terça-feira, 15 de agosto de 2017

Sonhos






De onde vêm os sonhos que a gente sonha enquanto dorme?

Às vezes, sonho coisas das quais me esqueço assim que eu acordo, se não anotá-las; noutras, sonho com coisas absurdas, sem pé nem cabeça, como diria a minha mãe. Sonho também com gente que já morreu e com gente que eu não conheço, como se as conhecesse. Sonho com lugares onde nunca estive.

Sonho com casas. Geralmente, casas grandes, antigas e que precisam de reformas. Elas têm longos corredores, portões de ferro que rangem, jardins abandonados que um dia foram lindos, paredes descascando. Como as casas dos filmes de terror, só que elas não me causam medo. Eu quero comprá-las e reformá-las. Eu ando pelos cômodos observando e planejando, antecipando como elas ficarão depois que eu...

Eu sempre gostei de casas antigas. Elas têm história. Pessoas foram felizes e infelizes nelas. Talvez, alguém tenha morrido nelas. Não gostaria de viver um uma casa novinha em folha. Começar do zero.

Fico pensando: quando eu morrer, o que as pessoas pensarão ao entrarem na minha casa?

Hoje assisti pela enésima vez o filme Grandes Esperanças. Nele, uma velha senhora vive em uma mansão em ruínas, desde que o noivo não apareceu para o casamento. O tempo parou naquela casa, e no jardim tomado pelas ervas daninhas, ainda se vê as ruínas da festa: a mesa, os copos e pratos, talheres e enfeites da festa que aconteceria, caso o noivo tivesse aparecido. Uma parte da casa não tem mais telhado, e o pé direito é altíssimo. Quem olha de baixo, vê as paredes em ruínas e o céu cheio de nuvens e de pedaços azuis. A casa do filme me fascina.

Acho que quando envelhecemos, ficamos como aquela casa: o telhado, os limites que construímos, começam a ruir, e o céu começa a surgir. As paredes descascam as pinturas, desbotam as cores mentirosas e os vernizes sociais. O chão pode ceder a qualquer momento - e ele vai ceder - nos tragando. Os limites entre o lado de fora e o lado de dentro tornam-se devassáveis, como se fôssemos ficando transparentes. Começamos, quem sabe, a contar as nossas histórias, mesmo aquelas que tentamos esconder durante toda uma vida, mesmo que elas não interessem a mais ninguém. Acho que é uma tentativa de sermos lembrados, de termos um significado.

 Nos tornamos casas antigas cheias de lembranças, e as mesas de todos os nossos banquetes - que aconteceram ou não - ainda existem no jardim. E os que nos fazem chorar são exatamente aqueles que não aconteceram. Ninguém apareceu para a festa. 

Minha mãe sempre me contava histórias de vida antigas, desde que eu era pequena. Lembro-me de muitas delas, e às vezes, coloco alguns dos seus personagens (que já estão mortos há muitos anos) em meus contos. Acho que ela talvez soubesse que um dia, de uma maneira ou de outra, eu contaria algumas daquelas histórias. 

Casas antigas e em ruínas não são muito visitadas. As pessoas estão ocupadas demais construindo suas próprias paredes, erguendo seus muros, plantando seus jardins. Mas se ao menos elas dessem alguma atenção às casas antigas, talvez evitassem muitos erros de construção.Talvez aprendessem a erguer vigas mais firmes e paredes mas sólidas, e muitas, muitas janelas, todas elas abertas para o nascer e o pôr do sol. Talvez se lembrassem de fazer clarabóias nos tetos para que pudessem sempre ver o céu. 





terça-feira, 8 de agosto de 2017

Chateações






Às vezes me surgem chateações. Não sei de onde elas vêm. Parece que as coisas ficam amarradas, ou então dá a impressão de que cada passo é difícil, como se os pés estivessem presos à lama movediça que fizesse de cada um deles, um esforço e um sacrifício. Nada dá certo. As portas estão fechadas.

Vou lá para fora. Há um gramado verde para deitar e olhar as copas das árvores. Há dois cães ávidos por brincadeiras e afagos. Há tantos passarinhos cantando nas árvores, esperando serem alimentados. Fecho os olhos e presto atenção aos ruídos do dia: lá longe, alguém canta.O motor de um carro. O vento nas folhas da mata em frente. Cães latindo em algum lugar. Um rádio ligado. Vida.

Vida.

Às vezes, as respostas que esperamos não chegam, não acontecem. É sempre tão difícil aguardar o tempo das coisas! Para algumas, o tempo parece voar, enquanto para outras, ele se arrasta languidamente... por isso eu chego a pensar que não existe um tempo, mas vários. Há tantas coisas no ar, esperando para acontecer! Elas me olham, enfileiradas, aguardando algum sinal que eu não entendo...

Mas lá fora, os olhos fechados, os cães aconchegados a mim, o calor do sol do inverno me deixa mais tranquila. Tudo dá certo sempre. Mesmo quando eu achei que tudo tinha dado errado, a única coisa que aconteceu é que as coisas aconteceram como eram para acontecer, e não como eu queria. E depois das lágrimas secas, eu vi que tudo continuava, e para frente... porque vida não acata estagnação. As coisas podem demorar, às vezes, mas elas sempre acontecem, se a gente bater e esperar um pouco até que as portas se abram. Talvez o tempo esteja caminhando muito devagar, mas ele está caminhando. Ele ouviu as batidas. Se resolver não abrir, é porque não era para ser.