terça-feira, 22 de novembro de 2016

Farelos nos Cotovelos




Quando a gente se casa com alguém – dizem – é que passamos a conhece-lo realmente. Viver juntos na mesma casa deixam expostas todas as manias, fraquezas, medos, dúvidas, qualidades e defeitos. Acho que isso é verdade, embora tenha conhecido casais que viveram juntos uma vida inteira sem sequer atinarem para a verdadeira personalidade do cônjuge. Passaram uns pelos outros sem realmente se olharem.

Já ouvi falar de casais que se separaram por detalhes bobos, como a pasta de dentes espremida pelo meio do tubo, a tampa do vaso sanitário ‘batizada’ ou levantada, as marcas de pés enlameados no assoalho recém-encerado, os roncos noturnos, os cabelos caídos na pia, a cara sem maquiagem ou cheia de creme pela manhã. Mas eu penso que estes motivos são apenas desculpas para o motivo real das separações: faltou amor. Faltou paciência, tolerância, e acima de tudo, diálogo. Talvez, a compreensão de que ninguém é perfeito.

Viver juntos significa dividir espaços,  respeitar os espaços e os gostos do outro e os momentos nos quais ele precisa estar só.

Porém, para certas coisas, nem todo o diálogo do mundo terá sido suficiente. Por exemplo: meu marido tinha a mania de cortar pão sobre a toalha de mesa, o que me deixava sempre irritada. Eu detestava sentar-me à mesa para o café da manhã (levanto-me muito mais cedo que ele, pois começo a trabalhar às sete, e tomo café da manhã sozinha) e sentir os farelos sob o antebraço, ou vê-los grudados nas mangas das minhas roupas. Depois de pedir, implorar, discutir e brigar, desisti; não havia jeito de fazer com que ele se lembrasse de colocar um prato sob o pão antes de cortá-lo. 

Certa vez, enquanto ele começava a cortar o pão, eu mais que depressa pus o prato sob ele, e meu marido – muito sem graça – passou a limpar com a mão os farelos que tinham caído sobre a toalha antes ... jogando-os, com a cara mais inocente do mundo, no chão da cozinha! Percebi que ele tinha tentado encontrar uma solução rápida e desajeitada para seu problema, e ao invés de ficar brava, comecei a rir. Ele pegou a vassoura e passou a varrê-los.

A partir daquele dia, ele não apenas começou a lembrar-se de colocar o prato sob o pão antes de cortá-lo mais frequentemente (às vezes, ele ainda se esquece), mas também passei a não dar mais tanta importância quando os farelos ficam grudados na minha roupa; ao invés disso, lembro-me daquele dia e começo a rir. Confesso que, quando ergo os braços da mesa e não encontro nenhum farelinho sequer, sinto falta, e penso naquele dia com carinho.

Há tantas coisas boas que ele faz para mim e para nós, e farelos de pão não serão mais motivos suficientes para que comecemos uma discussão. Mas só a maturidade traz este entendimento, e a maioria dos casais separam-se antes disso. 





7 comentários:

  1. Boa noite, querida Ana!
    Estive pensnado nisso noutro dia, a maturidade nos traz benefícios em tudo e até nesse quesito que aborda em seu post...
    Tão bom ser mais flexível em tudo na vida!
    Relacionar-se é difícil mas não impossível se dois querem muito...
    Bjm muito fraterno

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  2. Nao sei... tem coisas que se é importante para o outro, pq nao mudar? Se algo realmente incomoda o parceiro, nao prestar atençao a esse detalhe me soa um pouco como descaso...é complicado, para se viver bem, precisa-se muito mais que amor...so amor nao basta...

    Beijos...

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    1. Cara Frida, conheço meu marido há mais de 31 anos, e tenho certeza absoluta de que não é este o caso. Ele esquece as luzes do banheiro acesas todos os dias, e quem paga a conta de luz é ele.

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  3. Oi Ana,
    Tudo bem?
    Muito bacana o texto!Não sou casada,mas passo por questões feito essas com o meu irmão todos os dias e às vezes me pergunto se ele nunca vai melhorar.
    Antes os estresses geravam brigas,hoje não falo como antes.
    Concordo quando fala da maturidade,conforme vamos amadurecendo a vida vai adquirindo outras lentes e passamos a enxergar de outra maneira.

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  4. Boa tarde, num viver a dois, tem que haver cedências de parte a parte, o problemas é quando um acha que só o outro tem que ceder.
    Continuação de boa semana,
    AG

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  5. Se há amor, é preciso haver compreensão na vida a dois. Sim, é neste momento do viver conjugado que acabamos conhecendo muito da outra pessoa e encontrando, inclusive coisas que não nos agradam.
    Bela tarde e parabéns pelo texto.

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  6. Boa noite, Ana, se há amor, tudo se ajeita, até os farelos de pão...
    São detalhes tão pequenos, que não fazem diferença, às vezes, passado algum tempo, fazem até falta, como você mesma diz.
    Vocês estão juntos porque são responsáveis, se amam, se respeitam e têm cumplicidade, que como o diálogo, faz muita falta no casamento.
    Seus textos são especiais, obrigada pela partilha, feliz domingo, abraços carinhosos
    Maria Teresa

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