quarta-feira, 26 de outubro de 2016

Minha Casa







A minha casa é meio-Frida Kahlo:
As cores se misturam e se espalham
Aleatoriamente nas paredes,
Em verdes e azuis, roxos, laranjas,
Em brancos, amarelos e vermelhos.

Cortinas não tem forros; esvoaçam
Ao vento que adentra e as agita,
E espalha o cheiro doce do incenso
Que eu queimo pela casa todo dia.

A minha casa é simples, e aqui dentro
Somente os objetos que amamos:
Presentes e lembranças de viagens,
E coisas que gostamos e compramos.

Por sobre a escadaria de madeira,
As mãos dos marceneiros já idosos...
A maioria deles já se foi,
Deixaram suas presenças no meu chão.

Sob esta escadaria, hoje estão
Os livros que mais amo, e que não doo;
De vez em quando os leio, e então me entrego
A branda realidade dos seus voos.

O meu jardim é uma parafernália
De plantas que eu encontro pela rua,
E ao plantá-las, raramente brotam
Onde eu as plantei, mas onde querem.

E Burle Marx, acho, se revira
Na tumba onde dorme, ao contemplá-lo!
Pois nada nesse canto é ordenado,
E nada obedece seus espaços!

Cresce uma pitangueira no canteiro,
As rosas se debruçam sobre o muro
E escolhem enfeitar outros jardins;
O meu bonsai cresceu trinta centímetros,
O cedro se encheu de passarinhos
Que fazem os seus ninhos por ali;
Me acordam de manhã, sempre bem cedo.

Pelo gramado, há falhas onde a grama
Foi arrancada pelas patas ávidas
Dos meus cachorros; ele se divertem
Ao derraparem sobre as folhas verdes.

Na minha casa nada é muito certo:
Eu desafio o rígido bom gosto
E rio das suas leis – desobedeço
O que já foi determinado e posto.





terça-feira, 25 de outubro de 2016

Poupando a Alma




A gente vê uma formiguinha se afogando em uma poça; nossa primeira reação, se tivermos alguma solidariedade pelas outras criaturas, será salvá-la. E olhamos em volta a procura de um galhinho ou de uma folha que possamos usar para resgatar a formiga de uma morte terrível por afogamento, mas não achamos nada, e ela continua a debater-se no meio da poça. É urgente que algo seja feito, ou ela morrerá em poucos segundos. Sem hesitar, mergulhamos o dedo na água e a resgatamos.

O que poderá acontecer então? Esperamos que a formiga nos agradeça, ou demonstre respeito por nós devido a nossa atitude? Se esperamos que haja, da parte de uma formiga, qualquer tipo de reconhecimento, é porque somos insensatos. O máximo que poderemos conseguir, caso não sejamos espertos o suficiente para colocá-la no chão o mais rapidamente possível, é uma ferroada. Porque uma formiga sempre agirá conforme a sua natureza, aferroando tudo que ela considere uma ameaça. É típico das formigas agirem desta forma.

O mesmo acontece em relação a alguns seres humanos que, após receberem a nossa ajuda, nos retribuem com a ingratidão, ou pior ainda, com a indiferença. É da natureza deles que hajam desta forma. 

Porém, não é por isso que devemos permanecer ao seu redor, convivendo com sua indiferença ou levando ferroadas e amortecendo pontapés. Temos uma escolha: podemos sair de perto de pessoas assim. Podemos escolher poupar as nossas almas desta convivência onde um é o doador e o outro apenas recebe. 

Muitos dizem que, ao darmos alguma coisa, não devemos esperar nenhuma recompensa, mas recompensa, neste caso, não é bem a palavra; quem doa, quem ajuda, quem resgata, espera que pelo menos não sofra a ingratidão da indiferença, e que aqueles a quem ajudou, não se voltem contra eles sem motivo algum.

Acho que existe uma má interpretação das palavras que Cristo disse quando nos estimulou a oferecer a outra face. Oferecer a outra face é resgatar a formiga da poça d'água, mesmo sabendo que poderemos ser aferroados, mas não é deixar o dedo disponível para a formiga picar. É ajudar a quem precisa, mesmo que tenhamos sido magoados por esta pessoa, mas sem permitir que voltemos a ser magoados. 

Poupemos as nossas almas das convivências infrutíferas. Perdoemos, mas não continuemos nos expondo a relacionamentos dos quais só podemos esperar sofrimento, ingratidão e injustiça. procuremos nos relacionar com aquelas pessoas que realmente demonstram gostar de nós, da nossa presença, e que nos respeitam e admiram.




terça-feira, 18 de outubro de 2016

Quebrando Regras



Reza o bom-gosto que todas as louças sobre uma mesa tem que ser iguais. Assim como todos os copos e talheres, tudo pertencendo a um mesmo aparelho. 

Tem mesmo?

Mas ... e aquelas peças que sobraram dos aparelhos antigos que foram quebrando, ou as que ficaram de herança dos pais ou tias? Só porque elas não tem suas peças correspondentes, terão que ser legadas ao esquecimento, ou então condenadas a permanecerem enfeitando a cristaleira? Não! Coloque tudo na mesa!

Copos diferentes uns dos outros, xícaras, travessas  e pratos que pertenceram a vários aparelhos diferentes e talheres que não tem nada a ver uns com os outros, servem para quebrar o gelo da formalidade e criar mesas lindas e coloridas. Basta usar um pouco de imaginação. 

Sou absolutamente contra qualquer regra em uma casa. Casa tem que ter a nossa cara. Mais importante do que cumprir regras que mais parecem uma 'ditadura do bom-gosto,' cada um deve usar o que gosta, o que pode evocar lembranças de bons momentos ou de pessoas queridas que se foram. Por que não?




Por isso, quando eu era menina, adorava tomar café na casa da tia Rosa. Lá, as xícaras eram todas diferentes: cada uma mais linda e antiga que a outra, e eu podia sempre escolher qual xícara ou pires gostaria de usar. Optava quase sempre por uma branca de bolinhas vermelhas, redonda e bojuda. 




Quando me casei, eu tinha copos lindos, mas como não sou de guardar nada, eu usei-os todos, e eles foram quebrando. Um dia, peguei todos os copos que eram de conjuntos diferentes e doei. Hoje, eu me arrependo de ter seguido a regra ditatorial de que todos os copos sobre uma mesa devem ser iguais. 


Uma das vantagens de ter copos de cores e modelos diferentes, é que cada pessoa saberá qual é o seu, sem confundí-los com os de outra pessoa. 

Para mim, a única regra de uma casa deveria ser esta: use tudo o que gostar, sem se preocupar com o que os outros vão pensar ou com as convenções da moda e do bom-gosto. Casa é para ser feliz. É o único espaço do mundo onde você pode andar nú, cantar no banheiro, ficar de pijama o dia inteiro no final de semana, convidar quem você quiser... e usar louças diferentes em uma mesma ocasião.

O mesmo eu digo sobre lençóis, fronhas e colchas. E também sobre as cores das paredes. Gosto de um cômodo de cada cor. Certa vez, uma pessoa disse sobre minha cozinha: "Onde já se viu, cozinha de paredes vermelhas?" Sem hesitar, respondi: "Aqui em casa!"










segunda-feira, 10 de outubro de 2016

Tempo Livre






O que você gosta de fazer no seu tempo livre?

Esta é uma pergunta que sempre aparece durante as conversas com meus alunos de inglês: "What do you like to do in your free time?"  E então começamos a falar de todas as atividades com as quais preenchemos nosso suposto 'tempo livre:' exercícios físicos. Cozinhar. Cuidar da casa. Levar o cachorro para passear. Fazer compras. Ir à festas. Assistir a um filme. Ler um bom livro. E então, eu acabo concluindo de que essa coisa de tempo livre não existe; pelo menos, não como a imaginamos!

Pois se nós tratamos de preencher todas as lacunas do nosso tempo com atividades, então não haverá mais lacunas, e portanto, não haverá o que deveria ser chamado de tempo livre.

O trabalho em uma casa jamais termina. Jamais! Sempre há alguma coisa que a gente deixa para fazer no nosso tempo livre: arrumar os armários, podar as roseiras, retirar as teias de aranha dos cantinhos, tirar o pó. Se não tivermos cuidado, estaremos dedicando todo o nosso tempo livre ao cumprimentos de tarefas após tarefas. 

O mesmo se diz de quem trabalha fora: ao invés de tirar dez minutinhos para o café, as pessoas aproveitam para colocar alguma coisa em dia. Quando eu trabalhava fora, os intervalos entre as aulas eram todos dedicados à preparação de outras aulas. 

Lembro-me de um final de tarde muito cansativo; eram cinco da tarde, estava um calor horroroso e minha próxima aula seria às sete. Todos os professores estavam em sala de aula, e decidi que ao invés de começar a preparar as aulas da semana seguinte, eu ia antes tirar algum tempo para descansar. Apaguei as luzes da sala dos professores, virei o ventilador na minha direção, coloquei os pés para cima em uma cadeira e fechei os olhos. Dez minutos depois, alguém passou no corredor e me viu. Ela entrou, acendendo a luz e perguntando: "Você está bem? Precisa de alguma coisa?" Respondi que estava bem, mas ela continuou me perguntando qual era o problema comigo. Quando insisti que estava apenas descansando, ela me deu um tapinha nos ombros e saiu, dizendo que se eu precisasse conversar, ela estaria disponível, e saiu, deixando a luz acesa.

As pessoas não estão acostumadas a verem as outras descansando. Logo concluem que há um problema de saúde, ou emocional. Se você está apenas parado, contemplando a natureza ou o movimento da rua, você está deprimido. Há muitos anos, quando eu era uma estudante, o pai de uma amiga passou de carro e me viu parada no ponto do ônibus. Por algum motivo, ele não podia me oferecer uma carona, e seguiu adiante. Eu estava bem debaixo de um salgueiro chorão, uma árvore linda, e eu contemplava o vento agitando suas longas folhagens, e nem sequer o vi passar. Quando nos reencontramos, ele me perguntou por que eu estava tão triste naquele dia. Só que eu não estava triste! Estava apenas parada, olhando para uma linda árvore que ninguém olhava, embora passassem por aquela ela centenas de vezes por ano.

Para mim, tempo livre é para não fazer nada. É como eram as horas de recreio na escola, mas ao invés de brincar, eu me sento no pátio e apenas observo. É o momento de aguçar minha percepção, descansar o corpo e a alma. Hora de não fazer absolutamente nada - por mais estranho que isso pareça.