, e sim, de menos: menos coisas materiais, e mais momentos preciosos de silêncio para conversar com elas mesmas; menos gente em volta, e mais solidão até aprenderem a sentir prazer na própria companhia; menos ruídos e barulhos altos, e mais silêncio para se concentrar no que realmente interessa; menos dezenas de pessoas em volta que nada acrescentam, e mais amigos verdadeiros; menos medicação, e mais meditação. Menos dinheiro, e mais criatividade e gratidão. Menos viagens complicadas a lugares longínquos, e mais passeios à pé pelas redondezas.

É tão difícil conversar com pessoas assim, amargas! Elas não escutam. Simplesmente, mudam de assunto. Não deixam a gente sequer terminar uma frase, e já estão falando de outra coisa. Principalmente, delas mesmas. Tentam esconder com palavras aquilo que seus silêncios revelam, aquilo que seus olhares querem derramar, mas escondem por medo de parecerem fracas. Não sabem que demonstrar fragilidade, dizer "Eu preciso de alguém para conversar", "Eu estou triste," "Sinto saudades de você," e "Por favor, me ajude," é um sinal de grande força. É aceitar que é humano. Assim, acabam afastando as pessoas. Ninguém consegue participar de um monólogo - que deveria ser um diálogo - por muito tempo. Conversar é dar e receber, falar e ouvir. 

Às vezes, a gente acha que a mudança tem que começar do lado de fora: "Preciso emagrecer para me sentir feliz." Na verdade, é o contrário: "Preciso me sentir feliz para emagrecer." Ou então: "Preciso de uma nova casa para recomeçar a vida." Mas na verdade, deveria ser: "Preciso de uma nova vida para me sentir bem na mesma casa." As mudanças duradouras e verdadeiras começam do lado de dentro. Quem está de bem consigo mesmo, não perde tempo planejando vinganças, focando no que é feio, ferindo as pessoas, remoendo o passado e amarrado a relacionamentos doentios com pessoas que só vampirizam.  Quem quer ser feliz, deve aprender a deixar ir, relaxar mais, agradecer mais, se amar mais. 

É muito bom ter coisas nas nossas casas que tornem o nosso dia mais prático, fácil e confortável. Mas não é bom deixar que estas coisas nos possuam, e muito menos, acreditar que elas, por sí, trarão felicidade e preencherão aquele enorme espaço vazio que não pode ser preenchido com nada material. O espaço que deve ser ocupado pela nossa alma.



quinta-feira, 1 de setembro de 2016

Nossa Casa








O Brasil é a nossa casa. 

Eu gostaria que todos pensassem assim, e que enxergassem o país como um lar. O que você não faria ou deixaria que outros fizessem dentro da sua própria casa? Certamente, não permitiria que a quebrassem, invadissem, depredassem ou colocassem sua família em risco.  Tomaria medidas para que a sua casa fosse o mais segura possível, tanto para você quanto para as pessoas e coisas que você ama.

A ruas e prédios que são destruídos, pichados ou danificados, são as ruas e prédios por onde você e as pessoas que você ama precisam passar frequentemente. Por que fazer com que ela fique tão feia e perigosa? Os bancos e lojas que são invadidos e roubados, são os bancos e lojas que prestam os serviços que você necessita. Os ônibus que você queima, são os mesmos que o levam a todos os lugares que você quer ir.

Protestar é uma coisa; destruir é outra. Perde a razão aquele que age com violência.





terça-feira, 23 de agosto de 2016

VIDRAÇAS - UMA REFLEXÃO










Se existe uma coisa que eu não gosto de fazer em uma casa - além de passar as roupas - é limpar as vidraças. Costumo evitar este aborrecimento até o momento em que começo a envergonhar-me de abrir as cortinas. Aqui em casa há muitas vidraças para serem limpas, e pode levar mais de duas horas para limpar todas elas. 

Considero as tarefas que não apreciamos como uma forma de disciplina. Todo mundo tem que fazer coisas das quais não gosta. É impossível viver fazendo apenas o que nos dá prazer. E se não houvesse quem desse cabo das tarefas desagradáveis, como seria o mundo? Imaginem só o que aconteceria se ninguém recolhesse o lixo, ou capinasse as ruas? São tarefas difíceis que exigem esforço físico, e que precisam ser executadas com regularidade, muitas vezes sob o calor forte do sol ou sob os pingos gelados da chuva. As pessoas que são responsáveis por elas, na minha opinião, deveriam ser muito bem pagas. Infelizmente, não é isso que acontece. 

As pessoas apenas valorizam as profissões que tem a ver com passar anos e anos em uma faculdade, e depois, em cursos de especialização, pós-graduação e mais especializações após um certo período de tempo. Outras tarefas são consideradas menos importantes. Fico pensando se algum dia, todos os tipos de trabalho serão considerados igualmente importantes. Quando este dia chegar, será também o dia em que todas as pessoas serão consideradas igualmente importantes.





segunda-feira, 15 de agosto de 2016

Quando Estou Longe






Às vezes, se fico muito tempo longe, sinto falta do cheiro da minha casa, das cores das paredes, das plantas no jardim. Fico pensando naquele livro que eu estou lendo, e que esqueci de colocar na mala; penso nos meus cães - será que estão sendo bem cuidados? Sentem saudades? - e também fico preocupada se minhas plantinhas estão sendo regadas. 

Entre um momento de diversão e outro, entre um descanso e outro, quando eu estou longe de casa eu fecho os olhos e penso nos sons dos meus sinos de vento, e de manhã cedinho, no canto dos passarinhos na árvore que fica à janela do meu quarto. Penso em seus galhos verdinhos quase batendo no vidro, e me pergunto se alguém se lembrou de trocar a comida dos pássaros no comedouro, e a água dos beija-flores.

Bem no meio de um passeio, eu de repente me pego pensando que o lugar mais lindo do mundo fica num quadradinho cercado por um muro de hera, com um gramado cheio de falhas devido às brincadeiras dos cães de correr atrás das bolinhas e sairem derrapando, arrancando tufos de grama. E como eu sinto saudades de mexer em minhas panelas na cozinha, colocar as coisas todas em ordem, varrer as folhas secas do quintal e deitar-me na rede da varanda!

E quando estou de volta, a casa me espera, como uma velha amiga que eu deixei para trás, mas que nunca me esqueceu, e de quem eu nunca me esqueci, e ela me recebe sem julgamentos, sem cobranças - apesar da poeira que descansa pacientemente sobre os móveis e objetos - e de braços bem abertos. 

Se eu não voltasse, o que seria dela? Aos poucos, se deterioraria; o jardim transformar-se-ia em um matagal disforme, impenetrável e temível, talvez criadouro de cobras e aranhas; as paredes descascariam as cores, as cobertas e roupas ficariam mofadas, e os passarinhos não mais voltariam, pois não mais teriam para quem cantar. Se eu não voltasse, a casa deixaria de ser um lar. Quem sabe, em anos, alguém poderia abrir suas portas e perguntar a si mesmo; "Quem morou aqui?" E através dos restos mortais do que encontrasse, tentaria reconstruir a história da minha casa, e através dela, a minha história.





terça-feira, 9 de agosto de 2016

Atenção







Vocês já reparou o que acontece quando negligenciamos a conservação e a limpeza de uma casa? Logo, logo, as coisas começam a falhar: os canos entopem, o reboco cai, as madeiras apodrecem. É muito desagradável ficar em um ambiente assim, onde tudo parece caótico e coberto de sujeira. 
Muitas vezes, negligenciamos também uma coisa muito importante: o nosso espírito. A nossa alma. 

Você reza? Tem alguma fé? Não, não falo de religão, pois ter uma religião não significa, necessáriamente, ter fé verdadeira ou ser uma boa pessoa. Eu estou falando de fé na vida, em você mesmo, em um santo, ou em qualquer coisa que sirva de estímulo. Todo mundo precisa ter um lugar para onde correr quando as coisas dão errado - e elas sempre dão errado uma vez ou outra. E rezar não é apenas dizer palavras decoradas enquanto  pensa no que vai fazer para o almoço, ou na ida ao shopping center. Rezar é abrir a alma para algo maior que a gente, e conversar, pedir orientação, agradecer.


Agradecer.


A gente vive negligenciando também a necessidade de agradecer pelas coisas que temos: água nas torneiras, comida sobre a mesa, roupas, abrigo, amigos, família, acesso à cultura, saúde e tantas outras coisas que são muito importantes na vida, mas que só sentimos a sua falta quando elas se vão. 

Eu acho melhor a gente prestar atenção. De nada dianta querer recuperar algo que perdemos porque desvalorizamos, negligenciamos, fizemos POUCO CASO. 

Às vezes, sentimos falta de alguém que se afastou, mas nos esquecemos de perguntar o que causou tal afastamento. Culpamos a pessoa que está distante, chamando-a de orgulhosa ou indiferente, mas raramente paramos para examinar o que fez com que tal pessoa preferisse se distanciar de nós. 

Não prestamos atenção. Não agradecemos. Nos esquecemos da gentileza, do respeito, do carinho e do amor. valorizamos coisas que não são realmente importantes, enquanto chutamos para escanteio as coisas vitais. 

Até que a vida escuta e compreende, e deixa de insistir. Perdemos para sempre algo valoroso, porque não prestamos atenção. E voltar por um caminho que ficou coberto de capim e dejetos pode ser muito difícil- muitas vezes, impossível.